O espaço do cabelo natural da mulher negra na ficção

Representatividade. Pra vocês que já conhecem o Pavê há algum tempo já deve ter dado pra notar o quanto essa palavrinha aí é importante pra gente. É só apresentar algum filme, série, livro ou qualquer outra forma de ficção em que a representatividade está presente que a gente fica tudo alegrinho. Somos fáceis assim (ok, nem tanto). E é justamente sobre a representatividade de personagens cacheadas e crespas que eu vim falar aqui hoje. Tá pronto? Então vamos lá!

curls

[Descrição da imagem: 4 fotos de 4 atrizes negras com seus cabelos naturais. A primeira (Gugu Mbatha-Raw) olha para além da câmera com uma cara surpresa, tirada de um episódio de Black Mirror. A segunda (Jessica Sula) olha para além da câmera sorridente, tirada de um episódio de Recovery Road. A terceira (Sherri Saum) olha para o lado com um leve sorriso e olhar de preocupação, tirada de um episódio de The Fosters. A quarta (Kylie Bunburry) olha para o lado sorrindo, tirada de um episódio de Pitch.]

Existem milhares de minorias que foram, durante muito tempo (e, honestamente, ainda hoje), marginalizadas e ignoradas pela sociedade. E como a mídia e a ficção acabam seguindo aquilo que é ditado pelo macro (ou pelo menos é o que acontece com as coisas que conseguem ir pra frente), é muito, muito difícil ver certas minorias serem representadas de forma interessante. A discussão sobre representatividade, porém, tem crescido cada vez mais e isso tem mudado um pouco dentro do que consumimos.

Meu foco no texto de hoje é a mulher negra, mais que isso, a mulher negra e seus cachos, então vamos pensar um pouco sobre essa representação. Vamos tentar pensar em coisas que assistimos quando éramos pequenos e quantas delas tinham mulheres negras. E aquelas produções que tinham alguma representação, quantas deixavam essa mulher com o seu cabelo natural? Aposto que não consegue se lembrar de muitas. Bem, eu mesma não lembro de quase nada e é por ter crescido sem essa representação que eu sempre tive uma relação bem complicada com o meu cabelo.

Ok, vamos parar um pouco para esclarecer uma coisa: toda mulher tem o direito de usar o cabelo como achar melhor, é fato. Se uma mulher negra se sente bem alisando seus cabelos, então ela tem todo o direito de fazê-lo e isso não é problema de ninguém. O que quero discutir aqui hoje é como a falta de representatividade de cabelos naturais pode afetar a vida de muita gente. Beleza? Então vamos seguir.

Se a representação (digna) de uma mulher negra já era algo difícil de encontrar na mídia, imagina então a representação de mulheres negras com seus cabelos naturais, não é? E pra galera do “quanto mimimi” isso pode parecer um choro livre, mas negue o quanto quiser, a verdade está escrita em caps, negrito, sublinhada e em itálico: REPRESENTAÇÃO IMPORTA!

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[Descrição da imagem: Personagem Taystee, de Orange is The New Black, bem próxima à câmera, com os olhos arregalados, a mão aberta no alto e parecendo preste a falar algo.]

Garotas como eu que cresceram sem essa representatividade tendem a ter uma insegurança profunda sobre seus cachos (pra não falar ódio). Se para todos os lados que olhamos vemos representação de mulheres lisas (mesmo quando é uma mulher negra ali na TV), por que deveríamos gostar dos nossos enroladinhos? É muito fácil a gente entrar na adolescência e fazer de tudo pra dar um fim ao nosso cabelo natural. Sobre esse assunto, The Fosters, em uma cena curta, conseguiu tocar bem no cerne da questão. Afinal, como Lena diz na cena abaixo, não é só cabelo.

“Mas, Sol, isso não melhorou?”

Pois é, melhorou sim. Como eu falei antes, essa questão da representatividade anda sendo muito abordada e, por isso, a gente vem vendo cada vez mais mulheres negras com cabelos naturais nas telinhas (ou nos livros, quadrinhos, jogos, etc). The Fosters é um bom exemplo, já que a Lena está praticamente todo o momento com o cabelo natural (e que belo cabelo, não é mesmo?). E essa não é a única série que anda mostrando isso, temos Recovery Road (que foi cancelada, mas Jessica Sula merecia a chance de brilhar em outra produção), Black-ish (que não só temos uma cacheada, como mulheres negras com diversidade de cabelos), Orange is The New Black, ou ainda, Pitch (aquela série maravilhosa que você já devia ter assistido, melhore). Toda vez que eu percebo como o espaço das cacheadas e crespas vem crescendo, um quentinho toma conta do meu coração.

E não é só na gringolândia que dá pra ver isso! Aqui mesmo temos a deusa, maravilhosa, incrível Taís Araújo fazendo papéis em que seu cabelo natural aparece lindão em cena. Acho que a primeira vez que vimos isso com mais clareza foi quando ela foi protagonista de uma novela. Não, eu não tô falando de A Cor do Pecado em que o cabelo dela era alisado e feito babyliss (sério, wtf?!). Tô falando de Viver a Vida, em que ela interpretou a primeira Helena negra (e a mais rejeitada até hoje). Não acompanhei a novela, confesso, mas lembro de ver algumas cenas com a Taís e ver aquele cabelão lindo, o que me deixava feliz pra caramba. Inclusive, foi mais ou menos nessa época que comecei a ver beleza nos meus próprios cachos. Atualmente a atriz está no papel de Michele na série Mister Brau e seus cachos tão lá, arrasando muito como sempre!

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[Descrição da imagem: Taís Araújo com seus cachos soltos, encarando a câmera e com a mão próxima ao rosto, fazendo um sinal com os dedos que encosta em sua testa.]

Antes era muito comum ver as cacheadas ou crespas serem representadas apenas pelas personagens de mulheres marginalizadas. Se alguma personagem negra tinha a chance de ter outro tipo de destaque, seu cabelo já era devidamente alisado. Como disse, fico feliz que isso tenha mudado, mas ainda acho que temos que melhorar.

Toda essa reflexão e a vontade de escrever esse texto surgiu quando estava assistindo um episódio de The Fosters e uma personagem negra alisou o seu cabelo para se apresentar na corte. Isso me fez pensar em como, quando precisamos ir em um casamento ou em algum ambiente mais formal, é comum cacheadas e crespas alisarem seus cabelos. E foi tentando chegar no motivo disso que eu percebi um probleminha que, confesso, me incomodou bastante.

A visão do cabelo natural da mulher negra como algo sujo e desarrumado ainda é bastante presente na nossa sociedade (é só andar em certos lugares com seu cabelo solto que você percebe isso). E quando uma mulher negra tem poder ou precisa parecer confiante e responsável, o alisamento acontece. Pensei em como isso era real na minha vida e em como isso era representado na ficção.

Eu adoro a série Suits e lá temos duas mulheres negras (Jessica, a dona da empresa e da sua alma, e Rachel, a belíssima paralegal) e as duas tem o cabelo alisado. Depois pensei em outras mulheres em posição de poder dentro da ficção, como Olivia Pope ou a Annalise Keating (e a Michaela). Eu poderia citar outros nomes, mas acho que já consegue ver um padrão aí, não é? Tudo bem você ter uma representação ou outra de mulheres negras poderosas de cabelos alisados, mas por que não fazer o mesmo com as cacheadas e as crespas? Honestamente, eu serei bem feliz quando isso acontecer.

How To Get Away With Murder até mesmo pareceu flertar com essa questão lá na primeira temporada, naquela belíssima cena em que a Annalise tira a maquiagem e a peruca, mostrando o seu cabelo natural e buscando humanizar a personagem sempre tão intocável. É uma cena muito, muito linda e cheia de significado, mas um desses significados, tenho a impressão, é justamente o fato da peruca alisada ser a representação do poder, enquanto o cabelo natural da Annalise ser um lado que precisa ser escondido.

(spoiler a partir do minuto 1:30, cuidado)

Bom, eu já estou me alongando muito, então vou dar uma resumida: o espaço da mulher negra cacheada vem realmente aumentando e tá lindo de ver todas essas personagens, mas isso não quer dizer que ainda não precisamos de mais. Quero cacheadas e crespas médicas, advogadas, na política! Quero que a representação do cabelo natural da mulher negra seja mais e mais presente, mostrando como nosso cabelo não precisa ser escondido ou modificado pra gente ser aceita em qualquer ambiente que quisermos estar. E quanto mais narrativas assim a gente tiver, mais fácil vai ser pra uma garotinha negra aceitar o seu próprio cabelo.

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[Descrição da imagem: a garotinha Anne do filme musical lançado em 2015 que leva o mesmo nome da personagem, encarando algo que não vemos no quadro e esboçando um leve sorriso.]

Como já disse e é sempre bom repetir: representação importa! Talvez não pra você, mas pra alguém que tá precisando se enxergar dentro de uma sociedade que nem sempre parece lhe aceitar.

SÓ MAIS UMA COISINHA: Depois que terminei de escrever esse texto acabei acidentalmente esbarrando em um vídeo que falava sobre a personagem da Sheron Menezes na novela Babilônia (que eu também não assisti e nem lembrava mais que tinha tido, rs). Pelo que vi na minha pesquisa a personagem era uma advogada arrasadora e usava seu cabelo natural em cena , ou seja, SERIA MEU SONHO???? Achei até fotos dela com turbante. Parece que nessa mesma novela outras personagens também usavam seu cabelo natural. Só quis deixar aqui essa observação, porque fiquei bem feliz quando soube disso (apesar de continuar sem saber sobre o resto do desenvolvimento da personagem). 

Sol
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Mestranda em Estudos Literários com ênfase em procrastinação. Apaixonada por cultura pop, acredita que toda história tem potencial pra ser uma boa comédia romântica e tá sempre pronta pra indicar uns chás.
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Um comentário sobre “O espaço do cabelo natural da mulher negra na ficção

  1. Pingback: O poder dos curtas e representatividade em animação com Os Herois de Sanjay | Pavê

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