Vamos falar sobre assédio?

tw: assédio, abuso, pedofilia.

A jornalista Carol Moreira recentemente entrevistou o ator hollywoodiano Vin Diesel a respeito do novo filme que ele estava divulgando em São Paulo, Triplo X 3: Reativado. Veja bem, vou repetir mais uma vez. Entrevistou. Ela estava trabalhando. Quando foi interrompida para ser elogiada não uma, não duas, mas três vezes. Mas por que seria ruim ela receber elogios de um ator? Por que seria ruim qualquer um receber elogios? Quando essa pergunta passar pela sua cabeça, pense em duas coisas:

  1. Você está gostando?
  2. Você se sente confortável?

Pois então, a resposta dela para essas duas perguntas foi não. Ela não gostou e se sentiu extremamente desconfortável. Ele PAROU o trabalho dela constantemente para deixá-la numa posição na qual ela não tinha a menor ideia de como reagir de tão desagradável que aquilo estava se tornando. Elogios como “estou apaixonado por essa mulher”, “olhem como ela é linda”, “ela é sexy para c***”. Sinceramente, ainda tem como defender uma atitude dessas? Tem surgido na internet algumas comparações de quando esta mesma repórter fez uma entrevista com outro ator, Jason Momoa, durante a CCXP. Algumas pessoas afirmam que durante o painel, ela participou das brincadeiras do ator sem sentir-se incomodada ou reclamar. A justificativa que estão usando é que “ah, mas com homem barbudo e cabeludo a história é outra, né”. Não, não é. Era um momento no qual ela QUIS participar, no qual ela se sentiu CONFORTÁVEL para brincar junto. Então vamos deixar algo bem claro antes de continuar: assédio NÃO é elogio e NÃO deve ser defendido. Em hipótese alguma.

Quando uma mulher anda na rua e alguém grita que ela é gostosa ou assobia, vocês acham que ela não responde por que acha legal? Ou vocês já pararam pra considerar a ideia de que ela pode ter medo de reagir e a pessoa que está falando tais coisas ir atrás dela? Já pararam pra pensar em quantas mulheres já foram assediadas verbalmente e fisicamente dentro de um ônibus, por exemplo? Quantas já choraram enquanto algum homem nojento estava passando a mão nelas? Quantas já foram vítimas de abusadores encostando facas em suas barrigas para que elas descessem com eles? Você, que está lendo esse texto agora, já foi vítima de assédio? Eu já. Minha mãe também. Todas as minhas amigas também. E se eu perguntasse o contrário, será que teria resposta? Você nunca foi vítima de assédio? Alguém consegue afirmar que nunca sofreu um? Você nunca teve que apressar o passo ao entrar em uma rua com alguns homens te olhando? Nunca encostou-se num muro quando um carro reduziu a velocidade e tentou parar ao seu lado num ponto de ônibus? Nunca fingiu que conhecia alguém na rua para distrair os olhares que te lançam?

Em maio desse ano, uma pesquisa apontou que 86% das mulheres brasileiras já sofreram assédio em público. Somando a estimativa de quantas sofrem em casa, podemos arredondar para 100% então? Mulheres que trabalham e precisam sustentar maridos que as ameaçam. Mulheres que apanham para permanecerem caladas. Crianças. Que não podem simplesmente brincar porque pode ter um tarado ao seu redor. Crianças, que são assediadas por parentes. Bebês sofrem assédio. Bebês, recém-nascidos. Conseguem perceber a magnitude desse ato tão doentio e grotesco?

Em seu romance Lolita, Vladimir Nabokov nos dá um exemplo claro e concreto de assédio e abuso. E o pior? Nós romantizamos ele. Nós falamos que a menina, tadinha, Dolores, a Lolita, sabe bem o que está fazendo. Defendemos as atitudes de um pedófilo que assedia a mãe da menina para chegar até a filha. Falamos que ela o seduziu. O livro nos conduz por um caminho fazendo com que por alguns instantes a gente possa até esquecer o quão nojento Humbert Humbert é. O livro nos mostra que Humbert era apaixonado por uma menina que morreu precocemente lá pelos seus 13 anos e que isso o tornou “amaldiçoado”, e seu fardo era apaixonar-se por meninas dessa idade. Meninas de 12 anos, como a própria Lolita (apelido que denota uma hiperssexualização da criança). Nós temos toda a visão do personagem em primeira pessoa e em momento algum podemos saber o que está se passando na mente da garota. Humbert Humbert faz sua narração como se o ato da menina sentar-se fosse dotado de tamanha conotação sexual. E até hoje, ainda há aqueles que defendem o livro e seu ponto de vista. Até hoje, há pessoas que aceitam o assédio como se fosse algo natural. Um outro exemplo é o filme Legalmente Loira, que traz a atriz Reese Whiterspoon no papel principal. Ela interpreta Elle Woods, uma menina rica (e naturalmente loira, como o título faz questão de frisar) que é considerada “fútil” pelo namorado (vejamos bem, mais uma vez o ponto de vista masculino interfere e prevalece na opinião sobre a mulher), que é estudante de Direito. Então, tentando mudar esse conceito e como planeja casar-se com ele, Elle decide aplicar-se para a mesma faculdade. Vamos começar com o que tem de errado na visão desse filme: o vídeo que ela faz para entrar na faculdade é na beira da piscina, de biquíni. Todos descreditam sua inteligência pelo jeito que ela se porta. Na faculdade, chegam inclusive a acreditar que ela é só um rostinho com um corpo bonito, mas que não possui mente para permanecer ali. Além da sexualização de seu corpo, ainda vemos que a desmerecem por ser loira (novamente, a sociedade machista impondo piadinhas sobre cor de cabelo influir na inteligência e personalidade de alguém). O que essas duas obras tem fortemente em comum? Ambas nos apresentam o ponto de vista assediador masculino. Ambas representam a sociedade machista e patriarcal que fantasia com uma menina de 12 anos e que desmerece a credibilidade profissional e faz piada com uma mulher de 20.

Assédio não tem hora, não tem idade e tampouco lugar para acontecer. É tão comumente retratado em todas as mídias e indústrias que cada vez mais continua acontecendo como se fosse normal. Parem e repensem no que vocês estão fazendo. Não precisam imaginar que é sua mãe, sua irmã ou sua namorada no lugar dessas mulheres assediadas. Pensem que são mulheres, que sentem, sofrem, que não são obrigadas a lidar com esse tipo de atitude. São pessoas tentando viver suas ações cotidianas sem precisar pesar as consequências de palavras ou atos físicos.

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[Descrição da imagem] Três mulheres de costas, vestindo jaquetas rosas com um desenho de um coração e os dizeres “Girls Gang” dentro.

Créditos das imagens: Sanaa K – Sisters in Humanity

Amanda
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Gosta de fazer inveja com fotos de comida no instagram. Dorme muito, vê muitos canais de culinária, sonha acordada demais. Futura masterchef (com um quê de jornalista).

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