Pavê e palê: Contos da Chuva e da Lua

O post de hoje é dois em um: Vai ter recomendação de filme E de livro, ou melhor, de livro e filme, porque é um filme inspirado num livro, e eu acho que vale a pena conhecer os dois. Ambos têm o mesmo nome: Contos da chuva e da lua. O livro foi escrito pelo japonês Akinari Ueda e o filme, de 1953, é dirigido por Kenji Mizoguchi.

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O livro, publicado pela primeira vez em 1776, apresenta nove contos fantásticos que se passam no Japão feudal e têm um certo caráter moralista. No Brasil, eles foram publicados pelo Centro de Estudos Japoneses da USP. O filme toma como base dois dos nove contos presentes no livro: Morada das Sarças (traduzido por Kanami Hirai) e A Volúpia da Serpente (traduzido por Tae Suzuki), que são, por sinal, alguns dos meus favoritos. Eles não são propriamente contos de terror (aliás, nenhum dos contos do livro é), e eu não diria nem que chegam a dar medo (olha que eu sou medrosa), mas os dois envolvem aparições de espíritos e eu acho que por isso se encaixam bem no ~clima~ do Pavê Trevoso. A narrativa é simples e eu diria que lembra, em termos de estrutura, a de uma fábula ou lenda. Por isso, eu diria que um livro bem fácil e rápido de ler, especialmente se você gosta de histórias fantásticas e se interessa pela cultura japonesa.

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[Descrição da imagem] O protagonista Genjurô está deitado no chão, deixando as costas tatuadas com ideogramas à mostra. Ele evita olhar para suas anfitriãs, a dama Wakasa e sua velha ama, que o encaram decepcionadas.

Morada das Sarças conta a história de Katsushirô, homem humilde que decide viajar com um amigo para a capital onde pretende trabalhar como comerciante e enriquecer, deixando a esposa Miyagi à sua espera. Durante sua ausência, começa uma guerra na região onde morava e ele fica impossibilitado de voltar, sem nem mesmo poder se comunicar com Miyagi, o que o leva a crer que ela já deve ter morrido. Já A Volúpia da Serpente conta a história de Toyoo, filho mais novo de um pescador que acaba se apaixonando, sem perceber, por um demônio que toma a forma de uma linda mulher e aí vocês já devem imaginar: deu ruim – afinal, por conta da nossa experiência com histórias fantásticas sabemos que quando uma mulher bela e misteriosa aparece, coisa boa não é (é um tema recorrente na literatura/folclore e geralmente é bem machista, mas isso é assunto pra outro post).

A história do filme, como eu disse, baseia-se nos dois contos que eu mencionei acima; ela mistura os dois, fazendo algumas adaptações e adicionando alguns elementos, mas o essencial está ali: o filme continua tendo um viés moralista, explorando a fraqueza de caráter do homem que se deixa levar pela ganância e pela luxúria, o que sempre lhe custa alguma coisa importante no final. É difícil falar muito mais sobre ele sem acabar dando spoilers, mas basicamente é isso. E, apesar da trope machista que eu mencionei no parágrafo anterior, acho que a crítica maior das histórias recai sobre os homens (embora tanto no livro quanto no filme as personagens femininas sejam as que mais sofrem, preciso dizer).

Apesar dessas ressalvas, continuo achando que vale a pena conhecer Contos da chuva e da lua, ainda que seja pra refletir sobre esse aspecto das histórias. E você deve estar se perguntando: Ok, mas onde eu posso assistir um filme japonês dos anos 50? Simples: no YouTube. Esse canal abençoado chamado NihonPlay disponibiliza vários filmes japoneses com legendas em português, completos. A qualidade não é das melhores, mas também não dá pra exigir muito de um filme daquela época. Pra facilitar a vida, deixo o filme aqui embaixo:

Bia
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Estudante de Letras, louca do Photoshop, gosta de uns desenhos aí e tá sempre problematizando tudo. Reza a lenda que tem uma bolsa mágica de textões. É mais legal do que essa bio sugere.

Um comentário sobre “Pavê e palê: Contos da Chuva e da Lua

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