Aposto que você não conhece The Last Bus

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Posledný autobus, ou The Last Bus, é um curta de animação produzido na Eslováquia e lançado em 2011. Dirigido por Ivana Laucikova e Martin Snopek, o filme tem como protagonistas animais silvestres em fuga durante a temporada de caça e, a princípio, eu não ia escrever sobre isso.

Eu tive dois grandes problemas para falar sobre esse filme; o primeiro era que eu não conseguia lembrar o nome de jeito nenhum, e o segundo era que, apesar de ser bem fácil de encontrar, ele não está disponível com legendas em português. O primeiro problema foi fácil de resolver, já o segundo continua sem solução. Mesmo assim, achei que valia a pena escrever um post sobre esse curta por dois motivos: só há uma cena com falas e mesmo que você não entenda uma palavra do que está sendo dito, ele é tão bem feito que ainda é totalmente compreensível.

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The Last Bus retrata a trajetória de um grupo de animais silvestres que estão fugindo da temporada de caça. Quando estão prestes a embarcar no ônibus que deve levá-los à segurança, longe da floresta, um lobo se junta a eles de forma abrupta e acaba comprometendo a viagem de todos os tripulantes com sua presença ameaçadora, que nesse caso é ameaçadora por ele ter se tornado o principal alvo dos caçadores, e não por ele ser um predador. A jornada se complica ainda mais quando eles se deparam com uma das vítimas dos caçadores ferida na estrada.

É aí que a coisa fica interessante, porque se você sabe só um pouco sobre a Eslováquia, sabe que ela fazia parte da Tchecoslováquia, que foi invadida pelo exercito nazista em 1938 e também onde ocorreu a Primavera de Praga em 1968, ambos acontecimentos que acabaram gerando grande fluxo de refugiados saindo do país. Por que saber disso é relevante para quem assistir The Last Bus? Porque aí então o curta passa a fazer mais sentido. Um grupo fugindo de sua própria casa no meio da noite para escapar da violência da invasão e perseguição que afeta diretamente todos os moradores daquela localidade, mesmo os que não estão sendo alvos dessa caça. Tudo fica ainda mais claro quando nos lembramos que a história daquele povo é marcada pelos acontecimentos retratados no curta.

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Além do contexto, outras duas coisas que chamam atenção são a fotografia e a trilha sonora do curta. As cores sóbrias ajudam a tornar o ambiente pesado, como deveria ser uma viagem de fuga, e a música vai te causar aflição, mas também vai ficar na sua cabeça o resto da vida (espero que não literalmente).

Também preciso dizer que nunca na vida você vai ver máscaras tão expressivas. A linguagem corporal dos atores é incrível e é impossível não se comover com o ar cansado e perdido dos animais – a agressividade desesperada do lobo, a frieza calculada do texugo, a atitude de liderança que o coelho assume quando os caçadores os encontram e param o ônibus a procura do lobo fugitivo, a preocupação da mãe com seus filhotes amedrontados. Tudo isso mesmo com os atores atuando com os rostos cobertos e sabendo que não poderiam contar com aquilo que normalmente seria sua principal ferramenta, o rosto.

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Os 15 minutos que normalmente pareceriam longos para um curta-metragem, nesse caso, passam rápido demais. Mesmo em tão pouco tempo, os personagens nos cativam e seus conflitos nos angustiam tanto quanto um longa de duas horas faria.

Laucikova e Snopek dirigiram The Last Bus com competência e sensibilidade, mesmo lidando com um tema tão pesado e que ainda hoje se mostra não só atual, como também necessário. Em tempos de ondas de refugiados desamparados sofrendo todos os tipos de abusos e violências, esse curta nos lembra de ter empatia e de que, ao enfrentar o medo e o desespero, qualquer um de nós pode agir de forma egoísta e desumana, e que isso não torna tamanho sofrimento inválido.

Fica claro que o filme mereceu todos os prêmios que ganhou e aos quais foi indicado desde sua estreia em 2011, e espero ter convencido que vale a pena frequentar os festivais que promovem a exibição de filmes com os quais normalmente não teríamos contato e que tem ingressos bem baratinhos, sério.  Espero que vocês aproveitem esse pavê.

Laís
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Lis é estudante de letras que queria viver umas dez vidas pra estudar, ler e assistir tudo o que tem vontade. Rainha do fandom de um membro só. Não sabe controlar o sarcasmo.

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