Yowiya, de Hiro Kawahara

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Descrição da imagem: Foto da capa de Yowiya, em que o personagem-título aparece ao fundo. À sua frente, está Manon, um fantasma azulado de uma modelo francesa assassinada. Seu “corpo” é desproporcionalmente esguio e tem caracteres chineses arcaicos tatuados. Aos pés de Manon está Kipky, uma garota de cabelo curto, vista de perfil e colorida em tons de amarelo. Ao lado do livro, está um marcador de páginas que mostra os olhos de Yowiya, a cabeça de Manon e a de Kipky, uma acima da outra, contra um fundo cor de rosa.

Eu tinha grandes expectativas para Yowiya, segundo quadrinho do ilustrador Hiro Kawahara publicado pela editora Gironda. Ouvi falar desse trabalho pela primeira vez quando ainda era um projeto no Catarse, e achei a sinopse tão interessante que guardei o nome do projeto e do autor para comprar quando estivesse publicado (àquela altura, o projeto já tinha atingido a meta pretendida). Acabei comprando meu exemplar na CCXP (Comic Con Experience), com direito a um autógrafo super fofo do Hiro e já de olho nas artes que ele também estava vendendo por lá (infelizmente, tive que deixar para outra oportunidade, porque queria guardar dinheiro para comprar outros quadrinhos). E no post de hoje, conto se Yowiya atingiu ou não minhas expectativas.

Como eu disse, o que mais chamou minha atenção em Yowiya foi sua premissa: O que aconteceria se os macacos tivessem um deus, e este deus se encantasse pelos humanos e desejasse ser adorado por eles? E o que uma garota solitária e o fantasma de uma modelo francesa brutalmente assassinada têm em comum? Como esses três elementos tão dissonantes se juntam e o que acontece com eles depois disso? Fiquei intrigada e fascinada pelas milhares de possibilidades que um ponto de partida desses oferece em termos narrativos. Acontece que fui traída por minhas expectativas. Sabe quando a ideia é legal, mas a execução não faz juz a ela? Pois bem, foi isso que aconteceu com Yowiya.

Entre as coisas que me incomodaram estão a extensão e a velocidade da narrativa, que, a meu ver, não permitiram que os questionamentos propostos por ela fossem explorados como mereciam. Há alguns bons momentos que mostram todo o seu potencial: Yowiya poderia ter sido uma ótima metáfora sobre a ambição e a vaidade do ser humano, mas a quantidade de elementos – abundante para o tamanho da história – fez com que tudo ficasse muito superficial. Se Yowiya fosse mais longa – ou ainda, fosse uma série de quadrinhos – talvez fosse muito melhor. Daria pra desenvolver melhor a mitologia que envolve esse deus dos macacos, bem como os outros deuses que aparecem na história. Poderíamos saber mais sobre a doença de Kipky (cuja natureza e impacto sobre sua vida ficam no ar, sendo apenas brevemente mencionadas) e a vida (ou morte) de Manon, a modelo fantasma – cujo assassinato acontece em circunstâncias misteriosas que acabam não sendo esclarecidas, embora em um certo momento a narrativa dê a entender que isso é importante – o que acabou sendo outra fonte de frustração pra mim.

Uma outra coisa que me incomodou foram as escolhas de enquadramento em algumas cenas que, ao meu ver, sexualizaram desnecessariamente Kipky. Além disso, preciso alertar os possíveis leitores que há uma quase cena de estupro, e eu não pude deixar de pensar que me sentiria mais confortável com tudo isso se a história tivesse sido escrita por uma mulher.

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Descrição da imagem: Foto da cabeça do Gigante de Ferro, do filme animado homônimo de 1999, com os braços no lugar das orelhas e de cabeça para baixo, que serviu de inspiração para o design de Yowiya, cuja ilustração encontra-se ao lado da primeira imagem.

E só pra terminar a resenha com pelo menos um ponto positivo, gostei bastante do design de Yowiya, e achei interessante que o Hiro incluiu no final do livro (uma edição muito bonita, por sinal) algumas páginas sobre o processo criativo, em que ele conta, entre outras coisas, as inspirações para o desenho do deus dos macacos. De um modo geral, dá pra dizer que o Hiro já tem um trabalho sólido como ilustrador e um estilo consolidado, mas pode melhorar a parte narrativa.

Bia
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Estudante de Letras, louca do Photoshop, gosta de uns desenhos aí e tá sempre problematizando tudo. Reza a lenda que tem uma bolsa mágica de textões. É mais legal do que essa bio sugere.
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3 comentários sobre “Yowiya, de Hiro Kawahara

  1. Eu senti exatamente isso. Eu queria muito ter gostado da HQ e no final eu meio que estava lutando para fortalecer os pontos bons, aí eu me toquei: sério? A menina quase sofre um estupro totalmente desnecessário… tem algum problema aí. Eu procurei no Google só para saber se não era só eu e acabei encontrando essa resenha. Acho que ela sumariza muito bem o que eu achei da HQ. Obrigada por ter feito 🙂

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  2. Apoiei o projeto no Catarse e recebi hoje, estava ansioso para ler e apesar de ter gostado de forma geral ter deixado no ar a morte da Manon e o problema da Kipky e o que ela fazia para tentar se livrar, tanto que vim parar aqui pra ver se eu que não tinha entendido algo mesmo ou se ele simplesmente ignorou.

    O quase estupro me fez entender que ele quis mostrar como nós supervalorizamos o sexo acima de tudo, afinal a ganância do Yowiya é ter o que os humanos tem. Mas foi muito repentinamente, ficou estranho e até desnecessário mesmo.

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