Halloween uma ova: Hoje é dia do Saci!

Você sabia que dia 31 de outubro é dia do Saci? Um projeto de lei federal de 2003 instituiu a data com o objetivo de celebrar as figuras tradicionais do folclore brasileiro, em contraposição ao Halloween ou Dia das Bruxas. Nós aqui do Pavê respeitamos e apreciamos muito as tradições de outros países (meu primeiro post do mês, por exemplo, foi sobre um filme japonês), mas também amamos e valorizamos as nossas. Por isso, o post de hoje é uma homenagem ao dia do Saci e ao folclore brasileiro.

Todo brasileiro conhece o Saci-Pererê e cresceu ouvindo histórias de suas travessuras. Se você é da minha geração, provavelmente cresceu com a imagem do Saci-Pererê do Sítio do Picapau-Amarelo. Mas você sabe como e quando surgiu e se popularizou essa lenda? No último post do nosso especial Pavê Trevoso contamos algumas curiosidades que você provavelmente não sabia sobre o Saci.

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[Descrição da imagem] Ilustração do Saci da forma como ele é comumente representado: Um garoto negro, de uma perna só e carapuça vermelha, segurando um cachimbo. Há duas ovelhas que tiveram seus pelos pintados pelo Saci. Arte de melellaos (tumblr)

A origem do Saci

Em seu livro Geografia dos mitos brasileiros, o folclorista Câmara Cascudo registra o Saci como uma criação dos indígenas Tupi-Guarani. Como ele está ausente nos relatos de cronistas do Brasil colonial, Cascudo acredita que a lenda tenha surgido no final do século XVIII, na região da fronteira do Paraná com o Paraguai, que é justamente tida como o centro de dispersão dos Tupi-Guarani. A partir daí, a lenda então viajou por todo o país, desenvolvendo-se e assimilando elementos de outras lendas locais, como o Curupira e a Caipora.

Saci do sul x Saci do norte

Apesar de a imagem do Saci que se popularizou no país seja a de um menino negro, de uma perna só e carapuça vermelha, a lenda era representada de forma completamente diferente no norte do Brasil. Especialmente na região amazônica, a figura do Saci existe não na forma de um menino, mas de um pássaro. Há, inclusive, um grande número de espécies com as quais a lenda é associada: A Tapera naevia, a Empidonomus varius, a Elaenia flavogaster, o Cuculus cayanus, a Sinallaxis cinnamomea, o Diplopterus naevius, o Piaya cayana e, por fim, o Cuculus cornutos – popularmente conhecidos como Sem-Fim, Peitica, Maria-já-é-dia, Elaenia, Mati-taperê/Matinta-Pereira, Marrequita do Brejo/Curutié, Alma de Caboclo, Xicoã/Alma de Gato/Ating-aí e Ticoã/Tincoã/Pássaro-feiticeiro/Pássaro-pajé/Uirá-pajé, respectivamente. É, vários passarinhos pra assimilar. Por isso, selecionei quatro deles (os que tem página na wikipedia, rs) pra vocês verem:

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[Descrição da imagem] Os pássaros Sem-Fim, Peitica, Elaenia e Alma de Gato. Meu favorito é o último, porque ele tem um olho vermelho diferentão que combina com a carapuça do Saci-menino.

O que todos esses pássaros têm em comum é o canto desnorteante, um assobio longo e melancólico que os torna impossíveis de localizar e é considerado agourento, associado ao mistério e à morte. Tanto é que, no capítulo Nomes de aves em língua tupi do quinto volume do Boletim do Museu Nacional, Rodolpho Garcia comenta o nome Saci (tem muitos termos técnicos de linguística, então foca na parte do significado!):

Saci – Tapera naevia, Linn. Fam. Cuculidae. Também chamado Sem-fim. Etym: h –ã (h–ang) cy = o que é mãe das almas. (Cf. Baptista Caetano: 3,86; porque, segundo a lenda, chupa a alma dos defuntos. O h demonstrativo corresponde a Y e torna-se ç = s quando se fixa ao tema; ã por ang = alma, e cy mãe. Alt. Sacim. Para outros é onomatopaico. A superstição popular faz dessa ave uma espécie de demônio, que pratica malefícios pelas estradas, enganando os viadantes com as notas de seu canto e fazendo-os perder o rumo. Sul, Centro, Amazônia e Paraguai (Rodolpho Garcia – Nomes de aves em língua tupi – in Boletim do Museu Nacional, Vol. V, nº 3, p.41. Setembro. Rio de Janeiro, 1929).

Da mesma forma que a variedade de pássaros associados ao Saci é enorme, o mesmo acontece com as lendas. Há muitas variantes, mas, de modo geral, o Saci-ave é considerado um pássaro agourante, que anuncia desgraças a quem o ouve. Uma outra versão é a de que os pajés se transformavam na Mati-taperê para “se transportarem de um lugar para outro e exercer suas vinganças”. Outros acreditam que o pássaro é um velho ou velha de uma perna só transformado que voa noite adentro espalhando agouros. Já para os indígenas Munduruku, a Mati-taperê é tida como portadora do espírito dos mortos e sua aparição é considerada uma visita dos antepassados.
Versões levemente mais assustadoras do Saci

O Saci que conhecemos não chega a ser uma criatura maligna; ele é mais comumente retratado como sendo um “moleque travesso”, responsável por brincadeiras e atos mais inconvenientes do que propriamente maus. Há, contudo, algumas versões um pouco mais sombrias da lenda, de acordo com relatos presentes em um inquérito de 1917 e reunidos por Câmara Cascudo em seu livro. Segundo alguns deles, além das características tradicionalmente associadas ao Saci, ele também tinha uma mão furada, à semelhança da lenda portuguesa do Fradinho da Mão Furada. Assim como o Saci, ele também usa um gorro vermelho, e diz a lenda que ele costuma entrar nos quartos das pessoas pelo buraco da fechadura e é tido como a causa dos pesadelos. Acredita-se que o Fradinho põe a mão no peito da pessoa e, com a mão furada, pressiona a boca do adormecido, sufocando-o parcialmente e impedindo-o de gritar durante à noite. Outros relatos dizem que o Saci é capaz de tirar a capacidade de fala de quem o encontra, atrair crianças para a floresta e depois desaparecer, deixando-as perdidas, e até mesmo de ferir ou matar através de cócegas ou pancadas aqueles que o ofendem. Ou seja: Melhor não subestimar o Saci e tomar cuidado se achar que tem algum por perto. Afinal de contas, pra terminar o Pavê Trevoso com uma das minhas frases favoritas, yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.

Bia
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Estudante de Letras, louca do Photoshop, gosta de uns desenhos aí e tá sempre problematizando tudo. Reza a lenda que tem uma bolsa mágica de textões. É mais legal do que essa bio sugere.
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