Você já viu The Get Down? Se não, deveria.

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Desde que o blog começou a tomar forma e cada um de nós passou a pensar sobre o que iríamos escrever, eu nunca pensei que fosse fazer um post sobre uma série da Netflix – principalmente uma que já estreou há alguns meses. A lógica por trás disso é que as séries da Netflix geralmente recebem bastante hype e um blog como o Pavê, que ainda está no começo e não tem muitos leitores, seria só mais um dentre muitos sites por aí escrevendo sobre a nova série do momento.

Surpreendentemente, The Get Down, tema do post de hoje, não teve nem de longe o mesmo sucesso que outras séries da Netflix, mesmo sendo a produção mais cara da plataforma. E foi isso que me motivou a escrever esse post.

The Get Down é uma série criada por Baz Luhrmann (diretor de Moulin Rouge! e O Grande Gatsby) e Stephen Adly Guirgis cujos seis primeiros episódios estrearam em agosto na Netflix. A segunda metade da primeira temporada deve ser lançada na plataforma em 2017 and I just can’t wait. A série se passa no fim dos anos 70, no bairro do Bronx, em Nova York, região com uma grande comunidade negra e latina (especialmente porto-riquenha) e explora o surgimento do hip hop e a febre da música disco através das histórias de Zeke (Justice Smith), Shao (Shameik Moore) e Mylene (Herizen Guardiola).

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[Descrição da imagem] Em foto promocional da série, os atores T. J. Brown Jr. (Boo-Boo), Justice Smith (Zeke), Shameik Moore (Shao), Jaden Smith (Dizzee) e Skylan Brooks (Ra-Ra) posam no apartamento abandonado onde Shao vive.

Ezekiel “Zeke” Figuero é um jovem talentoso que leva muito jeito com as palavras. Seu único problema é não saber direcionar esse talento, até que a Srta. Green (Yolonda Ross), sua professora, frustrada por sua falta de ambição, sugere que ele tente um programa de estágio oferecido por Francisco Cruz (Jimmy Smits), líder comunitário. Mylene Cruz, a amiga de infância por quem Zeke é apaixonado, sonha em ser uma cantora como sua ídola, a diva fictícia Misty Holloway, mas tem um grande obstáculo em seu caminho: seu pai, o pastor Ramon Cruz (Giancarlo Esposito). Extremamente controlador, ele só permite que Mylene cante músicas religiosas e abomina a música disco. Contudo, a jovem encontra uma chance de mostrar seu talento através de um concurso de dança no clube Les Inferno, cujo vencedor ganha um jantar com o DJ Malibu, pra quem Mylene pretende dar uma fita com uma gravação sua e então entrar na indústria musical. Temendo perder a chance de conquistar Mylene, Zeke decide ir à Les Inferno e dar a ela um presente único: um remix de Carlos Pakoussa de uma música de Misty Halloway do qual Mylene gosta muito. O problema é que ele não é o único que está atrás desse disco; Shaolin “Shao” Fantastic, um misterioso e admirado grafiteiro conhecido em todo o Bronx, precisa dele para que Grandmaster Flash (Mamoudou Athie) aceite ensiná-lo a ser um grande DJ. Esse é o ponto de partida da série.

Com uma produção impecável típica das séries da Netflix, fotografia maravilhosa, trilha sonora incrível e atuações ótimas, é impossível não gostar de The Get Down. Seus personagens são cativantes e ela não deixa nada a dever para outras séries da plataforma, sendo até melhor do que muitas delas em certos aspectos. Um deles é a diversidade. Os protagonistas da série são todos negros e/ou latinos, e os únicos personagens brancos são, propositalmente, políticos e empresários (bom, tem uma exceção, mas vou falar mais dela depois). A questão do racismo é fortemente abordada pela história e, apesar de a série se passar nos anos 70, as críticas levantadas pela trama ainda são, infelizmente, bastante pertinentes. A negligência das autoridades e da população branca em relação às periferias, a discriminação no meio profissional e a marginalização da cultura negra são algumas delas. Como não sou negra, não sou a pessoa mais apropriada pra falar desses temas, então vou deixar aqui o link de um texto de Mônica Santana sobre a série publicado no site Blogueiras Negras.

A partir de agora, o texto vai ter uns spoilers. Caso você não queria ver nada, vá pro próximo páragrafo e não assista ao videozinho abaixo. Então, The Get Down também tem representação LGBT. Em um dos episódios, o personagem Dizzee Kipling (Jaden Smith), grafiteiro e um dos amigos de Zeke, conhece Thor (Noah Le Gros), também grafiteiro e único personagem branco da série que não é um político ou empresário. Os dois logo tornam-se amigos e, no quinto episódio (se não me engano), Thor leva Dizzee a uma boate gay e, em uma das cenas mais bonitas da série, eles se beijam. Nessa primeira metade da temporada é só isso que acontece, mas a gente fica na torcida pra ter mais Dizzee/Thor nos próximos episódios.

E o que dizer das mulheres dessa série? É verdade que há mais personagens homens e, por consequência, eles têm mais tempo de tela. Contudo, a história de Mylene é tão bem escrita e desenvolvida como as de Zeke e Shao. Seu arco baseia-se em lutar contra um pai controlador e abusivo para ir atrás de seu sonho. Se Zeke começa a história ainda perdido e incerto sobre o futuro, Mylene é determinada e sabe muito bem o que quer. Suas amigas Yolanda (Stefanée Martin) e Regina (Shyrley Rodriguez) não chegam a ser totalmente desenvolvidas (mas há algumas cenas que dão margem pra arcos futuros), mas a amizade entre as três é uma das melhores coisas da série. A mãe de Mylene, a tia de Zeke e a srta. Green também são boas personagens que merecem ser mencionadas.

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[Descrição da imagem] Em cena do sexto episódio, Mylene e as amigas Yolanda e Regina chegam ao local onde os Get Down Brothers estão se apresentando, entusiasmadas e surpresas com o sucesso que os garotos conseguiram junto ao público.

Outra coisa legal sobre The Get Down é a participação de Daveed Diggs, que narra a série como Zeke já adulto. Pra quem não sabe, Daveed interpretou o Marquês de Lafayette e Thomas Jefferson no musical Hamilton, do qual a Laura já falou aqui no blog (e do qual ela está sempre falando em qualquer lugar). Na segunda metade da primeira temporada, Renée Elise Goldsberry, que interpreta Angelica Schuyler no mesmo musical, deve aparecer como Misty Holloway, a ídola de Mylene. Já esperamos com ansiedade o encontro das duas e torcemos pra rolar um dueto. Aliás, se você gosta de Hamilton, que tem várias músicas em forma de rap, você com certeza vai gostar de The Get Down. Todos aqui do blog que já viram a série e o musical são prova disso.

No começo do post, eu falei que surpreendentemente, a série não ganhou muita popularidade se comparada às outras da Netflix. Levando em conta sua qualidade, não dá pra entender – por isso o “surpreendentemente”. Acontece que a falta de hype tem explicação sim: racismo. Infelizmente, e isso é fato, as pessoas não se interessam tanto por uma história em que a esmagadora maioria dos personagens é negra e o foco é a cultura e a comunidade negras. E não sou eu que estou falando: esse texto de Ygor Pinheiro, publicado no site Café Radioativo, fala sobre a recepção de séries com elenco majoritariamente negro entre o público não-negro. E se você faz parte desse público como eu, acho importante ler e refletir sobre o que ativistas negros falam sobre como nosso racismo se manifesta na forma como consumimos ficção também. Hoje em dia se fala bastante de representatividade (pelo menos na internet), mas não adianta nada só ficar no discurso e não praticar o que você mesmo defende. Por isso é importante começar a assistir mais séries e filmes diversos, apoiar financeiramente artistas que pertencem a grupos marginalizados e promovê-los nas redes sociais. Mostre na prática que a gente não aguenta mais ver histórias em que todo mundo é branco e hétero (por que eu não sei vocês, mas eu tô genuinamente cansada disso).

Enfim, é isso. Se depois de tudo isso você ainda não se convenceu a assistir a The Get Down, então eu não sei o que vai te convencer e nós provavelmente não podemos ser amigos. WATCH THE GET DOWN!

Bia
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Estudante de Letras, louca do Photoshop, gosta de uns desenhos aí e tá sempre problematizando tudo. Reza a lenda que tem uma bolsa mágica de textões. É mais legal do que essa bio sugere.
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3 comentários sobre “Você já viu The Get Down? Se não, deveria.

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