#desafiopavê: As Águas-Vivas Não Sabem de Si

Como já dito antes em outro post, esse ano lançamos o #DesafioPavê. Baseado em nossas escolhas de leitura para cada mês, resenhamos e discutimos as obras selecionadas, e vamos comentar aqui no Pavê também. O post de hoje é sobre o livro de ficção científica As Águas-Vivas Não Sabem de Si, da Aline Valek.

Quero começar dizendo que o livro foi uma surpresa para mim. E uma surpresa muito agradável mesmo. A escrita da Aline é surpreendente e me trouxe a mesma sensação de estar perto do oceano, como se estivesse reproduzindo o próprio movimento das ondas – o infinito leva e traz, a calma e ao mesmo tempo, o poder do mar.

capa

Um sentimento meio comum ao pessoal aqui do Pavê foi a maneira como a história foi desenvolvida. Esperávamos monstros marinhos e algo como um terror subaquático, mas não foi o que aconteceu. O livro em si puxa para o lado mais literário da ficção científica – o cenário e a história em si claramente remete aos clássicos, mas ainda assim traz algo de novo na narrativa. Por vezes, a escrita acabou sendo até mesmo confusa, com metáforas longas que nem sempre ficavam muito claras. A chamada “purple prose“, um termo em inglês que designa uma prosa que se utiliza de metáforas e escrita rebuscada e que tira a atenção do leitor, e é realmente a única falha que eu tenho para apontar no livro. Mais de uma vez o texto me tirou da minha concentração, e tive que retornar para ler um parágrafo de novo e procurar entender o seu significado.

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#pracegover: imagem de uma água viva no fundo do mar.

No mais, a história em si é escrita com uma sutileza indescritível. A atmosfera é perfeitamente ambientada, e consegue transmitir o cenário no fundo do oceano muito bem. Gostei bastante também como os capítulos se intercalam entre a tripulação do Auris e das próprias criaturas no fundo do mar. Esses capítulos em particular eram muito interessantes, porque a autora conseguiu trazer uma consciência para eles, ao mesmo tempo em que demonstrou a solidão e imensidão dos oceanos.

A trama em si é relativamente simples, o que não quer dizer que é simplista. O foco principal é de Corina, uma mergulhadora que decide retornar ao fundo do mar no que pode ser sua última missão. Ela é uma mergulhadora das profundezas, e junto com o resto da equipe, está lá para coletar dados sobre a vida marítima através de sondas. A trama vai se desvendando aos poucos, com cuidado, e através dos outros personagens entendemos exatamente o que está acontecendo na estação. Quero fazer uma resenha sem spoilers, então é suficiente dizer que todos os capítulos tem conexão entre si quando a trama é revelada.

Quanto aos personagens, são todos desenvolvidos e individuais, cada um em sua própria busca. É bem interessante como todos interagem dentro do espaço confinado, e acho que isso ajudou bastante no desenvolvimento da história. Eles são forçados a interagir. Lá no fundo do oceano, eles são como a única humanidade existente. Um pequeno adendo que é válido levantar é como a raça de nenhum dos personagens fica clara. Enquanto isso poderia ser um bom aspecto, o melhor mesmo seria deixar isso bem descrito no livro em si. A personagem Susana é descrita como “com pálpebras quase fechadas” e isso não foi bem executado. Talvez teria sido melhor descrevê-la como descendente de asiáticos do que acabar cometendo uma “gafe” dessas.

As Águas Vivas Não Sabem de Si é um livro muito introspectivo, que proporciona várias discussões sobre a natureza do ser humano. A história não deixa de ser interessante, e intercalado com os capítulos sobre as criaturas marítimas e o próprio mar, a narrativa se sustenta bem. Eu amei os capítulos sobre os azúlis, espécie que imaginei como águas-vivas mesmo, e seu sistema de comunicação e a civilização. O balanço inteiro da narrativa é muito bem feito, e como já dito, a escrita de Aline Valek proporciona uma atmosfera que realmente lembra o ambiente do oceano. Ela transmite o silêncio, a calma, e a ondulação através de suas palavras, criando uma narrativa única.

Uma das coisas que eu mais gosto na ficção científica é sobre a exploração do que significa ser um ser humano. Quem somos nós? O que significa sentir? O que significa existir? Aline Valek explora essas e outras questões com maestria, buscando o significado entre o individual e o coletivo. Um dos temas principais do livro é a solidão, e é muito bela a forma como o tema é tratado. A ficção científica, quando bem escrita e dentro do seu gênero, é capaz das coisas mais incríveis, e o livro me emocionou bastante nesse aspecto. As Águas Vivas Não Sabem de Si cumpre muito bem o seu papel, e não deixa a desejar. Creio que Aline Valek vai ser uma das grandes vozes do sci-fi aqui no Brasil, e estou ansiosa pelos próximos livros que ela lançar. Se forem metade desse, garanto que valem a pena ser lidos.

As Águas Vivas Não Sabem de Si foi publicado pela Editora Rocco em 2016. A edição está linda demais, a diagramação está de morrer. Vale a pena mesmo comprar.

Laura
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Escritora com um sonho distante de ter um diploma de faculdade. Fã de Hamilton e Star Wars. Lê muito e dorme pouco. Loka de muitas coisas.

2 comentários sobre “#desafiopavê: As Águas-Vivas Não Sabem de Si

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