Não boicote Aquarius

Fui assistir Aquarius sem saber muito sobre o filme: Nada além das polêmicas que gerou em razão do posicionamento de sua equipe, denunciando o golpe no Brasil (o que provocou alguns pedidos de boicote à obra), e do fato de ser o novo longa de Kleber Mendonça Filho, diretor de O Som ao Redor. Já era o suficiente para ter ido ao cinema com as expectativas bem altas. Embora expectativas altas sejam um risco e um convite à decepção, as minhas foram superadas.

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A estreia da obra data do dia posterior à consolidação do golpe que foi denunciado pela equipe.Alguns poderiam dizer que a ênfase dada a tais manifestações estaria tirando do foco “o que realmente importa”, que seria a qualidade da produção cinematográfica. Entretanto, lembrar das denúncias realizadas pelo diretor e pelo elenco é falar do próprio filme. Afinal, há nesses protestos uma grande carga de algo que o filme fala de sobra: a resistência.

Em Aquarius, acompanhamos um pouco da vida de Clara, escritora e jornalista, além de última moradora de um edifício antigo (que dá nome ao título da obra), localizado na praia de Boa Viagem, em Recife. Os outros apartamentos do local estão nas mãos de uma grande empresa de construção, que pretende erguer ali outro prédio, sendo necessário, portanto, que Clara entregue seu apartamento. Entretanto, os desejos da personagem vão diretamente contra isso, optando por continuar a morar naquele “prédio-fantasma”. Assim, se estabelece o principal e mais evidente conflito da trama.

Para além desse “embate”, somos apresentados a diversos outros aspectos da vida de Clara. Seu dia a dia, em uma grande relação com o mar e com a música. Suas cicatrizes (visíveis e invisíveis) deixadas pelo câncer. A distância e a proximidade com várias pessoas da família. Seus prazeres e angústias. Seu jeito determinado e (quase sempre) seguro. Além disso, também conhecemos várias figuras. Sobrinho, filhos, irmão, amigas, Ladjane (que trabalha na casa de Clara), Roberval (bombeiro salva-vidas na praia de Boa Viagem).

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Dessa forma, acompanhamos Clara em sua saga contra as investidas da construtora, condensada na figura de Diego, o qual é responsável pelo projeto que pretende substituir o Aquarius por outro prédio. Figurativamente, Diego representa não só uma empresa, mas todo um sistema que oprime, que pensa uma cidade voltada para o lucro e não para as pessoas, que resume questões humanas como a moradia a aspectos meramente financeiros.

Diante de Diego e sua construtora, Clara está enquanto resistência. Resistência enquanto vítima desse sistema. Resistência enquanto pessoa que envelhece. Resistência enquanto pessoa que batalhou e batalha contra as consequências do câncer. Resistência enquanto mulher.

Um grande ponto para o filme foi ter deixado evidente que o fato da personagem principal ser uma mulher faz com que os desafios enfrentados pela personagem tenham um caráter específico, o que pode ser exemplificado pelas cenas em que Clara se exalta contra o fato de tentarem dar a impressão de que ela se nega a vender o apartamento por ser “louca”, acusação que muitas mulheres sofrem quando remam contra a maré.

Outro aspecto incrível é que, entre o sutil e o escrachado, assim como em O Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho nos apresenta as contradições da classe média. Clara está a todo momento na posição de vítima de um sistema que tem como objetivo o lucro no lugar do bem estar das pessoas. Entretanto, ela tem a opção de escolher não sair do seu apartamento, de dizer que a questão não é o dinheiro e de demonstrar que não se importa com o valor oferecido. Apesar de existirem, as ameaças à integridade física de Clara são poucas e as táticas utilizadas para fazê-la mudar de opinião são, apesar de horríveis, “leves”. Ao menos em comparação com quem sofre o processo de gentrificação sem ter o menor poder de escolha e tendo como alternativa a repressão estatal com todo o aparato policial que for necessário.

Mesmo que o debate da desigualdade na gentrificação não seja evidenciado, os privilégios de Clara enquanto classe média são expostos, através de Ladjane, trabalhadora doméstica em sua casa, e através de vários momentos e diálogos que tratam da questão do trabalho doméstico a partir da relação entre “patrões” e “empregadas domésticas”. Outro fator marcante é perceber que, enquanto Clara, em seu conflito, apenas passa por momentos de grande tensão, podendo optar por sair ou não de seu apartamento, Ladjane amarga a morte do filho, morto por um motorista embriagado, cujo caso “não deu em nada”, nas palavras dos personagens.

Importante destacar que os aspectos sociais, emocionais e políticos abordados pelo filme (sendo os já citados apenas alguns desses) acabam por se fazer sentir ainda mais fortemente por haver um grande senso de realidade durante a trama. Os diálogos, a forma como as cenas são filmadas, as caras e bocas das personagens, fazem sentir que ali não se trata de mais alguns personagens qualquer, mas de gente de verdade, com os quais é fácil se identificar.

Assim, numa história que aparentemente trata apenas de um conflito pessoal, nos enfeitiçando de admiração por Clara, Aquarius traz um prato cheio de debates que vão para além do individual, chegando ao coletivo e nos deixando uma lição de resistência, da qual poderemos fazer grande uso diante do atual cenário em nosso país. Fico grata por ter tido o prazer de prestigiar esta obra.

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Marina
meus textos | filmow | skoob
Militante do Levante Popular da Juventude, de esquerda, feminista, lésbica e afrontadora da família tradicional brasileira. Nas horas vagas, estuda Direito, devora quadrinhos, lê livros, assiste filmes e algumas séries.
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