Angie & Zahra: Amizade no fim do mundo

Você provavelmente já conhece Yulin Kuang. Talvez não pelo nome, mas por um de seus trabalhos mais famosos: O curta I Ship It, de 2014, com Mary Kate Wiles (Que já apareceu aqui quando a Sol falou de webseries), Sean Persaud e Joey Richter sobre uma cantora de wrock (Aquele estilo musical em que todas as músicas fazem referência a Harry Potter) que decide participar de um concurso de bandas de fandom para se vingar de seu ex-namorado. Recentemente, o curta foi regravado como uma série para a CW Seed.

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Mas o que você talvez não conheça são os outros trabalhos de Yulin. Nascida na China mas criada nos Estados Unidos, em Nova Jersey e depois na Pensilvânia, a cineasta é responsável pelo canal que leva seu nome e pelo Shipwrecked Comedy (Juntamente com Sean Persaud e Sinead Persaud) no Youtube, onde posta seus curtas e webséries. Entre seus trabalhos, temos a Tiny Feminists, um pequeno grupo de meninas que descobre o feminismo e resolve colocá-lo em prática em sua comunidade; Irene Lee, Girl Detective, uma menina que resolve ganhar dinheiro trabalhando como detetive e The Perils of Growing Up Flat-Chested, uma adolescente aprendendo a lidar com seu próprio corpo e seu novo namorado.

Como dá pra ver, os trabalhos de Yulin giram em torno de garotas – mais especificamente, mestiças. As atrizes principais são, em sua maioria, americanas de descendência asiática. Mas em nenhum momento esse é o foco de suas histórias. Ao contrário, elas vivem aventuras do dia a dia, aprendendo a lidar com a vida e vivendo comédias românticas ao mesmo tempo – exceto em Angie & Zahra.

Angie e Zahra são melhores amigas. Do tipo que estão sempre juntas, apoiando uma a outra seja qual for a situação. O apocalipse? O que é o fim do mundo provocado por alienígenas e zumbis quando as inscrições para a Harvard estão chegando e algumas verdades são colocadas na mesa, não é mesmo?

Irene Choi e Yasmine Al-Bustami interpretam a dupla de amigas sobrevivendo a sete meses de apocalipse no mais puro estilo. Com armas enfeitadas com glitter e pedras brilhantes e montando cabaninhas coloridas e femininas dentro de casas abandonadas, elas não se deixam abalar por discussões enquanto lutam contra uma família de zumbis que interrompe sua noite. 

As meninas são corajosas e não se deixam abalar por nenhum tipo de perrengue – assim como todos os protagonistas de filmes sobre zumbi de todos os tempos. O diferencial? Elas lidam com tudo isso da forma mais prática e fofa possível. Não há nenhum homem sofrendo pela morte de sua esposa e família (Um dos tropes mais usados de todos os tempos – e um dos mais chatos também) ou qualquer drama típico desse tipo de filme. Não há zumbis extramente espertos e rápidos também, o pior pesadelo para quem tem medo desses monstros (Eu, por exemplo). E não há o típico homem branco como personagem principal.

Assim como na maioria de seus trabalhos, Yulin Kuang coloca duas adolescentes não brancas como as personagens principais de seu curta. E elas estão longe de ser a “mulher forte” clichê que os filmes e seriados americanos costumam empurrar pra gente, cheias das habilidades graças aos irmãos mais velhos e aos pais loucos pelo apocalipse e, geralmente, super sexualizadas. Mas nem por isso elas deixam de ser fortes em todos os sentidos, mostrando que é possível sim criar personagens mulheres sem apelar para fórmulas pré-concebidas.

Na verdade, é muito fácil se identificar com Angie e Zahra. Sua mania por limpeza e suas preocupações tipicamente adolescentes – como a primeira vez com um namorado, caras chatos e preocupações com a faculdade – tornam as duas personagens muito mais reais que outras mulheres que vemos apresentadas em filmes de ação mais longos que os 10 minutos do curta.Você pode imaginar quão fantástico é para uma menina não-branca assistir um trabalho desses, tão lindo e feito por pessoas tão talentosas como Yulin, Irene e Yasmine?

Assim como em seus outros trabalhos, Yulin Kuang consegue criar uma atmosfera linda e delicada com personagens principais dispostas a fazer o que for preciso para atingir seus objetivos – sejam eles sobreviver ao fim do mundo, disseminar o feminismo na escola ou navegar no universo dos namoros e meninos. Tudo isso com muita habilidade, assim como é preciso para a sobrevivência em um mundo repleto de zumbis.

Emily
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Estudante de Letras em São Paulo. Ama monstros e cachorros e, principalmente, lobisomens. Puxa o erre, adora parênteses e quase nunca usa o plural direito.
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