Representatividade: Uma conversa sobre mídia, diversidade e inclusão

Como toda criança, sempre fui fascinada por histórias — tanto as que lia nos livros como as que via na TV e no cinema. Acredito que todas elas contribuíram de alguma forma, por menor que seja, para formar a pessoa que sou hoje. E sei que milhares de pessoas diriam o mesmo sobre o impacto da ficção em suas vidas. Assim, o que quero discutir hoje no blog é o modo como a ficção pode impactar a vida de todas as pessoas, mesmo aquelas que não estão tão intensamente envolvidas com esse universo, e a importância de termos histórias mais inclusivas que reflitam a realidade do mundo em que vivemos. Em outras palavras, a importância da representatividade na ficção.

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[Descrição da imagem: Montagem com alguns personagens de filmes e séries de TV. Da esquerda para a direita: Korra, do desenho A Lenda de Korra; Kelly e Yorkie, da série Black Mirror; Wil e Vivian, do filme Saving Face; e Chiron, do filme Moonlight – Sob a Luz do Luar]

Algum tempo atrás descobri a palestra The Danger of a Single Story, ministrada pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que eu considero um dos melhores comentários a respeito desse assunto. Vou citar alguns trechos da palestra ao longo desse texto, mas obviamente recomendo a todos que assistam o vídeo abaixo na íntegra.

Pense nas suas personagens de livros preferidas. Ligue a TV e olhe para o elenco das principais novelas e séries do momento. Procure lembrar também de programas mais antigos. Vá ao cinema e observe os cartazes dos filmes em exibição ou, ainda, dê uma olhada no catálogo de produções da Netflix. Pense também sobre os enredos dos gêneros mais populares: Ação, aventura, comédia romântica, drama. O que você vê?

Talvez a pergunta pareça abrangente e vaga demais, mas a questão aqui é a inclusão — ou, talvez seja mais apropriado dizer, exclusão. A indústria de entretenimento, em todas as suas plataformas, é povoada majoritariamente por personagens brancos, cisgênero, heterossexuais, magros, não portadores de deficiência e de classe média ou alta. Em gêneros como ação e aventura, o elenco é, geralmente, composto quase que exclusivamente por homens — com talvez uma personagem feminina pra ser o par romântico do protagonista. Quem sabe, talvez, um personagem negro ou gay para apaziguar eventuais críticas. É o que se chama de Token Minority: Um personagem pertencente a um grupo marginalizado (mulheres, pessoas não brancas e/ou LGBTs), não tem um arco narrativo próprio, só está na história pra ajudar o protagonista e possui pouco tempo de tela, além de um número reduzido de falas.

Embora a existência de um personagem como esse não seja necessariamente negativa por si só, já que personagens secundários de fato não precisam ter a mesma complexidade que o protagonista (embora seja perfeitamente possível escrever personagens interessantes em papéis menores), não deveria ser difícil imaginar o que acontece quando as minorias só estão presentes nessas posições secundárias e/ou quando são as únicas representantes de seu grupo na mídia mainstream. Na mente das pessoas privilegiadas, esses personagens tornam-se um modelo de características e comportamentos associados ao grupo que eles representam.

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[Descrição da imagem: Gif da personagem Jessica Huang, da série Fresh off The Boat, dizendo: “O cara chinês daquele filme [Gatinhas e Gatões] virou aquilo que as pessoas achavam que todos os chineses eram.” (Fonte)]

Por exemplo, personagens asiáticos geralmente ocupam o papel do amigo inteligente, bom em matemática, do protagonista branco. Qualquer pessoa asiática que não é boa em matemática pode te garantir que já ouviu “Ué, mas como assim? Você não é asiático?” ou coisas desse tipo. Esse tipo de comentário pode parecer um elogio, mas para muitos de nós é visto como um peso, uma pressão de atender às expectativas que esse estereótipo nos impõe — sem falar que desmerece nossos esforços atribuindo qualquer boa performance a um talento natural (que não existe) no lugar de muita dedicação. Mas isso é só um exemplo, porque estereótipos raciais já renderiam um post à parte.

De qualquer forma, assim como existem asiáticos que são, de fato, bons em matemática, existem também asiáticos que não são. O problema é que, com poucos papeis destinados a eles (e os poucos que existem geralmente se encaixam nesse estereótipo), a mídia reforça e naturaliza essa ideia, e as pessoas acabam tendo uma visão limitada, redutiva e preconceituosa de asiáticos. E acabam reproduzindo esses preconceitos na forma de piadas ou outras micro-agressões, mesmo sem querer ou perceber. O mesmo acontece com outras minorias, de forma até mais cruel: Negros sendo retratados sempre como pessoas agressivas ou criminosas, muçulmanos como terroristas, etc. Em suma: a falta de representatividade midiática de pessoas pertencentes a grupos marginalizados resulta na negação de sua humanidade e individualidade. Elas são reduzidas a um modelo simplista e estereotipado de personalidade e comportamento que molda a forma como elas são vistas e tratadas pela sociedade.

“A história única cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam falsos, mas que eles são incompletos. Eles fazem com que uma história torne-se a única história.” 

Chimamanda Ngozi Adichie

Essa é uma das razões pelas quais precisamos de uma mídia mais inclusiva: Para mostrar que as histórias de pessoas marginalizadas são tão variadas, ricas e complexas quanto as histórias de um homem branco, cisgênero e heterossexual. Que, se há tantas histórias em que o protagonista possui esse perfil, o mesmo vale para protagonistas que fogem dele de uma ou mais formas. E todas essas histórias merecem ser contadas, sem que o filme seja considerado “de nicho” (ex: filmes sobre negros, filmes LGBT, etc). Por que não uma comédia romântica com duas mulheres, ou uma novela em que o núcleo principal é todo negro, ou uma série cujo protagonista é asiático?  Por que esse tipo de produção é tão incomum que praticamente vira um gênero específico, enquanto que histórias sobre pessoas brancas, cisgênero e heterossexuais são vistas como o padrão, como universais, a ponto de existirem mil diferentes versões de histórias de ação, aventura, romance, drama, comédia, terror e suspense (entre outros) cujo elenco é constituído exclusiva ou majoritariamente de pessoas que se encaixam nesse perfil? Retratar as (muitas) histórias de pessoas que fogem desse padrão mostra que elas são tão humanas e reais quanto as que estão nele; através da ficção, podemos começar a alcançar a igualdade que temos em teoria mas não na prática.

“Eu sempre senti que é impossível se relacionar adequadamente com um lugar ou uma pessoa sem se relacionar com todas as histórias daquele lugar e daquela pessoa. A consequência da história única é essa: ela rouba as pessoas de sua dignidade. Ela faz com que o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada seja difícil. Ela dá ênfase ao que nos faz diferentes uns dos outros, em vez do que nos faz semelhantes.”

Chimamanda Ngozi Adichie

Um outro motivo pelo qual representatividade importa: no nível individual, ela pode fazer toda a diferença na autoestima de qualquer pessoa que não se encaixe nos padrões de beleza e/ou comportamento da sociedade. Ver alguém como você em um livro, série, novela ou filme pode ser incrivelmente empoderador. A internet está cheia de histórias que demonstram o quanto a ficção pode ser transformadora para pessoas marginalizadas. Para dar um exemplo recente, o filme Estrelas Além do Tempo, que conta a história real de três mulheres negras que trabalharam na NASA e ajudaram a levar o homem à lua, já está incentivando jovens garotas (particularmente negras) a ambicionar carreiras no ramo das ciências exatas — área que, infelizmente, ainda é dominada por homens, especialmente brancos.

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[Descrição da imagem] Ilustração que mostra uma garota negra sentada e olhando com admiração a personagem Nyota Uhura, personagem da série Star Trek interpretada por Nichelle Nichols. Uhura, única personagem negra da série, está ajoelhada em frente à garota negra, que diz, em inglês, “Representação Importa”. Arte de menellaos.

“Bem, quando eu tinha 9 anos, Star Trek estreou, eu vi aquilo e comecei a gritar pela casa, ‘Vem aqui, mãe, todo mundo, vem logo, vem logo, tem uma moça negra na TV e ela não é uma empregada!’. Eu soube naquela hora que eu poderia ser qualquer coisa que eu quisesse.” — Whoopi Goldberg

Leituras Recomendadas

Sei que isso já tá quase parecendo um artigo acadêmico, mas por incrível que pareça eu não falei tudo o que eu gostaria e como esse é um assunto muito importante pra mim, tem uns textos que são leituras fundamentais sobre o tema que eu quero compartilhar. Até porque cada grupo marginalizado tem histórias de opressão diferentes que se refletem na forma como eles são (sub)representados na mídia, e eu jamais poderia dar conta de todas elas (mesmo porque não cabe a mim falar por certos grupos). Então ficam aqui algumas leituras, em português e inglês, que eu recomendo.

Em português:

Minorias como Lideranças Decorativas – A Evolução dos Tokens na Cultura Pop

Personagens Não-Brancos em Filmes de Fantasia – Vilões, Monstros ou Figurantes

Por que Visibilidade Lésbica Negra é importante?*

Globo de Ouro, Branquitude e Negritude

A Mídia e a Solidão da Mulher Negra

A Importância de Sermos Heroínas Negras

Mídia e Racismo 1 | Mídia e Racismo 2

O que faz de Bruce Lee um cara universal e por que Hollywood continua errando?

Sobre (sub)representatividade

Representatividade e racismo na mídia brasileira: #asiansontv

Entre silêncios e estereótipos: relações raciais na literatura brasileira contemporânea

Eu quero escrever um livro sobre literatura brasileira

Era uma vez um casal diferente: a temática homossexual na educação literária infanto-juvenil

Saindo do armário: Literatura para a infância e a reescrita da homossexualidade

Em inglês:

Oscars So Very Incredibly Racist: Investigating 88 Years Of Academy Awards For Acting (Oscars Tão Increvelmente Racistas: Investigando 88 Anos dos Prêmios por Atuação)

At the major Hollywood film studios, 100% of top execs are men (Nos principais estúdios de Hollywwod, 100% dos executivos-chefes são homens)

Where We Are On TV (2015-2016) (Onde Nós Estamos Na TV, 2015-2016)
Relatório da organização GLAAD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation, ou Aliança Gay & Lésbica Contra Difamação, em português. A GLAAD é uma ONG americana que se dedica a monitorar a forma como pessoas LGBT são retratadas na mídia)

Where We Are On TV (2016-2017) (Onde Nós Estamos Na TV, 2016-2017)

5 Ways You Don’t Realize Movies Are Controlling Your Brain (5 Jeitos De Você Não Perceber Que Filmes Estão Controlando Seu Cérebro)

Roundtable discussion: Interactions between female characters in fiction and their effect on real-life relationships between women (Mesa-redonda: Interações entre personagens femininas na ficção e seu efeito nos relacionamentos entre mulheres da vida real)

Coloring Science-Fiction With Diversity (Colorindo A Ficção Científica Com Diversidade)

Leia Is Not Enough: Star Wars and the Woman Problem in Hollywood (Leia Não É O Suficiente: Star Wars e O Problema de Hollywood com Mulheres)

Hollywood’s Diversity Problem Isn’t Just With “Selma” (O Problema de Hollywood com Diversidade Não É Só com “Selma”)

I Was Made to Believe There’s Something Wrong With Me: Why #BlackLivesMatter in YA Lit (Me Fizeram Acreditar Que Havia Algo de Errado Comigo: Porque #VidasNegrasImportam na Literatura Juvenil)

On the struggles of being the ‘other’ in film and TV remakes (Sobre as dificuldades de ser o “outro” nos remakes de filmes e séries de TV)

Pra encerrar de vez o post, mais uma citação do vídeo da Chimamanda, que é uma das minhas preferidas:

“Histórias importam. Muitas histórias importam. Histórias têm sido usadas para desapropriar e difamar, mas histórias também podem ser usadas para empoderar e humanizar. Histórias podem quebrar a dignidade de um povo, mas histórias podem também reparar essa dignidade quebrada.”

— Chimamanda Ngozi Adichie

Bia
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Estudante de Letras, louca do Photoshop, gosta de uns desenhos aí e tá sempre problematizando tudo. Reza a lenda que tem uma bolsa mágica de textões. É mais legal do que essa bio sugere.
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3 comentários sobre “Representatividade: Uma conversa sobre mídia, diversidade e inclusão

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