O Rapaz e o Monstro é uma história sobre família e humanidade

Eu já falei sobre duas animações do Mamoru Hosoda nesse post e prometi que em breve falaríamos também sobre os outros filmes do diretor e, como prometido, hoje vamos falar sobre O Rapaz e o Monstro (The Boy and the Monster), o longa mais recente do diretor, que estreou no Japão em 2015, e conta a história de Kyuta, um menino órfão que vai parar em um mundo paralelo habitado por monstros, e acaba virando o pupilo de Kumatetso, um dos mestres em artes marciais que é renegado pelos outros monstros. Juntos, eles aprendem que as diferenças são boas e que nem todas as famílias são tradicionais.

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A arte conceitual das animações do Hosoda costumam ser muito coloridas e cheias de informações, os cenários cheios de detalhes, e os traços característicos. Obviamente, esse estilo se repete em O Rapaz e o Monstro, mas por se passar em outro mundo, apresenta algumas mudanças, como a paleta de cores, que concentra tons mais terrosos, que combinam bem com a época em que os monstros vivem. Além de ser visualmente agradável para quem nunca viu nada do diretor, essa mudança também é muito interessante para quem já assistiu outros filmes dele e está acostumado ao que Hosoda já fez.

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[Descrição da imagem: Uma borboleta pousa numa grande flor e, então, as pétalas da flor se tornam as asas da borboleta. Fonte: kanneki.tumblr]

Um dos maiores acertos do filme, na minha opinião, foi o processo de envelhecimento do Kyuta, que começa como um garotinho de nove anos e, conforme o filme passa, cresce e no momento do clímax ele já está com dezessete anos. Por causa disso, o filme acaba sendo dividido em duas partes, uma na infância e outra na adolescência dele. Logo depois de ser abandonado pelo pai e perder a mãe, Kyuta sai vagando pela ruas de Tókio e, quando vira em um beco atrás de uma criatura estranha, acaba indo parar em um mundo paralelo habitado por todos os tipos de monstros, que vivem de maneira completamente diferente dos humanos, e se concentram em treinar artes marciais para alcançar seu potencial máximo.

Quando Kyuta é encontrado pelos monstros, ele conhece Kumatetso, um mestre das artes marciais de alto nível que está concorrendo com Iozen, um outro mestre, para alcançar o próximo nível na hierarquia dos monstros. O problema é que apesar de Kumatetso, ser hábil e possuir boa técnica, ele não tem um pupilo (requisito obrigatório para um mestre) é indisciplinado e ainda precisa melhorar muito como pessoa – nesse caso, como mostro – para estar apto para sua “promoção”, o que significa que ele provavelmente vai perder o duelo final contra Iozen.

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[Descrição da imagem: Uma figura flamejante executa rapidamente movimentos de artes marciais. Fonte: totheleft.tumblr.]

Apesar dos protestos e preocupações de Iozen de que o coração humano de Kyuta pode acabar sendo dominado pelo ódio, que é uma tendência humana, Kumatetso acaba obtendo permissão para treinar-lo, mas isso acaba sendo bem mais difícil do que ele imaginava, já que o garoto é tão indisciplinado e teimoso quanto ele, e está ressentido e confuso por causa da morte da mãe.

A primeira parte do filme mostra como os dois se conhecem melhor e, apesar das diferenças, passam a se amar. Com a ajuda de amigos, Kumatetso e Kyuta passam a enxergar um ao outro mais do que como mestre e pupilo, eles desenvolvem uma relação quase que de pai e filho. Como eu sou trouxa pra toda e qualquer relação familiar, essa foi minha parte preferida do filme, eu amei ver como eles dois cresceram e como deixaram de ser solitários e ganharam uma família com a chegada um do outro.

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[Descrição da imagem: Um monstro executa movimentos de artes marciais enquanto um garoto tenta imitá-lo. Fonte: skunkandburningtires.tumblr]

A segunda parte do filme, quando Kyuta já é um rapaz, se passa no período em que o duelo final entre Kumatetso e Iozen está prestes a acontecer. Algum tempo antes do duelo, Kyuta vira em um beco no mundo dos monstros e vai parar de novo no mundo humano. Lá ele conhece Kaede, uma estudante da mesma idade que ele que está se preparando para o vestibular. Kaede começa a incentivar Kyuta a retomar os estudos, e ele começa a passar cada vez mais tempo no mundo humano em segredo. Os longos sumiços de Kyuta acabam causando atrito entre ele e seu mestre, e ambos se distanciam cada vez mais.

Outra coisa que eu achei interessante foi o reencontro de Kyuta com o pai biológico, ambos foram retratados de forma muito humana, um por ter cometido um erro no passado e ter que viver tanto com as consequências de suas ações quanto com sua consciência, e o outro por ter tanta dificuldade em perdoar. Quando reencontra o pai, Kyuta sente que está traindo sua família no mundo dos monstros, o que contribui ainda mais com a distância que surge entre eles. Na verdade, as dúvidas e incertezas de Kyuta fazem com que ele entre em conflito com si mesmo e fique cada vez mais perdido. Nesse momento, a amizade com Kaede é fundamental para que Kyuta consiga decidir o que fazer.

O clímax do filme começa justamente durante o duelo final entre Kumatetso e Iozen, quando Kyuta precisa lutar contra as tendências humanas de seu coração para não permitir que ele seja dominado pelo ódio, como acontece com outro humano no mundo dos monstros. É claro que eu não vou comentar a batalha final e os acontecimentos principais do filme, mas qualquer um que assista com certeza vai se emocionar com as cenas finais entre Kumatetso e Kyuta, e a forma como a humanidade se mostra não mais uma fraqueza, mas uma característica presente nos personagens.

Outra coisa que eu gostei foi que nessa história não há vilões, mesmo Iozen é apresentado como um pai dedicado e um membro ativo da comunidade, ele respeita e gosta de Kumatetso e mesmo discordando da decisão dele de criar Kyuta, trata ambos com respeito. No fim, isso serviu para transmitir a ideia de que o grande vilão da história é o ódio que permitimos que cresça dentro de nós, e que cada um é responsável pelos sentimentos que alimenta dentro de si.

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[Descrição da imagem: Várias cenas passam rapidamente, um garoto correndo com uma espada na mão, duas mãos se tocando, e duas pessoas assistindo uma explosão. Fonte: twotheleft.tumblr]

O Rapaz e o Monstro acabou se tornando meu filme preferido do Mamoru Hosoda, e uma das minhas animações preferidas de todos os tempos, e com certeza é para qualquer tipo de público. Tanto os personagens, quanto a trama foram acertos do diretor, e conquistaram meu coração. Tenho certeza que se você der uma chance, Kumatetso e Kyuta vão conquistar você também.

Laís
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Lis é estudante de letras que queria viver umas dez vidas pra estudar, ler e assistir tudo o que tem vontade. Rainha do fandom de um membro só. Não sabe controlar o sarcasmo.

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