Esquadrão Suicida: um “quase lá”

O filme Esquadrão Suicida estreou dia 4 de agosto, depois de um bom tempo de burburinho, expectativa, hype e divulgação. Inicialmente, minha relação com o filme era apenas de estar animada para a aparição da Arlequina, personagem que tenho gostado bastante de acompanhar nos quadrinhos. Entretanto, os diversos trailers e notícias acerca da história e de outros personagens me deixaram numa expectativa maior para o filme como um todo, embora sempre com uma sensação de cautela, receosa dos problemas que poderiam aparecer, principalmente com o fato da hipersexualização da Arlequina ter ficado clara na divulgação.

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Com a estreia do filme, aguardei um pouco antes de me jogar no cinema e as críticas que surgiram minimizaram bastante minha esperança de ver um filme legal. Na verdade, assisti quase pronta a não curtir a produção. Digo isso para deixar mais compreensível a perspectiva a partir da qual fui assistir, antes de apresentar minhas conclusões sobre.

Importante ressaltar que não sou uma grande conhecedora de aspectos técnicos de cinema e não tenho muita proximidade com o Universo DC, então minha visão é de alguém relativamente leiga e incapaz de me aprofundar em certas nuances que pessoas que têm esses conhecimentos poderiam apresentar acerca de Esquadrão.

O filme narra, em resumo, um momento posterior aos acontecimentos de Batman Vs Superman (embora não seja necessário assistir um para compreender o outro), quando Amanda Waller propõe a criação da Força-Tarefa X, grupo formado por vilões super-poderosos controlados por um dispositivo eletrônico que os coloca sob ameaça de morte (havendo também a promessa de diminuição de suas penas a cada missão cumprida, considerando que todos estavam presos ou condenados). O objetivo com esse grupo é possibilitar que o governo tenha acesso a um poder que possa ser facilmente descartado e incriminado, caso os vilões sejam pegos ou descobertos. Entretanto, um dos integrantes da força tarefa, Magia, consegue escapar, se tornando a “vilã de verdade” da trama, a qual os outros terão que enfrentar.

Entrando na questão da análise em si, posso adiantar que acabei gostando do filme. Acredito que ter ido assistir sem esperar grandes maravilhas e consciente dos aspectos problemáticos no tratamento da Arlequina contribuiu para que os pontos positivos ficassem mais ressaltados, embora muitas questões tenham me incomodado.

Um deles foi a sensação de que a história narrada parecia se perder em diversos momentos, como se estivesse faltando algo na evolução de uma cena para outra. Um exemplo disso é a construção da vilã, a qual passamos o tempo inteiro sem compreender exatamente quais são suas motivações, o que ela realmente pode fazer em termos de poderes e, a pior parte, o fato de ser uma vilã que não dá a sensação de representar uma ameaça. Apesar de Magia ser uma ameaça, a forma que a história é contada parece colocá-la em segundo plano, não passando para quem está assistindo a sensação que deveria ser a dos personagens, de estarem diante de um quase apocalipse e precisar lidar com aquilo.

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Boa parte disso se deve à caracterização falha da personagem, o que acaba por se repetir para outras pessoas na trama. Amarra, Crocodilo e Capitão Bumerangue são engolidos pelos acontecimentos, sem qualquer momento que os torne mais marcantes, às vezes apenas servindo como alívio cômico. Outros personagens, apesar de serem melhor caracterizados, parecem estar deslocados na história, a exemplo de Katana e Coringa (se foi um Coringa bom ou ruim, creio que dependa mais da opinião de cada pessoa, porém a personalidade do personagem me pareceu bem delineada).

Arlequina, Pistoleiro, El Diablo, Amanda Waller e Rick Flag são personagens com quem, em algum momento, o espectador consegue se conectar e conectá-los à história do filme, o que me fez sentir muito um gostinho de quero mais em relação aos quatro primeiros (com o último provavelmente não aconteceu isso por uma mera questão de antipatia pessoal pelo fato de ser um homem militar com a maior pose de estadunidense e ainda com flag no nome. Peço desculpas de antemão pelo preconceito).

Apesar desses bons personagens e algumas ótimas cenas com eles, a sensação da história se perder não me abandonou em nenhum momento. O filme tinha várias boas histórias em mãos. O confronto com a Magia, o conflito ético de estar obrigando prisioneiros super-poderosos a lutar, a relação entre os integrantes da equipe, a própria história de cada um dos personagens, tudo isso parecia estar lá, mas como se fosse uma sopa de letrinhas, sem qualquer coesão. O filme parecia dizer: “Vejam, tenho uma grande história aqui, mas não faço a menor ideia de como contá-la!”.

E como se reconhecesse essas falhas de narrativa, parece ter tentado compensar com cenas de ação muito boas e visual marcante, além de ótimas músicas. A trilha sonora de Esquadrão Suicida é um deleite para os ouvidos. Entretanto, para mim, era só isso, apenas para os ouvidos. Da mesma forma que as várias histórias não se combinavam entre si, as músicas pareciam desconectadas umas das outras e da trama. Combinavam pontualmente com a aparição de cada personagem, mas de forma simplista, sem que houvesse um ritmo interessante para todo o filme.

Um aspecto que pode justificar esses erros talvez seja a tentativa de alçar o Universo DC no cinema direto ao momento no qual se encontra o Universo Cinematográfico Marvel. Não se trata aqui de fazer uma comparação de favoritismo ou querer que esses dois universos de super-heróis sigam a mesma linha, mas de constatar que o Universo Marvel estabeleceu um parâmetro, uma construção, que ainda não existe para o Universo DC.

Talvez por entender que são volúveis as ondas de sucesso e que a hype por super-heróis no cinema pode chegar ao fim, a DC decidiu entrar numa espécie de corrida contra o tempo para estabelecer seu universo, o que dá a impressão de pressa, de estar sendo mal-feito, de falta de coesão. Não sei indicar exatamente uma solução para evitar isso, mas acho difícil conseguir dessa forma o que a Marvel fez construindo seu universo por muitos anos, com uma boa quantidade de filmes focados em personagens específicos e um trabalho bem mais consolidado de estabelecimento de personagens e de equipes.

Assim, a impressão que ficou é que houve uma tentativa de colocar nos ombros de Esquadrão mais do que ele poderia carregar em termos de construção do Universo DC. Tentou-se produzir algo que fosse o mais grandioso possível, cheio de cenas de ação incríveis, músicas ótimas e que, no geral, era muito bonito visualmente. Entretanto, deixou escapar coisas básicas para fazer qualquer história funcionar, que é narrar de uma forma que quem assista se sinta ligado aos personagens que ali estão e com a trama contada, o que só ocorre em alguns raros momentos do filme.

No geral, é possível curtir Esquadrão Suicida, principalmente indo assistir sem muitas expectativas e consciente das problemáticas no filme. Acredito que é possível considerar que ainda não chegou o momento de dizer “é isso, esse é o Universo DC no cinema e agora vai dar certo”, mas pode ser um começo, considerando que se alcançou, ao menos, que alguns personagens nos deixassem com curiosidade sobre o que mais têm a nos oferecer.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: Ficaram de fora desse texto vários aspectos que eu gostaria de abordar de forma aprofundada, principalmente sobre a relação entre Arlequina e o Coringa e as questões de representatividade do filme. O motivo para isso é simples: Quando estava escrevendo sobre essas questões, percebi que o texto ficaria demasiado longo e que o melhor seria um texto específico para isso. Então, o que posso dizer é: Aguardem 😉

Marina
meus textos | filmow | skoob
Militante do Levante Popular da Juventude, de esquerda, feminista, lésbica e afrontadora da família tradicional brasileira. Nas horas vagas, estuda Direito, devora quadrinhos, lê livros, assiste filmes e algumas séries.
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