As aves assassinas de Hitchcock em Os Pássaros (Parece que o jogo virou, queridinha!)

Muitos conhecem o aclamado Psicose, de Alfred Hitchcock, um grande clássico do terror e o longa mais famoso do diretor. No entanto, venho aqui falar de aves atacando pessoas furiosamente e deixando vários rastros de sangue por onde passam. Isso mesmo, com vocês: Os Pássaros!

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A história começa quando Melanie Daniels (Tippi Hedren), encontra com Mitch Brenner, um homem que quer comprar um par de lovebirds ou agapornis (como conhecidos aqui no Brasil) para o aniversário de sua irmã caçula, em uma loja de aves em São Francisco. Ele reconhece Melanie de um encontro anterior, mas ela não se lembra dele, então, como uma brincadeira, ele finge confundi-la com uma vendedora e ela cai na pegadinha: por educação, o atende como se fosse uma funcionária do local. Ela mostra a loja e os tipos de aves totalmente atrapalhada e insegura (afinal ela não trabalha ali nem é especialista em aves, não é mesmo?) não sabe dizer bem os nomes, nem responder as milhares de perguntas que ele faz e quase perde um canário ao tentar vendê-lo para Mitch em troca dos lovebirds (já que esses não possuíam na loja). Mitch faz um trocadilho quando pega o passarinho que Melanie deixou escapar dizendo o nome dela e então, ela percebe o que aconteceu e acorda pra vida.  “Como fui trouxa” – pensou Melanie – “Mas não me permitirei ser feita de trouxa outra vez”.

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Hello darkness, my old friend

Ela compra um par de lovebirds, consegue o endereço de Mitch e dirige até uma pequena cidade isolada da Califórnia, Bodega Bay, para lhe entregar os passarinhos. Além de dirigir até lá, depois ela precisa pegar um barco para chegar até a casa, entra secretamente, deixa a gaiola lá com um bilhete e volta para o barco, na expectativa de poder presenciar a reação surpresa com o presente deixado. E aí você vai me perguntar, por que ela se deu ao trabalho de preparar tudo isso?? PORQUE MITCH É UM POTENCIAL CRUSH, É CLARO, MEUS CAROS!!! Faz tudo parte do plano: o crush te faz de trouxa, você faz o crush de trouxa de volta e depois vocês podem ser trouxas felizes juntos (a não ser é claro, se tiver aves assassinas atrás de vocês). Essa primeira metade do filme parece na verdade, uma comêdia romântica.

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A crush está vindo! Finja que não conhece ela!!!

E vou ser bem sincera, é meio lenta também. Ela janta na casa de Mitch e conhece a mãe e irmã dele, também conhece Annie, a professora da Cathy (irmã de Mitch) que deu o endereço da casa e faz amizade com ela. Algumas coisas vão acontecendo aos poucos, quando Melanie ainda está no barco e está a ponto de ir embora, é atacada por uma gaivota, deixando um ferimento na cabeça. Mais tarde, quando passa a noite na casa de Annie, uma gaivota aparece morta na porta da frente. No dia seguinte, na festa de aniversário de Cathy, inúmeras gaivotas aparecem e atacam os convidados. É assim que começam os jogos! May the odds be ever in your favor. 

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Os pássaros passam a atacar os moradores, aparecendo constantemente em diversos locais diferentes. Uma das cenas mais agoniantes é quando encontram um homem, fazendeiro que Lydia (mãe de Mitch) foi visitar para conversar sobre a inquietação estranha das galinhas dele, na sua própria casa, no canto do chão de seu quarto, morto, sem olhos, com vários ferimentos e rastros visíveis do que acontecera: janelas quebradas por bicos, uma gaivota morta ao tentar adentrar pela janela, um corvo morto na cama e vários estilhaços por todas as partes. Apesar da cena ser uma das mais chocantes do filme, não dura mais que cinco segundos. O filme é tecnicamente de terror; pelo desespero e medo que os pássaros causam com seus ataques repentinos e sem aparente motivo, além de serem em grande número e muito violentos; mas não assusta, não causa aquela agonia constante que encontramos em diversos filmes desse gênero. O terror aqui presente é não termos a mínima ideia do que está acontecendo. O terror de não saber o que está por vir. Estamos tão perdidos quanto os personagens e temos tantas informações quanto eles. E acredito que seja essa agonia instigante que o diretor quis chegar. Como eu falei, a primeira metade do filme é lenta, mas necessária, para desenvolver toda a ansiedade para a história; a movimentação começa apenas quando os ataques começam e são vários, um seguido do outro, e mesmo assim você pode assistir tranquilamente. O que não quer dizer que seja um filme chato ou entediante, muito pelo contrário. Quando Lydia vai visitar o fazendeiro e se depara com o cadáver, ela dispara a fugir dali, claro, e corre de um jeito tão desengonçado quanto um personagem de desenho animado carismático, há momentos que até parecia que eu estava assistindo uma comédia. Mas é claro que você não está aqui procurando uma boa comédia. O grande mistério e o que mais intriga o espectador durante o filme é a seguinte questão: Por que os pássaros atacam? E é isso, meus amigos, que estrutura o filme e o faz um grande filme de suspense.

Após a cena de terror que Lydia presenciara, ficou preocupada com a segurança de Cathy na escola. Melanie se oferece para verificar se estava tudo bem e dirige até lá. Então ela espera até o fim da aula, senta em um banquinho do lado de fora, no playground, fumando seu cigarro e sem perceber que alguns corvos sobrevoavam sob sua cabeça. Até que se virou e se deparou com inúmeros, inúmeros corvos no playground (silenciosos, porém mortais). E o bacana dessa cena, assim como os closes dos pássaros nos diversos ataques, é reparar nos efeitos visuais, foram usados pássaros mecânicos manipulados por fios, mas o diretor queria autenticidade e revelou em um programa de TV em 1968, que 3200 pássaros  foram treinados para o filme. A combinação das aves reais com as mecânicas quando fosse necessário, causa um impacto interessante na trama, assim como na cena da escola e uma das minhas diversões durante o filme foi distinguir as aves falsas das reais, com os corvos ali no playground, esperando pra atacar, os efeitos foram muito interessantes para a época.

Vale comentar também que no filme todo, não há trilha sonora. Repito: não há trilha sonora. Há os sons dos pássaros e das crianças cantando como é possível ver nessa cena da escola, mas não há música. E esse é outro elemento que estrutura o suspense: o silêncio. Esse silêncio é o que move o filme e o instiga cada vez mais e mais, são as perguntas no ar, as expectativas, o silêncio é o melhor amigo dessas aves assassinas e conduz o espectador até o fim do filme.

Depois dos relatos da escola e do fazendeiros sem os olhos, muita gente ainda acreditava que não poderia ser obra de pássaros assassinos. Não, não era possível que pássaros haviam feito isso! Uma senhora ainda afirma com muita certeza que aves nunca poderiam fazer isso, são criaturas da natureza de extrema beleza e incapazes de fazer mal algum, até que outro repentino ataque de inúmeras gaivotas acontece naquele mesmo restaurante local o qual os habitantes conversavam entre si. E talvez seria mais chocante se a senhora fosse extremamente atacada, mas não foi. E aí é que tá. O roteiro é bem amarrado e os enquadramentos de câmera são bem pensados, depois que o clima de suspense já se estabeleceu em um número bom de ataques, a todo momento dá aquela sensação de que vai acontecer alguma coisa ou um ataque repentino mais uma vez. E é aí que você foi fisgado.

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Outro destaque para Os Pássaros, foi a cena do clímax no sótão, a qual Melanie vai checar o cômodo, suspeita de que ouviu alguma coisa, abre a porta e uma enxurrada de corvos e gaivotas vão para cima dela. Se essa cena te agoniou de alguma forma, deixa eu agoniar um pouquinho mais para você: a atriz foi atacada de verdade. Tippi Hedren sofreu cortes no rosto por um dos pássaros, então amigos, aquilo lá é sangue mesmo. As aves foram amarradas através de longos fios de nylon em sua própria roupa para que não fugissem. Além da segurança de Tippi, sua saúde também correu riscos; ela teve um colapso nervoso, o médico a proibiu de voltar ao trabalho e com isso as filmagens foram interrompidas por uma semana, assim como a tal cena demorou uma semana para ser filmada. E isso não foi somente um ato de pura crueldade para fazer uma cena realística não, Hitchcock fez isso à Tippi Hedren como um prazer próprio a fim de torturar a mulher que o rejeitou. Sim, isso mesmo. Podem falar o que quiser de Hitchcock, seus filmes são incríveis e esse realmente é bom, como diretor, mas como pessoa e como homem, não passa de ser imaturo e babaca. Seu ciúme doentio ainda atrapalhou a atriz de alavancar sua carreira e conseguir outros trabalhos (além daqueles que fez com o diretor), então sim, amigos, não se trata nenhuma pessoa assim, abusivo e totalmente fora dos limites.

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Por fim, o filme não tem fim. Não, pera. Isso aí, tem uma cena final, mas não tem o famoso “The End” e a última cena acaba do nada, deixando a gente bem louco mesmo. WHAAAAAAT??? É ISSO???? Pois é, somos agraciados com essa imagem das aves dominando a casa de Mitch e seu quintal inteiro, e não há explicação do por quê do ataque das aves. Tem várias teorias por aí e inclusive freudianas, alegando que o terror dos ataques era uma metáfora para o relacionamento das três personagens femininas em relação à Mitch e seus sentimentos, tem teorias científicas sobre eventos ocorridos na Califórnia que bandos de aves marinhas, sem explicação alguma, começaram a chocar-se contra casas de pessoas, e ainda mais tarde, foram encontradas algas tóxicas dentro dos corpos dessas aves e causavam sintomas como desorientação, por exemplo, e isso teria inspirado o diretor. Os Pássaros (1963) foi inspirado em um conto de mesmo nome, escrito por Daphne Du Maurier, porém no conto há um desfecho completo; diferentemente da obra de Alfred Hitchcock, intrigando milhares de pessoas e também a ponto de ter várias teorias para explicar o por quê dos ataques. Hitchcock se irritava com as profundas análises que faziam de sua obra e afirmou:

Tudo que se pode dizer sobre meu filme é que a natureza pode ser extremamente rude. Se você mexer com ela. Veja o que o urânio fez. Os homens o extraíram do solo. Os Pássaros mostra os perigos da natureza e o que ela é capaz de fazer.”

Então deixa eu falar sobre a minha também. É ISSO MESMO! Caramba, os pássaros tão cansados dos malditos seres humanos (que inclusive ficavam sempre falando sobre galinhas e frango assado no restaurante) e estão cansados de serem mortos e resolveram se vingar. Parece que o jogo virou queridinha, não é mesmo? Um protesto contra a destruição da natureza. E ainda vou mais longe: sabe os lovebirds? É, aquele par de passarinhos que começou o filme, que Mitch queria comprar para Cathy, sua irmã; mas não tinha lá, então a Melanie comprou e deu de presente como desculpa para ir atrás do crush. Sim, esses lovebirds. Eles estavam lá, quietos a todo momento, e não atacaram ninguém, como o resto dos seus amigos pássaros assassinos. Inclusive na última cena, quando Cathy, Lydia, Mitch e Melanie estão saindo de casa, Cathy é a última a entrar no carro. Ela ainda para um momento e pergunta para o irmão mais velho “Posso levar os lovebirds?” e nesse momento eu fiquei, MANO, ESSES LOVEBIRDS SÃO A CABEÇA DO PROJETO ATAQUE CONTRA OS HUMANOS, ELES ESTÃO CAUSANDO TUDO ISSO! Além das gaivotas e dos corvos de instinto assassino quererem matar os humanos para provarem do próprio veneno, ainda pensei em como eles deviam estar furiosos que mantiveram milhares de pássaros em gaiolas, e naquela cidadezinha, especialmente aqueles dois lovebirds, presos na casa da Mitch. E por que tantas vezes Melanie e Mitch sempre estavam por perto quando foram atacados? Os moradores acusaram Melanie de a culpada, porque antes dela chegar lá, estava tudo tranquilo. Não sabemos a verdade. Mas ela trouxe os lovebirds. Os pássaros viram eles presos e furiosos, além de ter seu relativo número de mortes de humanos, é claro, queriam libertar os amiguinhos. É um protesto sobre liberdade também! Então naquela última cena do filme, no cenário apocalíptico em que as aves dominaram tudo, os lovebirds iriam estar ali também, e odiavam secretamente os humanos que conviveram. E você pode falar, nossa, pra que eu vou assistir esse filme depois de você contar o negócio todo? Eu não descrevi o filme inteiro (por incrível que pareça, mesmo nesse post horroroso de longo), eu situei você, leitor, no contexto e o tipo de terror que está aqui presente, com um bônus de algumas curiosidades sobre o filme. Uma coisa é falar sobre o terror de Hitchcock (e depois de ter assistido), outra é ter sentido, então o que vale é: a experiência. Eu fico aqui antes que me expulsem, então um beijo e um queijo e espero que se divirtam tanto quanto eu me diverti (tanto assistindo o filme como escrevendo esse post), au revoir!

Lari
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Designer gráfica, artista visual, ilustradora e aspirante a quadrinista. Faz dancinhas aleatórias pra tudo. Canta músicas icônicas da MPB para seus personagens preferidos como declaração de amor. Grita como forma de expressão.
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