Quem Teme a Morte e a história que precisamos

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[Descrição da imagem] Foto da capa do livro. No alto, o nome da autora, Nnedi Okorafor. Posicionados no restante da capa há uma figura da protagonista de costas, em um deserto, com três figuras humanas ao longe. O título está ao lado: “Quem Teme a Morte – Onye e a Profecia”. A capa também exibe os dizeres “Na África do futuro, Onye, uma garota com superpoderes, luta heroicamente para salvar um mundo hostil e devastado”.

Aviso: O texto aborda a questão do estupro em alguns trechos de forma que pode ser sensível para algumas pessoas.
Não são muitas as vezes que temos oportunidade de “sair da caixinha” em termos de literatura: personagens padrões em ambientes padrões é a norma para maior parte das obras, principalmente aquelas que chegam bonitinhas em forma de livro físico nas livrarias. Esse padrão, em geral, tem classe, cor, gênero… Basicamente, segue o nosso entendimento enquanto sociedade do que seria o “padrão”. Por isso se fala tanto sobre a importância da representatividade.

Essa pequena introdução tem como intenção situar alguns aspectos que fazem grande diferença para o livro resenhado aqui, sendo responsáveis por me chamar a atenção logo de cara. Afinal, quantas vezes se ouve falar de uma história pós apocalíptica situada na África, tendo uma mulher como a “heroína”?
Quem Teme a Morte, escrito por Nnedi Okorafor, autora de ascendência nigeriana, e com tradução de Mariana Mesquita, trata da história de Onye, cujo nascimento é fruto dos conflitos entre dois povos africanos, estabelecidos a partir de uma relação de poder e opressão. Onye é diferente pelo seu nascimento, sendo alvo de extremo preconceito e desprezo, o que não a impede de pretender alterar aquela sociedade, não só por si mesma, mas por todas as pessoas que sofrem com a desigualdade violenta estabelecida, ainda que essas mesmas pessoas sejam quem a despreza.
Na África pós apocalíptica da obra, há dois grandes povos, os Okeke e os Nuru. Segundo o “Grande Livro”, que aparenta ser utilizado como um guia histórico e normativo para ambos os povos, os Okeke foram criados para serem escravizados pelos Nuru. Assim, temos uma situação de extremo conflito e submissão, na medida em que há algumas tentativas de rebelião dos Okeke, seguidas de repressão pesada por parte dos Nuru. Logo no início da obra somos apresentados à história chocante do nascimento de Onye, relacionado à prática dos Nuru de estuprarem mulheres Okeke para tornarem elas e os filhos gerados do estupro párias entre seu próprio povo.

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[Descrição da imagem] Foto do livro exibindo a capa e a lombada.

Talvez esse início já tenha dado a dica, mas para deixar em panos limpos: Sim, a história é entremeada por várias reflexões acerca de racismo, ainda que a situação estabelecida não seja exatamente comparável com a que vivenciamos em relação aos negros desde que foram sequestrados e escravizados. Entretanto, ao longo da obra, vamos lidando com vários momentos em que a existência da opressão fica clara, sendo possível relacionar a situações parecidas em nosso mundo.

Um exemplo é a demonstração da hipersexualização de mulheres como Onye, a qual é considerada uma Ewu, que seriam as pessoas nascidas do estupro de uma mulher Okeke por um homem Nuru (ressalve-se que, naquela sociedade, não é concebível que uma pessoa possa ser fruto do amor entre duas de povos diferentes). Quem sabe o fato de hipersexualizar e objetificar uma mulher com base na sua cor e/ou origem não lembre um pouco algumas coisas da nossa sociedade.

E não para por aí, afinal, estamos falando de uma protagonista mulher, certo? Onye lida com o machismo em vários âmbitos, assim como todas mulheres de nossa sociedade. Sofre com a reprodução do machismo por outras mulheres, por figuras paternas, pelo companheiro, por pessoas na rua que nem a conhecem mas se acham no direito de tratá-la como querem por ser mulher.

Outro aspecto incrível é a crítica que representa a existência do Grande Livro. É como se o simples fato de nele ter escrito que os Okeke devem ser escravizados pelos Nuru sustentasse toda aquela situação violenta. Considerei uma grande analogia ao poder da mídia, independente do tempo e lugar, pode ser na forma de nossa golpista Rede Globo, pode ser na forma da Bíblia em outros tempos históricos, e também ao poder do Direito, de dizer o que é certo e errado, sem que possa ser alterado.

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[Descrição da imagem] Foto do livro aberto, exigindo página com os dizeres “Parte 3 – Guerreiro” em cima de um desenho abstrato em formato de círculo.

Em muitos momentos, a obra versa tanto sobre essas opressões que nos sentimos massacrados. Desesperançosos. Como se aquela sociedade não tivesse jeito. Mas vamos aprendendo a ter esperança com Onye. Nos revoltamos junto com ela, choramos, temos vontade de que ela desista porque nem parece valer a pena. Mas Onye não quer saber de desistir e nos carrega para essa forte determinação para mudar as coisas.

Entretanto, ela não faz isso sozinha e esse é um dos pontos fortes do livro. O desenvolvimento dos personagens secundários e o quanto são importantes para a história. Onye não é A Salvadora que enfrenta tudo e todos. Ela está apoiada por uma série de outras pessoas maravilhosas, que possuem todos os seus defeitos porém em algum momento compartilham da determinação por mudança. Vemos isso na sua mãe, nas suas amigas, no seu companheiro, até mesmo num dos personagens homem que mais dá raiva de tão toscamente machista que é.

Isso acontece porque apesar de toda a destruição e tristeza que nos apresenta, Quem Teme a Morte é extremamente esperançoso. É um livro sobre lidar com as dificuldades, combater o status quo, por mais invencível que pareça. Sobre aprender a compreender a dor gerada pela opressão mas não torná-la um motivo para desistir e sim para lutar. A capacidade da autora de mediar a dor, a esperança e a luta na vida das personagens nos envolve e quase que nos conclama a não desistir também (sem em momento algum ficar com aquele aspecto de discurso pronto que, infelizmente, algumas obras progressistas acabam apresentando).

A história de Onye e sua luta para mudar a desigualdade em sua sociedade é forte. Forte como a sede de mudança de todos nós, que reconhecemos as violências de nosso mundo. Mas também esperançosa e é por isso que é exatamente o tipo de história que a gente precisa.

Marina
meus textos | filmow | skoobMilitante do Levante Popular da Juventude, de esquerda, feminista, lésbica e afrontadora da família tradicional brasileira. Nas horas vagas, estuda Direito, devora quadrinhos, lê livros, assiste filmes e algumas séries.

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