Cara Gente Branca: A genialidade que os haters não podem calar

Recentemente a Netflix divulgou o teaser para uma de suas novas séries, baseada em um filme de 2014, e toda a internet enlouqueceu. Ok, não toda internet, mas uma parte bem irritante dela. A série vai chegar na plataforma esse ano e achei que seria bom falar um pouco sobre o filme Cara Gente Branca (Dear White People) para tentar te convencer que essa é uma das melhore obras que o universo poderia ter nos dado (ou pelo menos fazer você refletir sobre umas coisinhas bem importantes).

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[Descrição de imagem: Um grupo de jovens negros encaram a câmera com expressões confusas e revoltadas.] 

Lembro quando o filme foi lançado e todos os comentários negativos surgiram, igualzinho como tá acontecendo com a série; me lembro até de passar um tempo lendo os comentários que escreveram no vídeo do trailer oficial no YouTube (não perca seu tempo fazendo o mesmo). A verdade é que isso só me deu mais vontade de assistir ao filme, porém, sou péssima e enrolei. Até agora. Não faz tanto tempo que Netflix lançou o primeiro teaser da série e vários brancos vieram com o famoso NOSSAAAAA. Aí eu não pude mais evitar, tive que assistir Cara Gente Branca, o filme de 2014, dirigido pelo Justin Simien.

A verdade? Eu queria muito, muito gostar desse filme, mas uma parte de mim tava com medo disso não acontecer. Tive medo de achar o enredo ou as atuações fracas, ou algo do tipo. E o que aconteceu? Meus medos foram todos enterrados bem longe, porque Cara Gente Branca se apresentou como um filme ótimo, em todos os aspectos que ele poderia ser.

O filme conta a história de um grupo de jovens negros em Winchester University, uma faculdade prestigiada e bem branca.  A trama gira em torno de Sam White, uma jovem negra birracial que apresenta o programa de rádio chamado Cara Gente Branca, em que ela espalha verdades e alfinetadas aos brancos de sua universidade. As coisas começam a mudar quando Sam vence a eleição para ser a chefe da casa dos alunos negros e começa a cuidar das coisas do seu jeito. Ao longo do filme vamos conhecendo mais sobre outros personagens, como Coco, a jovem que prefere se afastar de tudo que envolve sua própria etnia; Lionel, o rapaz gay e negro que não se sente parte de nenhuma comunidade; e Troy, o garoto de ouro com um futuro perfeito, filho do reitor de alunos. Mostrando a vida desses jovens nesse ambiente, Cara Gente Branca acerta em cheio com suas problematizações.

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[Descrição da imagem: Sam olha triste para além da câmera e ao fundo vemos parte do prédio da universidade e Gabe, seu colega, a observando.]

É engraçado, porque toda a premissa de Cara Gente Branca se baseia no fato de ser uma sátira em que vemos o racismo na sociedade funcionar dentro de um ambiente fechado como essa universidade, e, no fim das contas, muitas das coisas que estão representadas ali são tão reais que até dói. Os brancos fascinados com os cabelos afros e sentindo necessidade de ficar tocando sem pedir permissão, o constante discurso dos brancos dizendo que todo apontamento racista é “mimimi” ou a fala de um personagem que diz “omi branco sofre” (juro que foi basicamente isso mesmo). Coisas que parecem ter saído de uma sessão de comentários da internet, ou pior, da nossa realidade (afinal, os comentários não se escrevem sozinhos, né não?).

O maior hino contra Cara Gente Branca é o fato de alguns brancos genuinamente acreditarem que tudo isso não passa de mimimi ou vitimização compulsório ou (o melhor de todos) racismo reverso. Eles se sentem ofendidos pela forma que os personagens brancos (pelo menos a maioria deles) são representados e pela forma como seus racismos são desmascarados nesse filme (e, provavelmente, serão na série). A cara pessoa branca que se depara com o trailer desse filme – ou aquela que se aventura a realmente assistir a obra – e não está em companhia da boa e velha empatia, acaba sentindo-se atacada pela forma como os piores erros dos brancos são expostos no longa.

Já dizia Renatinho: “Mas nos deram um espelho e vimos um mundo doente”. Bem, ninguém gosta de encarar as partes feias de sua história ou da história dos seus. E é daí que surge esse movimento insano de querer desmerecer um filme tão interessante e sincero como Cara Gente Branca.

Desenvolvendo seus personagens com delicadeza e fazendo com que suas histórias, mesmo que em um curto tempo (vamos lembrar que são quatro personagens principais e um filme de menos de duas horas), consigam nos cativar, Cara Gente Branca é fenomenal em entregar uma narrativa muito bem elaborada. O humor é bem utilizado e até mesmo dá para dar aquela choradinha básica (se você for Canceriana™ como eu), mas o que conquista nesse longa com certeza é a crítica social.

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[Descrição da imagem: Lionel olhando para além da câmera com um ar pensativo.]

Outro ponto engraçado: muitos brancos se sentem ofendidos pelo tal ~racismo reverso~ pregado no filme (o que no próprio longa a Sam trata de rebater, explicando que isso simplesmente não existe) ou apontando como o teaser da série que vai ser lançada prega o ódio ao branco (oi?), mas eu não vi ninguém comentando como Cara Gente Branca nasce de uma situação real e bastante comum, a tal da blackface. Enquanto os gringos costumam usar e abusar de blackface durante o Halloween, aqui no Brasil, durante o Carnaval, não é lá muito diferente; é só ver todas as fantasias de ~nega maluca~ que rolam por aí (ou, em caso mais recente, a Daniela Mercury empoderando negros com uso de blackface, rs).

Nos créditos finais do filme somos apresentados à matérias de casos de universidades gringas em que estudantes brancos fizeram uso de blackface. Isso mesmo que você leu, no plural. Não é um caso, ou dois, são vááários. E pra não ficar de birra com os gringos, apontando só os erros deles, aqui tem um exemplo, entre milhares, que mostra basicamente a mesma coisa acontecendo numa universidade brasileira. O filme retrata isso muito bem e a Sam faz um discurso maravilhoso sobre isso no final (amo essa personagem e vou protegê-la), mas, aparentemente, muitos brancos (se é que realmente assistiram ao filme) resolveram ignorar. É mais interessante reclamar sobre como esse filme mostra coisas ruins (ou só reais) sobre uma branquitude racista do que realmente ver como essa representação parte de uma violência verdadeira aos negros.

É difícil falar sobre esse filme sem ser de uma forma tão passional como essa, pelo menos não depois de ter lidos os comentários de que falei antes. Cara Gente Branca é mais uma obra que coloca uma minoria nos holofotes, dando o espaço de fala que constantemente lhe é roubado e que, como muitas outras, está sempre sendo silenciada. Então, faça um favor para si mesmo e assista esse filme. E você, branco: segura na mão da empatia e vai encarar o mundo com outros olhos e outras vivências, porque, assim, ninguém sai perdendo, já que além de ter uma crítica maravilhosa, Cara Gente Branca também é um filme incrível!

E pra terminar fica aquele pedido: Vamos assistir a série quando sair na Netflix! É muito fácil séries com elenco majoritariamente negro (vide Chewing Gum, Luke Cage e, a deusa mor, The Get Down) não receberem a mesma atenção do que outras composta praticamente só por atores brancos, então vamos ajudar essa produção e deixar os haters que vomitaram comentários racistas bem “ué?” com o sucesso de Cara Gente Branca.

Sol
meus textos | twitter | skoob | goodreads | filmowMestranda em Estudos Literários com ênfase em procrastinação. Apaixonada por cultura pop, acredita que toda história tem potencial pra ser uma boa comédia romântica e tá sempre pronta pra indicar uns chás.
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