Pavê de Vó: Os filmes d’Os Trapalhões

éVocê, assim como eu, se lembra de todo dia sentar no sofá para assistir os filmes da Sessão da Tarde na sua infância? E quantos desses filmes não eram protagonizados pelo quarteto de comediantes mais famoso do Brasil? Os Trapalhões fizeram parte da infância de muita gente, incluindo a minha, e eu genuinamente me divertia muito com as comédias desses quatro. Como lembro bem pouco dos filmes mais antigos deles, achei que seria legal reassistir alguns, resgatar essa nostalgia e comentar aqui no Pavê de Vó. Se interessou? Então vem comigo!

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[Descrição da imagem: Os quatro trapalhões – Dedé, Zacarias, Mussum e Didi – lado a lado, olhando para frente. Dedé parece estar falando, Zacarias sério, Mussum apontando para frente rindo e Didi sorrindo.]

Entre A Lagoa Azul e De Volta A Lagoa Azul, outros filmes eram exibidos na Sessão da Tarde (por incrível que pareça) e, em época sem internet e Netflix, esse era um dos poucos momentos em que conseguíamos assistir filmes (ou indo alugar VHS na locadora, sdds). Era péssimo ter vontade de assistir um filme e ter que ficar esperando ele passar na TV, mas, quando isso finalmente acontecia, era sempre uma grande felicidade.

Alguns dos filmes que alegraram minhas tardes na infância em pleno anos 90 (quando a vida fazia sentido e filme passava depois do Vale a Pena Ver de Novo, antes da Malhação) com certeza foram os filmes com Os Trapalhões. É engraçado dizer isso hoje, porque todo mundo ri e acha super trash, mas quando eu era criança, eu adorava ver todas as referências brasileiras aparecendo em um filme de fantasia ou sci-fi (por mais que realmente fosse trash, o que eu nem tinha noção, claro). Era sempre divertido ver um longa com rostos conhecidos, que falavam gírias da sua língua materna e coisas do tipo.

Acabei pegando um pouco das duas fases dos filmes d’Os Trapalhões, assisti alguns dos mais antigos, com os quatro integrantes, assim como os mais recentes, apenas com o Didi e Dedé (ou até só o Didi). E embora eu adore alguns desses da segunda fase – como O Noviço RebeldeSimão, o Fantasma bundão Trapalhão e O Trapalhão e a Luz Azul -, resolvi falar aqui sobre alguns dos mais antigos que marcaram a minha infância.

Mesmo com um pouco de medo de confrontar as memórias nostálgicas que esses filmes me remetem, me joguei nessa jornada e reassisti esses filmes para poder escrever um pouco melhor (e problematizar mais, rs) sobre essas obras preciosas.

Então vamos parar com a enrolação e vamos aos filmes!

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Os Saltimbancos Trapalhões (1981)

Ah, o maior clássico d’Os Trapalhões! Esse não foi o primeiro longa do grupo, na verdade, tiveram vááááários outros de 1965 até 1981, mas Os Saltimbancos Trapalhões é, com certeza, o mais memorável de todos eles (não é pra menos que o filme teve um remake no começo desse ano, né?). Dirigido pelo J. B. Tanko, quem trabalhou em diversos outros longas d’Os Trapalhões, o filme é mais uma adaptação da peça Os Satimbancos, e chega até mesmo a reutilizar as músicas da versão brasileira, composta por Chico Buarque, junto com alguns acréscimos bastante pertinentes para o filme. Nesse filme não temos os animais realmente, mas temos a trupe de um circo em que o seu dono, chamado de Barão, explora os seus funcionários. Ainda utilizando como plot principal o enredo da peça, em que a classe trabalhadora e artística se revolta contra a burguesia (representado pela figura do Barão tanto no filme d’Os Trapalhões, como na peça que deu origem), vemos Didi, Dedé, Mussum e Zacarias passar por vários perrengues no circo, o que os motiva até mesmo a largar tudo e tentar a vida na cidade.

O filme, sendo uma comédia d’Os Trapalhões, é todo recheado com sequências e mais sequências de cenas engraçadas, daqueles humores patetas com quedas ou caretas e trocadilhos. Essas cenas, apesar de muitas vezes estarem ali apenas para fazer graça e acrescentando praticamente nada ao enredo, conseguem arrancar genuínas risadas do telespectador. Tudo bem que são estratégias bastante batidas de humor, mas é sempre interessante ver como esse grupo de atores dava vida para essa característica, que era muito própria d’Os Trapalhões e sempre estava presente em seus filmes.

Essa é uma história basicamente sobre classes sociais e o filme mantém essa reflexão, trazendo um final bastante otimista (A REVOLUÇÃO FUNCIONOU, AEEEE!) e bastante irreal, mas que dá um calorzinho no coração dos artistas sonhadores, assim como o personagem de Didi.

O enredo do filme é bastante redondinho e o final é bem bonito (de um jeito meio bad, pra ser sincera). Eu me lembrava de quase nada desse longa; na verdade, a cena da Lucinha Lins cantando História de uma gata era o único momento que nunca esqueci, mas foi uma surpresa boa rever esse filme. Achei que ia encontrar algumas piadas problemáticas ou que a história em si seria bem desvirtuada da ideia do que deve ser Os Satimbancos, mas realmente não me lembrava como o filme cumpre tão bem o seu papel, apesar dos efeitos duvidosos. Os Saltimbancos Trapalhões merece e muito o título de obra mais memorável desse grupinho.

 

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Os Trapalhões no Reino da Fantasia (1985)

Meus deuses, esse filme… Nem sei o que dizer, só sentir. Mas vamos lá, vou tentar falar um pouco sobre o longa e sobre como foi reassisti-lo. Os Trapalhões no Reino da Fantasia, dirigido pelo próprio Dedé Santana, traz em seu elenco, além dos quatro trapalhões, a Xuxa, que interpreta aqui a Irmã Maria, uma freira que trabalha num orfanato. O enredo gira justamente ao redor de como a Irmã Maria precisa de dinheiro para salvar o orfanato e decide, então, chamar os trapalhões para ajudar. O grupo aceita e prepara um show para arrecadar dinheiro, mas no meio da apresentação o dinheiro dos ingressos é roubado, fazendo Didi, Dedé e Irmã Maria perseguirem os ladrões, deixando o show nas mãos de Zacarias e Mussum.

Ok, esse é o enredo principal, MAS O FILME É MUITO MAIS QUE ISSO! É difícil dizer qual o gênero dessa obra já que ela brinca com vários deles, deixando o espectador entretido durante todo o longa. O tiro já começa quando, bem no começo do filme, um garotinho está lendo o gibi d’Os Trapalhões (que realmente existiu) e aí somos transportados para dentro do gibi e temos uma sequência de uns 20 minutos de animação, produzida por ninguém mais, ninguém menos do que Maurício de Souza Produções. Essa parte tem o total de zero importâncias para o plot principal, mas vemos os quatro comediantes no formato desenho, lutando contra o mago que quer tocar a mão do Didi (pois é, isso mesmo).

O filme também conta com uma montagem nostálgica de várias cenas de outros filmes dos trapalhões. Um garotinho pergunta para o Didi como é ser um trapalhão e aí os trechos de filmes do passado surge na tela, mostrando a lembrança de Didi sobre todos os momentos incríveis que viveu com seus companheiros (apesar que, até onde entendi, essas vivências são realmente filmes, já que a Irmã Maria tá toda hora falando sobre “os filmes d’Os Trapalhões“).

E ainda tem a presença ilustre do Beto Carreiro! Durante a perseguição (que acontece durante todo o filme, honestamente) eles vão parar no parque do Beto Carreiro e lá acabam esbarrando com ele e recebendo sua ajuda para alcançar os ladrões e o dinheiro.

Pareceu uma confusão? Isso porque realmente é uma bagunça muito louca. O roteiro é bem ruim e as sequências piores ainda, mas a alma d’Os Trapalhões tá ali no filme (também recheado das sequências cômicas à lá Os Três Patetas, principalmente na apresentação sendo feita por Zacarias e Mussum).  O filme é bem ruim, é verdade, nem chega perto de Os Saltimbancos Trapalhões, mas pelo menos termina com todos felizes, cantando e com chuva de dinheiro.

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A Princesa Xuxa e os Trapalhões (1989)

Olha, eu AMAVA esse filme quando era pequena. Hoje em dia só lembrava de flashes da história (tipo a cena com a Xuxa de roupa prateada, a cara do futuro!), mas quando era criança, sempre ficava feliz de ver que A Princesa Xuxa e os Trapalhões tava passando na TV. Por esse motivo, tava com um pouco de medo de rever esse filme, mas me joguei nessa também!

Dirigido por José Alvarenga Júnior, esse filme traz novamente Xuxa ao lado d’Os Trapalhões. O enredo conta a história de um planeta, Antar, em que o verdadeiro rei foi assassinado e deposto por Ratan, um cruel líder que escraviza as crianças e mantém a princesa Xaron ignorante sobre tudo de ruim que acontece no resto do planeta. Mussaim, Zacaling e Dedeon são três príncipes que conseguiram fugir do castelo e querem resgatar a princesa daquele lugar, e acabam contando com a ajuda do nômade chamado Cavaleiro Sem Nome (“Cavaleiro por parte de pai, Sem Nome por parte de mãe”), que mais tarde no filme é nomeado de Diron.

Se eu me decepcionei reassistindo esse filme? NEM UM POUCO! Assim, tiveram uma ou duas piadas ruins, mas pra um filme de 1989, eu até esperava que fosse ser pior nesse sentido, mais problemático. As atuações são aquela coisa, né, bem mais ou menos, assim como os efeitos, mas o enredo de A Princesa Xuxa e os Trapalhões é surpreendentemente redondinho!

Cheio de referências claras à Star Wars e sempre com um toque humorístico, esse filme apresenta uma interessante história de aventura. Bem, clichê, tudo bem previsível, mas não menos divertida e bem contada. Ainda tem aquele quê de romance que cerca princesa Xaron e Diron (sei que parece bizarro shippar Xuxa e Didi, mas era um OTP real na minha infância, apesar de umas coisas que ele fez terem me irritado muito enquanto reassistia o filme).

A Princesa Xuxa e os Trapalhões continua sendo um bom filme pra se assistir assim sem muitas pretensões e acabar se divertindo bastante, como uma boa obra de Sessão da Tarde.

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Os Trapalhões na Terra dos Monstros (1989)

Mais um filme recheado de participações especiais! Dessa vez não temos Xuxa, mas temos Angélica, bem no começo de sua carreira. Assim como logo no começo do filme vemos Gugu Liberato apresentando o Viva a Noite e a banda Dominó (vocês lembram dessa boy band, gente???). Sem contar, é claro, os merchans super estranhos que são jogados ali do nada, como a galinha da Maggi no programa do Gugu, ou a presença do Bocão da Royal no quarto da Angélica (essa foi a parte mais sem noção do filme, com toda certeza).

Mas enfim, Os Trapalhões na Terra dos Monstros conta a história de Angélica, uma jovem que quer ser cantora mas sempre é oprimida pelo pai empresário. Angélica participa de uma competição chamada Sonho Maluco e ganha a oportunidade de gravar um clipe com a banda Dominó na Pedra da Gávea. A jovem acaba sumindo e o pai manda os seus funcionários (Os Trapalhões) irem atrás dela. Os quatro acabam caindo dentro de um portal e indo parar dentro da pedra, onde encontram não só Angélica e seu namorado, como diversos monstros.

O filme tem umas piadas engraçadas, uns momentos bem apelativos aos fãs da época (tipo o momento que Dominó tá gravando o clipe, a única cena que eles aparecem), mas a história não é lá grande coisa. O enredo é fraco e não prende tanto, mas pelos monstros fofinhos a gente consegue chegar até o final.

 

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O Mistério de Robin Hood (1990)

No circo começamos, ao circo voltamos. Mais um dos meus favoritos da infância, mais um com participação especial da rainha dos baixinhos (no mesmo ano em que sairia Lua de Cristal, o maior filme brasileiro que você respeita, e que, assim como esse filme, também conta com a presença da pequena Duda). Esse também é o primeiro filme em que Os Trapalhões são apenas três, afinal, Mauro Faccio, o Zacarias, havia falecido antes da gravação desse longa.

Outra obra dirigido por José Alvarenga Júnior, O Mistério de Robin Hood conta a história de um vagabundo, Didi, que é um Robin Hood moderno e rouba grana da elite pra dar aos pobres. Didi vive escondido em um circo, onde trabalha Fredo (Dedé) e Tonho (Mussum), e é apaixonado pela filha do vendedor de bonecos, a Tatiana (Xuxa). O filme também conta com a presença de uma garota de rua, a Rosa, quem o Didi acolhe como sua protegida.

Didi paga de Batman nesse filme e tem até um esconderijo com diversos apetrechos tecnológicos que fazem com que ele fique antenado nos planos do vilãozão do filme. Como é de se esperar, o malvadão não fica nada feliz com toda interferência do Robin Hood e durante o filme ele tenta encontrar quem é esse herói do povo.

Algumas coisas são bem fracas. Por exemplo, não faz nem sentido a Tatiana se vestir de moleque, apesar de ser super engraçado ver o Moleque em cena. Também não é nenhuma surpresa quem é o verdadeiro vilão do final, isso é algo que está bem claro desde o começo, apesar de tentar ser um mistério. Mas algumas coisas são realmente bem legais nesse filme; a Rosa, por exemplo, apesar de aparecer bem pouco, tem uma presença bem cativante e interações ótimas com o Didi (mas sou suspeita pra falar, porque eu gostava muito da Duda). Apesar de tudo isso, o Zacarias fez muita falta.

 

A experiência de reassistir esses filmes acabou sendo bem mais divertida do que eu imaginei. Eu cresci com Os Trapalhões e o grupo realmente marcou com seu humor uma época do nosso país, então é importante revisitar esses filmes e poder apreciar a forma como eles conseguiam fazer graça com tão pouco, sempre tão cativantes. E é interessante notar como esses filmes (como muitos outros) do grupo sempre trazem alguma reflexão, mesmo que muito inocente e superficial, sobre classes sociais.

Apesar disso, ainda tinha meus receios. Tinha certa memória sobre piadas questionáveis, principalmente em relação ao Mussum, tanto que durante essa maratona eu decidi procurar algo sobre racismo e o personagem, e acabei esbarrando nesse texto bem interessante (se você ignorar o “moreno” e “mulato” ali no meio). O próprio programa do grupo era recheado de esquetes bastante inteligentes que pareciam questionar a questão racial no Brasil, enquanto algumas outras tavam sempre se apoiando em racismo e xenofobia. O bom é que no filme se vê pouco dessa parte negativa, apesar de muitos deles seguirem com o aspecto alcoólatra para o personagem Mussum e até ter algumas piadas racistas, mas entre esses cinco de que falei, por exemplo, eu praticamente não vi isso.

Enfim, eu gostei muito de reassistir esses filmes e espero que esse texto tenha despertado aquele bichinho nostálgico no coração de vocês pra poderem embarcar em uma maratona Os Trapalhões também!

 

Sol
meus textos | twitter | skoob | goodreads | filmowMestranda em Estudos Literários com ênfase em procrastinação. Apaixonada por cultura pop, acredita que toda história tem potencial pra ser uma boa comédia romântica e tá sempre pronta pra indicar uns chás.
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