Os erros de Crepúsculo e nosso posicionamento em relação aos mesmos

Ontem de manhã acordei com um um e-mail do Goodreads com a notícia de que Stephenie Meyer está lançando um novo livro sobre espiões. Isso mesmo, a autora de Crepúsculo, a mesma que relançou seu primeiro livro em uma reescrita genderbent esse ano em comemoração aos dez anos da série, finalmente escreveu livros novos. A notícia me fez, mais uma vez, pensar em Crepúsculo. Confesso que eu penso mais nessa série do que deveria, mas tenho (ou espero que sim) bons motivos. Um deles sendo justamente Vida e Morte e o outro sendo, bem, toda a crítica que a série já recebeu.

Antes de começar a falar sobre a série, um aviso: Eu sempre gostei mais do Jacob. Mas nunca quis que ele ficasse com a Bella. No último livro, quando Jake pega sua moto e vai para um parque tentar encontrar uma menina com quem ele possa ter o famoso imprinting, eu fiquei torcendo pra que ele conseguisse. Eu queria que ele fosse feliz, apesar de todas as coisas erradas que ele fez com a desculpa esfarrapada de amar a Bella. Mas vamos falar disso mais pra frente, ok? Antes, vamos falar sobre Vida e Morte.

twilight

Acho que é seguro dizer que uma parte da Internet surtou quando o anúncio de que Crepúsculo estava sendo relançado com o gênero dos personagens trocado. Edward agora era Edythe e Bella, Beau. Artigos do Buzzfeed comparando trechos das duas versões saíram, pessoas gritaram, o mundo acabou e então voltou a girar novamente, como ele sempre faz quando coisas impactantes ou terríveis acontecem (o que, particularmente, sempre me deixa feliz). Então eu peguei o livro para ler. E fiquei surpresa. Porque, em sua tentativa torta de mostrar que qualquer um pode ser uma vítima, independente de seu gênero, Stephenie Meyer acabou nos dando as melhores vampiras e lobisomens da face da Terra. Ou, pelo menos, da série Crepúsculo.

Sabe o Jacob Black, aquele lobisomem que eu disse agora a pouco que eu amava? Bom, agora ele é Jules Black, uma adolescente lobisomem, com uma mãe cadeirante que é a alfa de seu bando. Edythe, a vampira por quem Beau se apaixona, é uma mulher cheia de si, confiante, maravilhosa e forte, mas também cheia de defeitos que ela carrega de peito aberto, e que vive em uma família adotiva com outras vampiras igualmente fantásticas e poderosas. Você pode falar que o livro original já tinha Rosalie e Alice e Esme, mas aposto que você nunca reparou como ele também tinha poucas personagens femininas em papéis importantes. E isso mudou na nova versão. Beau está constantemente falando sobre as mulheres que estão em posição de destaque, líderes fortes que todos acatam, mulheres essas a quem ele sempre recorre e que está sempre elogiando. Sério, essa parte é maravilhosa.

Mas esse post não foi feito para falar de Vida e Morte, e sim para que eu possa, finalmente, colocar em palavras meus sentimentos em relação a Crepúsculo. Vamos começar com as críticas, que todo mundo já sabe de cor e salteado. Primeiro, o ponto principal da obra: O romance de Bella e Edward. Controlador, possessivo, perigoso e algumas outras palavras podem defini-lo muito bem. Bella se coloca em situações de extremo perigo para conseguir a atenção de Edward e chega perto de morrer para ficar com ele, ignorando o impacto que sua (falsa) morte pode ter em seus pais, seus amigos humanos e seus amigos lobisomens. Edward ignora e maltrata Bella em diversas vezes (a gente tem um livro inteiro sobre isso), tomando decisões no lugar dela sem se importar com o que Bella tenha a dizer.

As vampiras que aparecem como vilãs são, em sua maioria, criaturas sensuais, reforçando a ideia de que a sexualidade feminina é negativa e indesejável. Outras personagens femininas são, em sua maioria, delegadas às atividades domésticas, a própria Bella transformando-se em uma espécie de babá para seu pai quando chega à Forks (sério, como esse homem estava vivendo sozinho por tantos anos?). Leah, a única mulher lobisomem do bando, é amarga e sempre colocada de lado pelos outros, além de ter perdido seu amor para a própria prima (que, por sinal, aparece sempre no papel de “mãe” dos lobisomens, cuidando deles e dando-lhes comida; isso sem falar da cicatriz que ela tem graças ao alfa).

Os lobisomens de Crepúsculo, por sua vez, são apresentados de forma extremamente racista. Além de criar uma nova história para uma tribo que existe de verdade, ignorando suas origens reais, Meyer sempre coloca Jacob e os outros lobisomens em uma perspectiva sexualizada, tornando-os algo “exótico”, viril e violento. Em contrapartida aos ricos Cullen, com seus carros caros e sua mansão no meio da floresta, os lobisomens da tribo Quileute vivem em casas simples na praia, sem estudo ou uma cultura aprofundada além das histórias contadas a beira-mar e casos de famílias com relatos de violência e traição. O próprio Jake, apesar de dizer amar Bella e fazer tudo por ela, a beija a força sem ser repreendido por isso (na primeira vez, ele até mesmo ri de Bella quando ela tenta dar um soco em sua cara e não consegue), ignora os sentimentos que ela tem por ele, forçando um relacionamento amoroso, envolve o pai de Bella nos assuntos sobrenaturais ao revelar ser um lobisomem e, no geral, é o típico “Cara Legal” que se vê na famigerada friendzone.

Muita gente já falou sobre todos esses pontos de forma mais aprofundada, mas, se você ainda tem curiosidade em saber mais detalhes ou ler algo escrito por pessoas da tribo Quileute, eu recomendo esse site (Em inglês!) chamado The Truth Versus Twilight. Ele foi uma colaboração entre o Museu Burke e a tribo Quileute e fala sobre todos os temas que eu comentei e mais alguns outros. A série Crepúsculo saiu há dez anos atrás, sim, mas ainda vale a pena ler o que pessoas entendidas tem a dizer, além de trazer a tona a reflexão sobre minorias e representatividade.

Por fim, o verdadeiro motivo de eu ter feito esse post: Já vi muita gente falando mal de Crepúsculo, e geralmente eu concordo e entro na conversa, mas o que me irrita até hoje é ver pessoas (principalmente caras, vamos ser honestos aqui) falando mal das leitoras e diminuindo o gênero como algo “de menininhas”. Veja bem, uma coisa é você problematizar uma série ou um filme e discutir as formas como ele poderia ser melhor. Como dá pra ver, Crepúsculo poderia ter feito muita coisa diferente – principalmente quando lembramos o impacto que a série teve não só na indústria literária, mas também no cinema, sendo base para muitas outras obras que repetiram esse discurso. Mas fazer piada dos vampiros que brilham ou das divisões do fandom entre “Time Jacob” e “Time Edward” (o que, por sua vez, ignora completamente a vontade de Bella e a reduz a um troféu quando ela, na verdade, é a protagonista da história), como se isso fosse apenas brincadeira de meninas sem cérebro, diminui as críticas reais que deveriam ser feitas à série. E, de um jeito ou de outro, banalizam a verdadeira conversa que deveríamos estar tendo quando o assunto é Crepúsculo e literatura no geral.

 

Emily
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Estudante de Letras em São Paulo. Ama monstros e cachorros e, principalmente, lobisomens. Puxa o erre, adora parênteses e quase nunca usa o plural direito.
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