Manual de Sobrevivência da Vida Adulta: o dia a dia de ilustradora e força feminina, de Brendda Lima

Não é nenhuma novidade que em muitas áreas de trabalho, há muitos mais homens seja em quantidade ou favorecimento. O mundo nerd e da cultura pop não é diferente, principalmente quando se fala em quadrinhos. Eu já conhecia o Social Comics, é um serviço de assinatura mensal brasileiro para quadrinhos, e o melhor disso é que tem muita coisa independente por lá, títulos de quadrinistas nacionais que super valem a pena a leitura e que às vezes não são fáceis de encontrar. O problema é que quando eu me cadastrei no site eu vi uma longa lista de quadrinhos feitos por homens, são pouquíssimas as mulheres que tem algo lá e isso ainda não é diferente nesse mercado. Mas as mulheres nos quadrinhos existem, as Lady’s Comics estão aí para provar isso! E venho aqui hoje falar sobre uma, Brendda Lima e seu trabalho incrível em Manual de Sobrevivência da Vida Adulta.

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Faz algum tempo que estava louca para ler Manual de Sobrevivência da Vida Adulta e conhecer o belíssimo trabalho da Brendda com um toque mais pessoal e não me decepcionei nem um pouco. A primeira coisa a se dizer é como o traço da Brendda é apaixonante. Além de possuir uma fluidez maravilhosa, ela trabalha muito bem o layout de cada  página e isso não é algo que se vê sempre, a leitura é muito mais dinâmica, rápida, leve e suave, além de criar uma estética muito bonita.

Sobre a história, pode se dizer que é praticamente o dia a dia da quadrinista, o título pode insinuar que é um guia, mas vai mais como um desabafo. E eu gostei que não só coisas da vida de uma jovem adulta, carregada de responsabilidades, morando sozinha e além de trabalho, também tem a carga extra de freelances para fazer; mas o toque pessoal que a Brendda deu de um assédio na rua voltando para casa, por exemplo. Algo que acontece tanto que é praticamente “normal” para nós mulheres, sendo que não é elogio, assédio é assédio e foi bacana a sutileza e força com que ela colocou isso. E ainda, com todo o peso de trabalho acumulado, desemprego e despesas, sempre havia a amiga dela ali, apoiando tanto no serviço, como por mensagens e a Brendda ilustrou perfeitamente como é uma boa amizade que fortalece, permanece com a gente e empoderadora; toda vez que mando ou recebo mensagem para ou das amigas apoiando, é esse sentimento de tamo junta, que deixa a gente mais forte e o coração mais quentinho. 

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[Descrição da imagem: um trecho da HQ, com três quadros. No primeiro quadro à esquerda, a protagonista (Brendda) de cabelos cacheados curtos, óculos escuros e uma lua na testa diz “É, mas quem disse que ele se importa?”. No segundo quadro, no centro, Brendda e sua amiga, negra, de cabelo preso, dão os braços uma para a outra em sinal de força e sororidade e a amiga diz “Mó paia, miga, mas faltam só dez páginas. Você consegue”. No terceiro quadro, à direita, a amiga de Brendda diz “A noite a gente se fala. Vai dar certo. <3”

E é claro que não podia deixar de falar sobre essas partes da vida adulta. O peso que a autora coloca sobre a carga do jovem entrando na vida adulta e os sentimentos conflitantes que vem com ela é muito natural e real. Os gatinhos que ficam ao redor dela sempre questionando o que ela tá fazendo e a julgando demonstra muito bem as inseguranças de que não só ela, mas muitos jovens e principalmente, jovens ilustradoras e quadrinistas sentem. Apesar de ser uma história curta, ela trabalhou muito bem essas questões e melhor: trabalhou muito bem essas questões, visualmente. 

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[Descrição da imagem]: trecho do quadrinho, uma página inteira. Na parte superior, primeiro quadro, Brendda entra em uma sala de escritório e diz “O futuro é um negócio que me dá mais medo do que lutar contra baratas voadoras”. Segundo quadro, abaixo no lado esquerdo: foco no rosto de Brendda assustado e o dizer *flashback* no canto. Terceiro quadro, um pouco abaixo, a imagem ilustrada de uma barata. Quarto quadro: ao lado do segundo quadro, situado no lado direito, uma barata voando e caindo pra baixo, Brendda no canto direito correndo. Quinto quadro: no lado direito, uma fileira abaixo, uma mão segurando um spray. Sexto quadro: no lado direito, Brendda encostada na parede e com a mão na testa aliviada diz “UFA!”. Sétimo quadro: a barata morta no chão e o dizer *fim do flashback”. Oitavo e último quadro no fim da página, Brendda diz “Nossa, ia ser massa se existisse um spray pra resolver as tretas da vida”.

Esses pontos foram essenciais pra eu amar ainda mais essa história curta do cotidiano da Brendda, mas como não bastasse, é claro, temos um grande bônus que é: se você gosta de desenhos animados como Steven Universe e Bee and Puppycat, talvez você goste ainda mais. Pelo menos, eu sou uma dessas pessoas e as referências e as formas sutis e ao mesmo tempo marcantes com que ela usou foram sensacionais. Além das referências estéticas sutis de Sailormoon e a vibe de garota mágica que é possível sentir principalmente na capa, trazem todo esse clima de empoderamento feminino no quadrinho. Inicialmente era uma webcomic e você pode conferir esse e outros trabalhos da Brendda Lima aqui. No mais, essa é uma das ilustradoras nacionais que devemos ficar de olho e mal posso esperar por mais quadrinhos de autoria dela como esse.

L.

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