‘Mozart in the Jungle’: a música está em você

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Mozart in the Jungle não é uma obra convencional. Com uma premissa interessante e roteiro convidativo, não se poderia esperar menos: a série traz consigo mensagens de impacto, usualmente concernindo a música, o amor e a ambição, que são retratadas de maneira sutil através de diálogos divertidos e despretensiosos. Estes, em um primeiro momento, podem até não aparentar ser tão profundos. Contudo, se você os observar de perto, perceberá que são muito mais significativos do que imagina.

Integrando o gênero comédia, Mozart in the Jungle é uma sitcom de cerca de meia hora de duração por episódio que, a princípio, segue a vida de dois indivíduos em lados opostos de suas carreiras. Rodrigo de Souza é um prodígio e regente em ascensão que acaba de ser contratado pela Orquestra Sinfônica de Nova York para substituir o maestro anterior, Thomas Pembridge, enquanto Hailey Rutledge é uma habilidosa oboísta que sonha em ingressá-la, mas nunca obteve sucesso. Seu talento é finalmente descoberto quando Rodrigo resolve realizar audições para um novo oboísta e Hailey, através de uma mensagem de Cynthia, violoncelista com quem toca em uma peça da Broadway e que curiosamente também está na orquestra, é convencida a tentar a vaga. Ela acaba por conseguir, e é a partir desse momento que sua vida e a de Rodrigo se cruzam.

A história é baseada no livro “Mozart in the Jungle: Sex, Drugs, and Classical Music”, da ex-oboísta Blair Tindall, que retrata as memórias de sua carreira profissional em Nova York durante o período no qual tocava para a Filarmônica, tanto quanto em musicais da Broadway e em festas da alta sociedade nova-iorquina.

Contando com atores de peso em seu elenco, como Gael García Bernal, Saffron Burrows e Malcolm McDowell, a sitcom não deixa a desejar em sua criação, que ficou a encargo de Roman CoppolaJason SchwartzmanAlex Timbers e Paul Weitz, grandes nomes do cinema que resolveram se arriscar no mundo dos seriados ─ e acertaram. Possui produção norte-americana e, atualmente, é exibida pelo canal Amazon.

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Os protagonistas da série, da esquerda para a direita: Cynthia (Saffron Burrows), Thomas (Malcolm McDowell), Hailey (Lola Kirke), Gloria (Bernadette Peters) e Rodrigo (Gael García Bernal)

A avistei por acaso em meados de 2014, em uma procura por novas séries para assistir. A inédita e intrigante combinação de “Mozart” e “jungle” (selva, em inglês) no título me atraiu de imediato. Desde criança, recebo incentivo da minha mãe para escutar música clássica. Foi ela quem me apresentou a Mozart, a Vivaldi e a Beethoven ao colocá-los para tocar enquanto eu dormia. Naquela época, mal era de meu conhecimento, mas alguma parte de mim já sabia que esse costume permaneceria comigo por um longo tempo. Com o passar dos anos, minha afeição pela música clássica tomou proporções gigantescas, e minha curiosidade acarretou com que descobrisse diversos novos compositores, sinfonias e instrumentos. Bach, Tchaikovsky, Chopin, Debussy e Brahms, dentre incontáveis outros, certamente são os responsáveis por um dos meus maiores afetos e por comporem a trilha sonora da minha existência.

No entanto, nem só de Mozart vive a série, e tampouco só de selva, apesar de essa ser uma excelente metáfora para se referir aos assuntos que aborda. A sua essência sem dúvidas reside na orquestra ao redor da qual gira; porém, arrisca-se a ir bastante além disso, trazendo à tona acontecimentos e dificuldades recorrentes da vida adulta com as quais eventualmente todos trombamos, como a busca por um sonho, o sentimento de desistência e a firmeza da dedicação em realizá-lo.

Adicionando um toque moderno e contemporâneo à música clássica ─ algo que estava, até então, deixado de lado na atualidade ─, ela nos introduz ao restrito universo dos bastidores de uma filarmônica que, na realidade, não é tão intimista quanto pensávamos. Somos apresentados a cada um dos indivíduos por trás dos instrumentos, alguns mais intimamente que o resto, assim como aos dois maestros e à protagonista com o desejo de estar ali.

É dentro deste cenário que a música se personifica e toma forma, não como um ser humano, mas como uma presença constante que pode ser notada conforme o desenrolar dos episódios. Ela é como uma amiga que lhe oferece o ombro, lhe conforta, ri suas alegrias e chora suas dores. Ela vem de todas as maneiras possíveis, seja por meio de instrumentos musicais, por meio de uma voz cantando sozinha, ou por meio de um conjunto de ambos. O som é o principal o modo que Mozart in the Jungle emprega para se comunicar com o telespectador, conversando diretamente com seus anseios e emoções. A participação do instrumental orquestrado de Lisztomania na abertura, canção da banda francesa Phoenix, presumivelmente entrega um pouco de seu conteúdo.

Os improvisos de Rodrigo refletem tudo aquilo que, no nosso subconsciente, almejamos fazer, e que, com frequência, não possuímos coragem suficiente para realmente executar. Ele vive no limite, sempre determinado a instigar os membros da filarmônica a seguir os próprios instintos, a ouvir suas vozes interiores e a aproveitar intensamente cada instante sem ligar para as consequências, pedindo deles o melhor que têm para oferecer. Tal fato, inclusive, o motiva a permanecer inspirando o mundo e adquirindo inspiração.

A paixão pela música é o que move os personagens, originando vínculos entre eles, os unindo e gradualmente os tornando uma família. No campo individual, cada um deles está perseguindo os próprios objetivos e tentando se encontrar durante o processo. Os músicos são a representação ideal de pessoas reais e mundanas com as quais o telespectador se identifica pois, independentemente de sua escolha de profissão, eles querem aproveitar plenamente cada instante e exercer o que amam tanto quanto nós. Todavia, a identificação maior se dá a partir de Hailey, que tarda a conquistar seu propósito, embora nunca desista e continue insistindo até que o êxito venha. Principalmente, eles nos mostram que toda vitória necessita ser comemorada como se fosse única. E são, de certo.

Uma mistura de humor e drama, a obra nos convida a nos aprofundar dentro de nós mesmos, a nos desafiarmos e a nos testarmos para constatar nossas verdadeiras capacidades. A mensagem, ao final, é simples e clara: não importa quem você é ou de onde você vem, você pode ─ e deve ─ alcançar os seus sonhos.

Beatriz
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Contadora de histórias que sonha em viajar o mundo e estudante de Direito no resto do tempo. Viciada em séries e em pesquisar sobre mitologia.
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