Dora, de Bianca Pinheiro estreia o especial de terror deslumbrantemente

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Muitos já devem conhecer o trabalho da Bianca Pinheiro, ou no mínimo, já ouviu falar dela. Essa mulher está fazendo seu nome nos últimos anos e deixando sua marca registrada no mundo. Seu trabalho mais conhecido é Bear, uma webcomic adorável que foi publicada pela Editora Nemo e já está em seu terceiro volume. Ela também tem HQs publicadas na Vaca Voadora e algumas outras no seu blog pessoal. E ainda o Mônica – Força, a nova Graphic MSP e sua publicação mais recente (que sigo ansiosa para ler e falar dela aqui). Mas hoje eu vim aqui falar de Dora, afinal de contas, estamos em um especial trevosíssimo. Já conhecia o trabalho da Bianca com Bear, mas o primeiro contato que realmente tive com algum de seus trabalhos foi com Dora, que dei a sorte de ganhar de uma amiga (obrigada, Kationilda! ♡ ). A minha edição é da primeira leva, publicada através do Catarse;  hoje já está na sua segunda edição e está sendo lançada pela Editora Mino e você pode comprar na loja da própria Bianca, aqui.

Então vamos ao que interessa. Sobre o que é Dora, afinal? A história começa com uma senhora, mãe de Dora, prestando depoimento a um detetive na tentativa de defender sua filha, acusada de 15 assassinatos. Dora é uma menina estranhamente especial. Desde bebê não chora, não fala, mas seus olhos são de uma expressividade enorme, e observam minuciosamente tudo ao seu redor. Logo no início do depoimento, a mãe de Dora diz que quando a filha nasceu, já sabia que ela era especial, seu olhar dizia tudo o que viria pela frente: “Ela nos olhava como se soubesse que precisava fugir”.

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Trecho tirado do prólogo, ele está disponível para você ler aqui.

A HQ é composta por 10 capítulos, neles acompanhamos a trajetória da menina através da narrativa da mãe aliada às interrupções do detetive. Por meio de flashbacks, conhecemos Dora desde seu nascimento, passamos por sua infância e seguimos até a adolescência. O melhor são as sensações que essa leitura instigante causa. São comentados os acontecimentos estranhos que sempre as cercavam, babás amedrontadas e um incêndio no aniversário de 1 ano – que inclusive me lembrou o curta Ataque do Zezé (Jack-Jack Atackde Os Incríveis – mas com um toque mais assustador e de terror. E assim todos passam a temer a menina Dora, dia após dia, cada vez mais, crianças, adultos, a vizinhança inteira. Coisas ruins aconteciam, mortes aconteciam. A adolescência chega e as vozes acusadoras e os ocorridos só aumentam. Não se sabia porquê nem como, só haviam duas coisas absolutas: todos a acusavam como culpada e todos a temiam profundamente. E tinham razão em achar isso, ou será que não? A pergunta é deixada no ar, com dois narradores em que não se pode confiar completamente. A mãe, desde o início na luta para defender a filha de todas as acusações e fazendo o possível para proteger e não perder sua filha; alegando que Dora é reservada e tinha dificuldade de fazer amizades e que ela não tinha intenção de machucar ninguém. Do outro lado o detetive, que fazia de tudo para indicar que a acusada é culpada e cada vez mais afirmava o quanto era estranho tantas pessoas insistirem que a menina matou 15 pessoas, sendo assim, o seu olhar na narrativa e suas falas constantemente tinham o tom insinuador, como “será que essas meninas não perturbaram sua filha e por isso acabaram mortas?”

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Os títulos dos capítulos são construídos e reconstruídos, no fim da história, Bianca resgata o mesmo título dos primeiros capítulos – as primeiras tragédias, acusações e o medo – e os reconstrói de forma contrária no final. Não seria apenas uma menina diferente, que atrai coisas ruins para si sem ter o controle dessa situação? A lenda dessa paixão faz sorrir ou faz chorar? Bom, aqui é o leitor é quem sabe.

Bianca Pinheiro deu muita vida ao quadrinho. O traço é em preto e branco; simples, expressivo, definido, forte. Muito diferente do que você vai ver em Bear, e essa é uma das coisas fantásticas sobre a Bianca, sua versatilidade. E fica bem claro aqui como o traço forte e marcante é a voz da história, seguido do equilíbrio com os diálogos usados na medida certa, a perspectiva em cada quadro a quadro, o contraste do branco e do preto criando a atmosfera ideal e perfeita que a história precisava – pesada, tensa, sombria e misteriosa. Não só a existência desse contraste como a forma com que foi usado, o preto transbordando para fora dos quadros em vários momentos, como se o traço e a força do medo fosse aumentando no decorrer da história. Essa diagramação que a Bianca fez de página a página combinou direitinho com o que Dora pedia e foi mais um aspecto que me conquistou. É interessante que Dora, possui o mesmo nome da famosa Dora, a aventureira, do desenho animado; garotinha feliz, alegre, saltitante e no entanto, aqui, é completamente diferente; não fala, ameaçadora, perigosa, vive no clima de tensão, medo e suspense. A inteligência da Bianca Pinheiro nessa obra é gritante, tudo flui bem; o traço, a história, os diálogos, a diagramação conversam entre si e juntos formam um quadrinho inteiro e muito completo.

Como o Lielson Zeni disse no prefácio “A Bianca não é uma desenhista que quer fazer quadrinhos, ela é uma quadrinista que desenha (e bem)”. Não poderia concordar mais, a forma brilhante que Bianca pensou, construiu, conectou cada detalhe e conseguiu um resultado completíssimo reforça exatamente isso. Não é à toa que a quadrinista ganhou um troféu HQ Mix na categoria Novo Talento (Roteirista), a mulher sabe o que quer e consegue executar, é vislumbrante acompanhar o trabalho dela.

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A primeira vez que eu li, foi numa madrugada – clima perfeito para uma história com tamanho suspense e tensão – li sem parar até terminar. Depois que terminei, além da hq ficar ecoando na minha cabeça por bons dias, fiz questão de ir elogiar a Bianca tanto pelo instagram numa foto minha da hq, quanto no twitter. Eu reli a história para poder escrever sobre ela, não fiquei menos intrigada e ainda surgiram novas reflexões.

Dora é uma hq de suspense/terror com uma leitura muito instigante, um clima à lá Carrie, a Estranha, como muitos mencionaram, apesar de não ter sido inspirada nela. Narradores duvidosos, várias histórias dentro de uma só, flashbacks (fala sério, quem não gosta de flashbacks em histórias? São sempre emocionantes), uma protagonista  intrigante e muito digna de estrear o especial trevoso de outubro aqui no Pavê.

L.

2 comentários sobre “Dora, de Bianca Pinheiro estreia o especial de terror deslumbrantemente

  1. Pingback: Sobre minhas leituras de 2017 – Solaine Chioro

  2. Pingback: HQ Alho Poró da Bianca Pinheiro | Pavê

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