#desafiopave: Ouro, Fogo & Megabytes, o primeiro livro de O Legado Folclórico

ouro fogo e megabytes

Descrição da imagem: “Ouro, Fogo e Megabytes”, com o título em lettering dourado e a imagem de um boitatá de fogo prestes a atacar um menino em cima de um prédio, sobreposto sobre um livro de capa vermelha.

Domingo aqui no blog é dia de #DesafioPave, e o livro que escolhemos ler para o mês de março foi nada mais nada menos do que Ouro, fogo & megabytes, do Felipe Castilho!! A temática desse mês era justamente livros com criaturas mágicas e, já que decidimos focar apenas em obras nacionais esse ano, nada mais justo do que escolher um livro (ou melhor, o início de uma série) que usasse nosso folclore nacional!

Ouro, fogo & megabytes começa com uma partida de Battle of Asgorath, um jogo de RPG online nos moldes de League of Legends. É aí que somos apresentados a Shadow Hunter, o segundo melhor personagem dentro do jogo todo, e, consequentemente, a Anderson Coelho – um garoto de 12 anos que mora na cidade de Rastelinho, em Minas Gerais, e divide seus dias entre ir para a Escola de Ensino Fundamental Zeferina Risoleta de Jesus pela manhã e jogar Battle à tarde com seus amigos da internet.

Anderson é como todos os meninos da sua idade – curte jogos, vive em uma família de classe média em uma cidade do interior, é atormentado pelos meninos mais fortes e implicantes da escola e não vai com a cara do menino mais inteligente da sala. Seu melhor amigo, Renato (ou Hellnato), está sempre disposto a tomar seu partido e se meter em brigas para defendê-lo, além de passar horas e horas como um anão chamado HeLLHaMMeR em Asgorath com Anderson.

Mas as coisas mudam um pouco de figura quando, querendo mostrar suas habilidades para os garotos populares e irritantes da turma, Anderson acaba chutando a última bola de futebol da aula de educação física para o terreno baldio atrás da escola, levantando a ira dos outros meninos. Encurralado, Anderson não vê outra solução que não pular o alto muro e ir recuperar a tal bola enquanto o professor não volta. E é aí que ele se depara com a primeira criatura folclórica em sua vida – a primeira de muitas.

O encontro mexe com Anderson, mas o que realmente abre seus horizontes é a presença de um cara baixinho de terno que aparece na cozinha da sua casa quando Anderson volta da escola, dizendo que o menino passou nas eliminatórias para a Copa de Matemática. Apesar de jurar nunca ter participado de tal evento, os pais do menino caem na lábia do desconhecido, e logo Anderson se vê indo para São Paulo – para conhecer a Organização.

Não vou entrar em mais detalhes para não dar spoilers (acredite, acontece mais coisa nesse período que eu narrei), mas já deu pra ter uma ideia, não é? Anderson, um menino de 12 anos como qualquer outro, vê sua vida dar uma guinada quando entra em contato com seres do nosso folclore. Se você sentiu uma vibe meio Percy Jackson, anime-se: O Legado Folclórico (o nome da série) é ainda mais legal, porque é brasileiro. Usa a nossa cultura, anda pelas ruas e bairros e avenidas que a gente (de São Paulo) conhece, dá vida nova para sacis, botos, lobisomens, caiporas e cucas, além de ter um vilão digno de novela das nove. Além disso tudo, ainda nos apresenta seres que a gente mal conhece ou mal ouve falar, com justificativas bem plausíveis para suas aparências – como o Mão-Pelada, a Mãe D’Ouro e os capelobos (uma espécie de lobisomem com garras curvas e boca de tamanduá que chupa o cérebro dos outros – bem light, né, não? Eu fui escoteira por alguns anos e era esse bicho aí que aterrorizava as histórias na beira do fogo antes de dormir).

Ainda não se convenceu de ler Ouro, fogo & megabytes? Então fique sabendo que o Anderson, nosso protagonista, o menino estrategista que é levado para São Paulo para ajudar a Organização e descobre toda sorte de segredos e seres incríveis, é um menino negro. E isso, minha gente, é muito!! Aqui nós temos uma criança (ou um pré-adolescente, vai do seu gosto) negra, no auge dos seus 12 aninhos, que não só é o segundo melhor jogador de um RPG online mundial graças a sua dedicação e suas estratégias como também é o protagonista de uma série inteira, o herói responsável por feitos importantíssimos para a Organização e para o país como um todo (apesar de ninguém saber disso além dos seus amigos). E ele não é o único – Patrão, o chefe da Organização, é negro. Olavo, um dos meninos que moram na casa, é descendente de japoneses. E eles são importantíssimos para a trama!

Mas há um adendo a ser feito sobre isso – A descrição desses personagens é, em alguns momentos, problemática. São expressões normalizadas, que muita gente usa (às vezes sem nem saber que são ofensivas), mas que devem ser notadas. Anderson, por exemplo, é filho de um homem negro e uma mulher branca – ou seja, é um menino mestiço. Em certos momentos (como na primeira descrição física do personagem), o autor usa a palavra “mulato”, que é considerada ofensiva por muitos negros, em vez de dizer apenas “negro”. Olavo, o menino asiático que ensina arco e flecha para Anderson, tem os olhos descritos como “apertados” em alguns momentos, outra expressão que não deveria ser utilizada (assim como dizer que a pessoa tem olhos “puxados” ou “amendoados”), ainda mais em um livro cujo público pode ser crianças da faixa etária do próprio Anderson, ou seja, crianças que podem assimilar tais expressões sem nem mesmo imaginar que elas são problemáticas. É um detalhe importantíssimo. Uma forma de arrumar isso? Tendo mais cuidado ao descrever personagens não brancos e, se possível, consultando pessoas das etnias que estamos representando. Assim, não reproduzimos estereótipos ou termos ofensivos.

Outro ponto a ser notado é a carga crítica que o livro apresenta. Em vários momentos, o próprio Anderson e outros personagens apresentam discursos críticos, com lições sobre o meio ambiente e moral que, às vezes, pareciam meio forçadas e quebravam o ritmo da história. Sendo esse um livro mais infantil, acredito que não haja realmente um problema nisso – lembro que eu mesmo li livros com mensagens bem óbvias assim quando eu estava no ensino fundamental – mas é um tópico que pode cansar leitores mais velhos (como o pessoal aqui do blog). O próprio Felipe Castilho fala sobre isso em um texto recente na página do Facebook d’O Legado Folclórico (o link está aqui – ele fala também sobre escrever literatura fantástica nacional usando o folclore brasileiro, sua versão do saci e seus últimos projetos. Ou seja, uma leitura bem válida e interessante!), atribuindo tais características ao mercado editorial brasileiro e a dificuldade que é entrar nele. Ao longo do texto, Felipe também fala um pouco mais sobre como os outros dois livros da continuação se libertam um pouco desse molde – e eu, que já li os três livros publicados até agora, posso confirmar isso. Assim como Harry Potter tornou-se um livro mais “adulto” ao longo da série, crescendo com seus personagens, O Legado Folclórico fica cada vez mais louco e mais sério (já faz mais de mês que eu li o terceiro livro e até hoje lembro de alguns pontos do plot e fico desesperada pra falar sobre isso com QUALQUER PESSOA), muito mais rápido.

Ainda assim (e mesmo que esse post seja apenas sobre Ouro, Fogo & Megabytes), tanto Prata, Terra & Lua Cheia quanto Ferro, Água & Escuridão mantém as piadas e o ar divertido que aparecem no primeiro livro da série. Eu mesma perdi as contas de quantas vezes ri alto em cada livro e quantas lágrimas eu chorei enquanto ia lendo (não precisa se assustar – alguma dessas foram de orgulhinho e felicidade). Sem contar que, só de ver os nomes, deu pra notar que cada livro trata de um tema diferente e tem um ser folclórico como foco principal, né não? Eles também se passam em locais diferentes – o segundo acontece, em sua grande maioria, em uma ilha mágica flutuante e o terceiro em Sergipe, com direito a cangaceiros e personagens bissexuais, senhoras mágicas, magia de sereias, escravidão e verdades sobre os personagens que, aposto, você nunca ia imaginar (desculpa se rolou spoiler, MAS EU AINDA NÃO SUPEREI ESSE LIVRO).

A série O Legado Folclórico foi publicada pela editora Gutenberg e, além dos três livros publicados, ainda terá um conto publicado na Amazon sobre o Chris (meu personagem favorito – e olha que é difícil escolher um entre tanta gente maravilhosa) e um quarto livro, Aço, Vento & Sacrifício (já chorei só com esse título). Os livros são bem fáceis de achar em livrarias online – e valem muito a pena, sem encanar com faixa etária. Com uma narrativa fluída, personagens bem construídos e muita ação, Ouro, Fogo & Megabytes é um ótimo começo para uma série que só melhora – e com certeza merece um lugar na sua listinha de livros a ler!

Emily
meus textos | twitter | instagram | goodreadsGraduada em Letras. Ama monstros e cachorros e, principalmente, lobisomens. Puxa o erre, adora parênteses e quase nunca usa o plural direito.
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4 comentários sobre “#desafiopave: Ouro, Fogo & Megabytes, o primeiro livro de O Legado Folclórico

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