A Lenda da Iara: folclore brasileiro em quadrinhos

Depois que terminei de ler Ouro, Fogo & Megabytes, o nosso livro de março do #DesafioPavê, fiquei com sede de mais histórias com folclore brasileiro. Então, quando a CCXP Tour Nordeste rolou no final de abril aproveitei a oportunidade para vasculhar o Artist’s Alley em busca de mais obras que exploram esse lado fantástico da nossa cultura e foi lá que me deparei com A Lenda da Iara, do quadrinista pernambucano Laerte Silvino. E é sobre ela que vou falar no palê de hoje. Então se acomoda na cadeira aí que tá vindo mais uma dose de folclore brasileiro pra você!

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No livro, Laerte conta a lenda da Mãe D’Água de uma forma aterrorizante, com vários momentos lembrando uma verdadeira história de terror. Conhecemos Iara através da ótica dos Mebemokré, uma tribo que já sofreu várias baixas devido ao encanto lançado por Iara.

O pajé Kapot foi um dos que caíram no encanto da sereia, mas ao invés de ser arrastado até o fundo do rio, ele preferiu perder a audição para se ver livre. Dentro da narrativa, Kapot é uma figura que apesar de respeitada pelos guerreiros, não é levada totalmente a sério. Principalmente pelos mais novos que não acreditam numa criatura mítica como Iara.

Por isso, eles se arriscam além dos igarapés, no reino da Mãe D’Água. E quando se veem diante da beleza arrebatadora de Iara, os melhores guerreiros da tribo são levados à loucura e fazem de tudo para tentar satisfazer o desejo que sentem. O resultado, como advertido pelo pajé Kapot, não poderia ser diferente e os guerreiros encontram o seu fim.

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A Lenda da Iara prendeu minha atenção do começo ao fim, a atmosfera de terror é criada desde a primeira página com o relato do pajé sobre o seu encontro com a Mãe D’Água. Conforme a história vai progredindo, eu me senti apreensiva pelos personagens. Apesar de não conseguir realmente me apegar a nenhum deles — acho que a história é curtinha demais pra isso, o medo criado ao redor de Iara é tão forte que é difícil não ficar tenso ao ler.

E acredito que nisso, Laerte acertou bastante. Ele foi capaz de criar um enredo atrativo e que junto com as lindas ilustrações realmente prende o leitor. Principalmente nos momentos de tensão nos quais os quadros se tornam mais escuros; bem diferente dos cenários coloridos do começo, e vemos os personagens representados quase como zumbis, criaturas guiadas apenas pelo instinto.

Apesar de eu ter adorado a atmosfera de mistério e terror construída ao redor de Iara, foi nela, também, que encontrei o maior problema da história. Desde o começo o pajé Kapot é bem incisivo no quanto a Mãe D’Água deve ser temida e isso fica claro com o seu discurso, que abre a HQ, mas considerei o discurso com um tom misógino.

Ele lê: “De todos os perigos da Mãe Terra, não há nenhum maior que os perigos da mulher. Só basta um sorriso, um olhar ou um canto para enlouquecer a cabeça de um homem. Uma só mulher tem o poder de fazer uma guerra, colocar povo contra povo, tribo contra tribo. A mulher acalma o coração, mas, quando quer, também destrói o espírito.”

Na página seguinte é esclarecido que o motivo de tal discurso é o medo que o pajé sente de Iara, contudo essa citação seguiu me incomodando quando terminei a leitura. Iara é um ser poderoso, com a capacidade de encantar e amaldiçoar os humanos. Mas da forma que o texto está, não parece que todas as mulheres são Iara?

Nós sabemos que é nisso que muitos homens acreditam: que mulheres são bruxas, que seduzem os homens e os fazem cometer loucuras. Até quando somos introduzidos à história de origem de Iara é possível ver isso, que ela foi vítima do ódio e da inveja dos homens ao seu redor. Minha alegria é que sua forma de se vingar é matando os homens que se atreveram a cruzar o seu caminho. Acaba com eles, Iara!

Mas quando a história se volta para a relação entre a tribo e a Mãe D’Água, o suspense e o terror tomam conta da narrativa — a leitura flui e gostei de ler a lenda de Iara sobre essa ótica mais obscura, bem diferente da personagem d’O Legado Folclórico. É sempre bom ver que a nossa cultura está sendo contada e representada cada vez mais.

Rebeca de Arruda
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Social Media, entusiasta do k-pop e doramas. Lê livros demais, vê séries demais e uns filminhos também. Vive para problematizar (e amar) a cultura pop — e também para enaltecer The Shannara Chronicles!
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