Os lobisomens do cinema contemporâneo

lobisomes

Cresci indo visitar minha tia nos feriados e finais de semana. Morando em outra cidade, na roça, ela sempre tinha uma história ou outra sobre o cemitério local, causos de onça e corpos secos – uma criatura típica do interior. Apesar do medo, eu curtia ouvir os contos e sempre me animava quando outra pessoa tinha uma nova história para contar – nem que fosse para dar risada da situação toda. Mas a história mudava um pouco de figura quando a gente tinha que ir da Igreja pra casa dela no escuro, à luz de lanternas com pouca pilha, ou quando eu acordava no meio da noite, deitada na cama de baixo da beliche, e ouvia os cachorros correndo e uivando do lado de fora da casa.

Nessas horas, uma só palavra passava pela minha cabeça: Lobisomem.

Apesar de nunca ter visto nada que confirmasse esse meu medo, ainda assim eu puxava o edredom por cima da cabeça. O tempo passou e o meu medo acabou virando outra coisa, e de repente eu estava procurando filmes e livros sobre os mesmos monstros que temia na infância. No post de hoje, apresento algumas das minhas descobertas – as vezes nem tão assustadoras quanto o que eu imaginava quando era menor, mas, ainda assim, dignas de serem assistidas.

O LOBISOMEM (2010): Começando a lista com uma refilmagem de um clássico de 1941 – The Wolfman. Ambientada na Inglaterra vitoriana, a história começa com Lawrence Talbot, personagem de Benicio del Toro, retornando da América. Entretanto, como em qualquer filme de terror, a viagem não dá certo. No meio do caminho, Lawrence é atacado por um lobisomem e a sua vida só piora. Na primeira lua cheia, o personagem passa por uma transformação dolorosa que irá tirar toda sua consciência – assim como um bom lobisomem sanguinário deve ser. Reviravoltas, muitas cenas escuras e alguns bons sustos compõe a história, que literalmente me fez pular no sofá. Em determinada cena, Lawrence é colocado em uma sala em plena lua cheia para ser objeto de avaliação de alguns estudiosos. Não é preciso muita coisa para saber no que isso vai dar, não é mesmo? O filme ainda levanta as questões típicas quando pensamos em licantropia e doenças mentais, e o final é animador – pelo menos para quem curte a maldição do lobo.

LOBISOMEM – A BESTA ENTRE NÓS (2012): Enquanto O Lobisomem foca no monstro em si, A Besta Entre Nós resolve contar também a história de seus caçadores. Ambientado no século XIX, o filme gira em torno de um vilarejo que está sendo massacrado por uma besta que pode se transformar por quatro noites seguidas. Para se livrar desse mal, uma recompensa é colocada sobre a cabeça do monstro, que não é tão irracional quanto Lawrence Talbot ou quanto eu e você gostariamos se encontrássemos alguma coisa do tipo durante a noite. Logo um grupo de caçadores chega ao vilarejo e é acompanhado por um jovem estudante de medicina que vem estudando as vítimas. Se você assistiu João e Maria: Caçadores de Bruxas (2013), com Gemma Arterton e Jeremy Renner, e gostou, então você também vai gostar de A Besta Entre Nós. Todos os caçadores possuem habilidades incríveis e armas ainda mais fantásticas. O filme é tão sangrento quanto O Lobisomem, e Zack Snyder ficaria orgulhoso da iluminação, mas vale a pena assistir – nem que seja só para dar risada. De propósito ou pra fingir que não está com medo.

CASTELO DO MEDO (2010): Com problemas financeiros, um pai de família descobre que herdou uma velha mansão na România. Sem melhores opções, ele resolve ir atrás dessa herança e leva seus filhos, Jordan e Hunter, juntos. Mas coisas estranhas começam a acontecer com a filha mais velha enquanto uma nova mulher tenta conquistar o pai dos dois. Parece um plot de Sessão da Tarde, não é? E foi lá mesmo que eu assisti Castelo do Medo (Ou The Boy Who Cried Werewolf) pela primeira vez. Na verdade, a história toda usa bastante dos clichês, completo com a menina nerd que passa por um extreme makeover – graças a licantropia – e o clássico do Rick Riordan de pessoas famosas que na verdade são lobisomens – com direito a um musical no final do filme com os personagens dançando ao som de uma das lobisomens mais famosas do mundo. Se você tem medo de terror ou simplesmente não gosta muito dos banhos de sangue típicos de filme sobre esses monstros, talvez esse seja o filme certo pra você. Com ares bem leves, a produção da Nick consegue dar uma atmosfera divertida e bem ligada à família sem ser muito bobo. Enquanto os dois irmãos buscam a verdade sobre o casarão que herdaram e descobrem mais sobre suas origens com a ajuda da governanta, o pai quase se deixa levar por uma inimiga antiga – mas tudo dá certo no final. Afinal, do que valeria uma montagem ao som de Britney Spears sem o final feliz, não é mesmo?

WHAT WE DO IN THE SHADOWS (2014): Confesso que eu queria fazer um post só sobre WWDITS. Mas como ele ainda é difícil de achar aqui no Brasil, achei melhor mencioná-lo aqui. Afinal, esse é um dos meus filmes favoritos e eu não poderia deixá-lo de lado. “Mas o que é isso”, você se pergunta. E eu respondo: o melhor mockumentary já feito sobre vampiros. Mockumentaries são filmes ou seriados em que eventos fictícios são apresentados na forma de documentário – The Office e A Bruxa de Blair são exemplos bem conhecidos. Em Shadows, um grupo de repórteres acompanha e grava a vida de quatro vampiros que dividem um casarão na Nova Zelândia. Mas por que falar sobre vampiros em uma lista de filmes de lobisomens? Primeiro, porque eles são um dos antagonistas dos personagens principais. Segundo, porque o diretor, Taika Waititi (Aquele responsável por Thor: Ragnarok e pelo curta Civil War: Team Thor), já disse que vai fazer um filme só sobre os lobisomens (We’re Wolves, sem data definida). E, terceiro, porque eles são a minha representação favorita de lobisomens da ficção atual. Anton, Matt, Dion, Declan e os Nathan nada mais são do que um grupo de caras de jaqueta que fazem graça dos vampiros, respeitam seu alfa e se prendem com correntes na lua cheia para evitar estragos maiores – o que, spoiler, não dá muito certo. Apesar de serem outro elemento da comédia, eles são um bando organizado mas sem um militarismo exagerado, engraçados e, principalmente, de boas. Tranquilos. Chill. Nada do drama exagerado dos filmes de terror sobre esses monstros. Eles causam estragos e acabam sendo um dos responsáveis pelo clímax do filme, mas, depois, tudo se resolve da melhor maneira possível.

Claro, não dá pra terminar essa lista sem as menções honrosas. Como lobisomens não são monstros tão famosos como os vampiros ou os zumbis, é mais difícil achar filmes que sejam conhecidos. Mas isso não impede que eles apareçam como personagens secundários ou como um novo monstro de quem os protagonistas devem fugir.

Goosebumps: Monstros e Arrepios (2015) tem um lobisomem com um all star destruído, que persegue os personagens dentro de um supermercado. O Segredo da Cabana (2011) também tem o seu, mas a cena é um tanto quanto cheia de spoilers. Harry Potter tem Remo Lupin – e Greyback, muito mais selvagem. Até mesmo a saga Crepúsculo tem um grupo inteiro de lobisomens pronto para antagonizar os Cullen e quem mais aparecer por Forks querendo sangue humano. Com ou sem efeitos especiais, com as maquiagens e roupas mais absurdas e fantasiosas possíveis, eles aparecem das maneiras mais diversas, prontos para uivar para a lua e se transformar de pessoas a monstros peludos.

Emily
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Estudante de Letras em São Paulo. Ama monstros e cachorros e, principalmente, lobisomens. Puxa o erre, adora parênteses e quase nunca usa o plural direito.
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