O Charme da Animação de 101 Dálmatas

Não é novidade que todo mundo que gosta de filme de animação tem pelo menos um filme favorito da Disney. Seja um clássico, como A Branca de Neve, um menos conhecido, como Aristogatas, ou um dos mais recentes, como Frozen: Uma Aventura Congelante, ou até mesmo uma misturinha disso tudo, ele está lá na listinha. No meu caso, meus filmes favoritos são A Bela e A Fera, Mulan e 101 Dálmatas. Os dois primeiros, todo mundo está cansado de assistir e ver aparecendo em tudo quanto é tipo de readaptação. Já o último, e talvez meu favorito entre os três, é menos lembrado.

101 dalmatas

101 Dálmatas foi lançado em janeiro de 1961, um ano depois de A Bela Adormecida. Na época, o estúdio enfrentava uma crise financeira após seu filme mais caro até então não ter arrecadado o dinheiro que haviam gasto em sua produção – o que, inclusive, levou a um período de quase trinta anos sem nenhuma nova princesa como protagonista. Em um cenário desses, com conversas sobre um possível desbandamento da divisão de animação para focar nos filmes live action e nos parques temáticos, uma produção de baixo custo era o mais apropriado.

Foi aí que entraram os artistas da Disney, entre eles Ken Andersen, Milt Kahl e Marc Davis, e sua nova forma de fazer animação. Com um estilo diferente do que era usado até então e utilizando novas técnicas, o estúdio conseguiu produzir o filme de mais sucesso do ano, apesar da desconfiança inicial do próprio Walt Disney.

Graças a tecnologia da fotocopiagem, que era recente na época, os artistas foram capazes de produzir um dos filmes de animação mais bonitos do período e ainda ajudaram a formar o estilo de animação que a Disney repetiria por algum tempo, tudo isso diminuindo os custos a metade! A xerografia utilizada em 101 Dálmatas permitiu a criação de uma atmosfera única e linda, além de tornar possível uma história com tantos cachorros cobertos de pintinhas – Afinal, vamos ser sinceros, como desenhar e animar tudo aquilo sem dor de cabeça? Além disso, essa nova tecnologia permitiu que os desenhos originais fossem utilizados no próprio filme, sem a necessidade de copiar tudo de novo, e ainda deixou comparações lindas do original e do produto final, pintado, pra gente ver. Podemos ver com clareza as linhas que a xerografia proporcionou nos personagens principais e nos fundos, que são coloridos fora dos desenhos e criam uma atmosfera charmosa.

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Os desenhos de Marc Davis

Outra técnica utilizada pelos artistas da Disney foi o uso de modelos reais dos carros e caminhões que vemos no filme. Os veículos eram pintados com linhas pretas de forma a parecer um desenho 2D quando colocado em frente ao cenário, e então, quando colocados na cena, eram pintados de forma a ornar com os personagens desenhados a mão – Processo esse que a Disney e outros estúdios continuaram a usar até que programas de computador pudessem fazer o mesmo.

É claro que alguns painéis são repetidos, como a cena em que Roger tenta fumar seu cachimbo mas é puxado por Pongo três vezes seguidas, ou quando um mesmo personagem fica estático por um tempo a mais do que o necessário, mas essa é parte da graça, não é? Uma animação de 1961 pode fazer isso. Ainda mais quando apresenta cores tão vivas quanto os verdes do parque em que os casais se encontram ou o vitral da igreja em que se casam, cenas de felicidade extrema que contranstam lindamente com os cinzas e brancos da neve quando os filhotinhos fogem de Cruela.

Tudo isso foi feito para dar aos espectadores uma história com ares tipicamente britânicos e modernos, mas com protagonistas não humanos: Dálmatas. Com apenas seis pessoas com um papel maior, a animação tem um narrador cachorro, Pongo, filhotinhos em perigo e mais um bando de caninos e animais de fazenda que ajudam os personagens principais a fugir de um perigo real – Cruella De Vil, uma das vilãs mais famosas da Disney. A história, que começa com a união de Pongo e Perdita e seus donos, se desenvolve em um drama familiar delicioso e angustiante, apresentado em um dos desenhos mais charmosos do estúdio inteiro – opinião minha, hein.

Claro que não dá para falar de 101 Dálmatas sem falar de sua vilã – Cruela De Vil. Uma das mais famosas dos estúdios Disney, a fashionista que, por onde anda, literalmente leva uma áurea verde ácida com a fumaça de seu cigarro, aterroriza não só os humanos – apesar de Roger se opor a ela gaguejando furioso – mas também os filhotinhos e seus pais. Com um telefone vermelho com cabeça de demônio, roupa de cama rosa, um carro estiloso e casacos e mais casacos de pele, ela consegue ser uma das vilãs mais assustadoras justamente por estar tão disposta a ultrapassar limites para conseguir a roupa que quer.

A verdade é que o grupo responsável por 101 Dálmatas conseguiu, no final das contas, salvar a divisão de animação do estúdio, apresentar uma das vilãs mais icônicas da Disney, criar técnicas de animação que ajudaram todo mundo e ainda conseguiram brincar com uns cachorros legais no meio de tudo isso, criando um legado para seu estúdio, mesmo que não tão famoso quanto suas princesas. Para quem estava tendo que lidar com um chefe que não botava fé no próprio trabalho, fizeram mais do que muito.

Emily
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Estudante de Letras em São Paulo. Ama monstros e cachorros e, principalmente, lobisomens. Puxa o erre, adora parênteses e quase nunca usa o plural direito.

Um comentário sobre “O Charme da Animação de 101 Dálmatas

  1. 101 Dálmatas é um filme maravilhoso! Nunca fui capaz de compreender porque tão esquecido no mundo das animações da Disney… Fez e faz parte de mim por inteiro – não consigo lembrar um momento da minha infância que eu não estivesse na frente da televisão assistindo ao VHS deles, ou comprando caderninhos de recreio do tema. A respeito do filme propriamente dito, consigo lembrar dos pequenos estalos que surgiam quando o carro de Jasper e Horácio entrava em ação para pegar os filhotinhos. Hoje em dia, assistindo, sinto falta desses estalinhos que despertam esse sentimento nostálgico.

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