Black Mirror e as consequências da tecnologia sem limites

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[Descrição da imagem em destaque: Logotipo da série.]

A essa altura, com certeza você já deve ter ouvido falar sobre o famoso seriado Black Mirror. Seja no facebook, twitter, instagram ou qualquer outra rede social: certamente tem alguém que sempre irá mencioná-lo. Um dos maiores sucessos da atualidade, após seis episódios e um especial aclamados mundialmente pelos seus telespectadores e por críticos, foi resgatado pelo serviço de streaming Netflix, que produziu sua mais recente temporada, com os seus criadores originais.

A sua chegada à Netflix acabou tornando o seriado ainda mais popular, trazendo outros seis novos episódios que se consagraram em meio a um público gigantesco e que vem aumentando a cada dia que passa. Surgiu, inclusive, o meme “cara, isso é muito black mirror” (ou algo do tipo) para se referir a uma coisa que faça qualquer alusão cômica, direta ou indiretamente, à sua temática.

Porém, se você ainda não chegou a conferir a tão falada série e deseja saber mais sobre ela antes de começar a assistir, se aproxime, pois este post é para você.

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[Descrição da primeira imagem: Bing (Daniel Kaluuya) e Abi (Jessica Brown Findlay), personagens do episódio “Fifteen Million Merits”, estão no centro da imagem, em uma sala preta de aspecto futurista. Á frente deles, há uma mesa espelhada refletindo ambos e também as luzes amareladas e embutidas do teto. Há três telas de televisão exibindo imagens rosas e azuis em cada parede, que são igualmente refletidas na mesa.]

Black Mirror é uma série britânica dos gêneros drama, ficção científica, suspense e mistério. Ela traz consigo uma ficção especulativa misturada a temas sombrios (e, por vezes, também satíricos), cujos analisam a sociedade moderna e sua relação com o uso demasiado das novas tecnologias em todos os aspectos da vida humana, principalmente no que condiz aos seus resultados e consequências imprevisíveis.

Um fator que desperta curiosidade e chama a atenção diz respeito à maneira como vem sendo composta desde sua primeira temporada: em formato antológico, termo derivado de antologia e empregado nas artes para caracterizar coleções de obras curtas. Isso significa que cada episódio, ou capítulo, mostra uma história diferente com novos personagens; podendo ser assistidos em qualquer sequência, inclusive aleatória, pois estas histórias não necessariamente seguem uma determinada ordem cronológica, tampouco possuem uma conexão evidente entre si. Até hoje, não foram tantas as séries que empregaram tal método, mas as que o fizeram se destacaram por isso − como é o caso de American Horror Story, por exemplo.

O principal tema abordado é a chegada de uma suposta nova revolução tecnológica, assim como os efeitos que gera no mundo. Ambientada em um futuro terrestre talvez bem mais próximo do que imaginamos, a série expõe uma sociedade completamente afetada pelos avanços desenfreados da tecnologia, enfatizando os diversos modos como tais avanços impactam a vida cotidiana. E não se limita apenas aos humanos, por vezes mostrando, juntamente, as alterações ocorridas na própria natureza.

Assuntos consideravelmente habituais, tais quais o luto, a traição, o medo, o amor, a amizade, dentre outros, ganham um tom tenebroso quando misturados às modernizações da série. Várias das invenções exibidas, diga-se passagem, já existem na nossa vida real, como é o caso das abelhas eletrônicas e das lentes de contato que gravam e exibem imagens no campo de visão do usuário.

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[Descrição da segunda imagem: Lacie (Bryce Dallas Howard), uma das personagens do episódio “Nosedive”, está em pé e ligeiramente virada de lado para a câmera, segurando seu celular de cor rosa na posição horizontal, enquanto confere a tela com surpresa. Ao fundo, há folhas de uma árvore no canto esquerdo e um homem de costas sentado no canto direito.]

Para atingir seu objetivo de impressionar e embasbacar os telespectadores com seu conteúdo, logo em seu episódio piloto (intitulado “The National Anthem”), Black Mirror chegou deixando bastante gente chocada com o que o protagonista, Michael Callow (Rory Kinnear) foi obrigado a fazer para salvar uma vida inocente. Inocência, aliás, é outro tema tratado com frequência, em uma constante batalha que envolve, de um lado, a mesma, e do outro, a culpa. Em inúmeras ocasiões, a dignidade ou a própria existência dos personagens são postas em jogo, por decorrência de suas ações prévias.

Porém, o que realmente causa espanto, a despeito de todos os resultados drásticos que nos são mostrados, é os indivíduos parecerem não se importar nem um pouco com o fato de dependerem da tecnologia para praticamente tudo. É quase como se não notassem que suas vidas giram em torno dela e que ela se encontra presente até nos mínimos detalhes. A título de exemplo, temos um dos seus episódios mais emblemáticos, “White Bear” – no qual a protagonista, Victoria Skillane (Lenora Crichlow) corre grande perigo e grita desesperadamente por ajuda, enquanto a preocupação de todos aqueles que presenciam a cena é se entreterem filmando-a com seus respectivos aparelhos eletrônicos.

O verdadeiro horror, todavia, nunca está explícito. Ele se apresenta de maneira sutil, praticamente imperceptível, podendo passar facilmente despercebido se você não prestar atenção. Em um primeiro momento, uma sociedade nestas condições aparenta ser aceitável e satisfatória, com as pessoas convivendo em perfeita harmonia, só para então destacar seus problemas e preocupações, que acumulam-se ao ponto de as falhas do incessante uso da tecnologia tornarem-se drasticamente visíveis. Não obstante, o assustador é, de fato, a sensação de “frio na espinha” que nos é proporcionada e, em nível equivalente, perceber que estamos a um clique de distância de nos tornarmos exatamente o que é retratado.

Aos olhos do telespectador que assiste, a atmosfera que fica nítida é a de que se está conferindo algo impróprio, quase proibido, como se não lhe fosse permitido observar aquilo afim de evitar a divulgação de um segredo de enormes efeitos. O verdadeiro protagonista não é aquele que está dentro da tela, e sim você, a cara pessoa que o vê.

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[Descrição da terceira imagem: Matthew (John Hamm), personagem do especial de Natal, “White Christmas”, está no centro da imagem, sentado em frente a uma mesa sobre a qual há um aparelho pequeno, branco e de formato oval, o encarando e com as duas mãos apoiadas na mesa. No fundo, o cenário é da sala de estar de uma casa branca com aspecto futurista e janelas de vidro.] 

A integridade e a ambientação dos cenários são dois fatores cruciais para criar a terrível impressão de que ao exato tempo em você confere o episódio, você estivesse lá também. Basicamente, tudo colabora para que você seja transportado para dentro de cada história e sinta o desespero na própria pele. Bizarro, não? Dessa forma, provavelmente os criadores de Black Mirror procuram evidenciar que não há uma saída senão enfrentar as sequelas e lidar com aquilo que você mesmo ajudou a criar e que tomou proporções inimagináveis.

Não se trata somente de alertar para o que pode ou vai acontecer se as coisas saírem do controle, contudo igualmente de conscientizar para que não cheguemos a esse extremo. Agora, mais do que nunca, é preciso haver um equilíbrio humanidade x máquina e Black Mirror nos ensina que temos as ferramentas necessárias para que este equilíbrio persista acima do excesso e do exagero. Os melhores interesses na vida estão em acontecimentos que a tecnologia procura imitar, sim, e falha miseravelmente.

Por fim, se depois de ler tudo o que escrevi aqui eu tenha te convencido a acompanhar Black Mirror, que tal aproveitar a proximidade com o Natal e correr para conferir o especial natalino, “White Christmas”? Garanto que você não irá se arrepender.

Black Mirror (2011) possui atualmente três temporadas, totalizando nove episódios, e um especial, que podem ser conferidos no serviço de streaming Netflix.

Beatriz
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Contadora de histórias que sonha em viajar o mundo e estudante de Direito no resto do tempo. Viciada em séries e em pesquisar sobre mitologia.

2 comentários sobre “Black Mirror e as consequências da tecnologia sem limites

    • A bizarrice de Black Mirror, com todas as suas metáforas e sátiras, pode até tornar as situações chocantes, mas não podemos negar que ela nos auxilia a enxergar a realidade. Ficamos felizes que tenha gostado do texto, Mari! ❤

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