Ficção Científica vs Fantasia: O que é o que é?

SCIFI ou fantasia

Quando discutimos ficção de gênero, na maioria das vezes pensamos em algo como ficção científica ou sci-fi. É claro que se pensarmos bem, toda a ficção tem gêneros (mistério, terror, suspense, e assim por diante), mas há um elemento claro quando tratamos do sci-fi e da fantasia no geral: o elemento que não pertence ao nosso mundo.

Nem todas as coisas, é claro, são tão óbvias. Há obras de ficção científica que são tão próximas da nossa realidade atual que mal podemos classificá-las assim. E mesmo obras como 1984, que é distopia (e cai dentro da enorme categoria da ficção científica) nem sempre são classificadas como tal.

Mas e então, o que distingue a ficção científica da fantasia? E o que torna cada obra parte do gênero?

A discussão Ficção Científica vs Fantasia ocorre muito quando estamos falando de Star Wars, e isso não é uma coincidência. Star Wars é uma space-opera (ou fantasia espacial), um subgênero da fantasia que mistura elementos dos dois gêneros. Note bem que aqui eu disse um subgênero da fantasia. Apesar de se passar no espaço, há uma razão essencial que classifica Star Wars como uma space-opera: as coisas são explicadas com mágica.

Ok, vamos lá. O primeiro elemento que pode definir os dois gêneros são as explicações usadas para dar origem ao mundo e ao cenário no qual a história se passa. Na ficção científica, nós temos a ciência como base. Na fantasia, nós temos a mágica.

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#pracegover: Imagem de Rey oferecendo o sabre de Luz.

Pois bem: em Star Wars, não há nada remotamente científico que possamos classificar na história. Apesar de termos robôs e naves espaciais, elas são apenas parte da história e entram mais no cenário do que uma configuração do próprio mundo. A parte principal de Star Wars é a Força. E o que é a Força se não algo mágico que controla o balanço do universo? Não há uma explicação científica para a Força nem para muitos dos outros elementos de Star Wars, sequer os sabres de Luz. Tudo se liga através da Força, e é ela que dita as regras do mundo.

Isso já não acontece em Star Trek, por exemplo. Apesar de sim, algumas explicações serem bem vagas, toda a Enterprise se baseia na parte da ciência, do teletransporte às espaçonaves. Há uma base científica, e é o que controla principalmente o mundo.

É mais difícil de ver essa diferença quando se trata do espaço. Estamos tão acostumados a ver ficção científica como algo obrigatoriamente ligado aos outros planetas e ao espaço sideral que sequer consideramos que pode ser qualquer outro gênero. Eu sei, parece confuso, mas a regra no fim é bem simples: há ciência ou há magia?

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#pracegover: imagem da Enterprise, espaçonave de Star Trek

No entanto, as diferenças no gênero não param por aí. É óbvio que a maneira mais fácil é se perguntar qual é a “regra” do mundo, e como esse mundo funciona. Senhor dos Anéis? Tem magia, então é fantasia. Star Trek? Ciência, então é Sci-Fi. Mas essa regra se torna um pouco mais difícil quando tratamos de livros que se encaixam nesse gênero, mas nem por isso incluem necessariamente elementos que seriam óbvios. Jogos Vorazes e praticamente todo o gênero da distopia cai nesse nicho – a ficção científica que não necessariamente apresenta os motivos comuns do gênero como naves espaciais e robôs.

É aí que podemos entrar com a temática que define o gênero. Sim, todos os gêneros costumam ter um tema em que abordam em mais peso. Uma ficção literária aborda a natureza do homem, a ficção infantil geralmente aborda o tema do que significa ser criança. Na ficção científica e na fantasia, temos temas recorrentes, e que no caso se desenvolvem de maneira diferente.

A fantasia, em sua maioria, aborda o tema de homem vs sociedade. É um debate comum, mas que coloca, no caso, o herói no centro e como ele interage com o mundo ao seu redor. As jornadas do herói mais comuns vivem ao redor disso – como o herói se encaixa dentro desse lugar? O que ele quer mudar no mundo? Normalmente, é o mundo que dita as regras pelas quais o herói deve viver. Pegando o exemplo clássico de Senhor dos Anéis, é claro que temos todas as diferenças entre espécies, e Frodo deve superar essas expectativas e levar o anel para ser destruído antes que o mundo todo sofra as consequências. Em sua maioria, se o herói não completar sua missão, o mundo inteiro sofre as consequências.

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#pracegover: A sociedade do anel em um fundo branco, mostrando apenas suas silhuetas.

Consequentemente, quase toda a fantasia é sobre o herói achar o lugar em seu mundo. Talvez não exatamente como indivíduo, mas como um todo. É normalmente reflexivo da sociedade e de como o ser humano interage com ela.

Na ficção científica, o contrário costuma acontecer. A jornada do herói não é sobre o mundo lá fora. Normalmente, ela costuma ser pela busca do que há dentro do ser humano – do que significa necessariamente ser humano. Star Trek consegue apresentar isso através de outras espécies. Westworld faz isso através dos robôs. Frequentemente, o tema do sci-fi gira ao redor do próprio ser humano, e não do mundo lá fora. Por mais que sim, seja importante salvar o mundo ou algo do gênero, a resposta nunca está lá fora. Ela está dentro do próprio herói, na busca de desvendar o significado da vida e do que significa ser um indivíduo. Enquanto a resposta da fantasia está em como o herói se encaixa no seu meio, o do sci-fi é o que o torna um indivíduo, um ser humano.

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#pracegover: Imagem de Ava, personagem que é um robô no filme Ex Machina. 

Essa diferença nos temas leva a muitas discussões de qual dos dois gêneros é melhor (o que pessoalmente eu acho um pouco ridículo). Um bom autor de fantasia consegue sim trazer o tema do indivíduo para o seu livro, como também um bom autor de ficção científica pode trazer a questão da sociedade para a sua escrita. As distopias mesmo estão aí para provar que os dois podem acontecer ao mesmo tempo. É claro, que para se encaixar dentro do seu próprio gênero, nenhum autor pode deixar de escrever o tema e o conflito principal que geram suas narrativas.

Também então podemos entrar em muuuuuitos subgêneros que esse guarda-chuva representa. Para a fantasia, temos a fantasia épica (Trono de Vidro, Senhor dos Anéis), que proporciona o leitor um novo mundo inteiramente diferente. A fantasia urbana, que se passa no nosso mundo mas com elementos mágicos (Cidade dos Ossos). Também temos histórias de horror e paranormal (A Outra Volta do Parafuso), a space opera (Jupiter Ascending), o realismo mágico (Circo da Noite), fantasia mítica e fantasia histórica. Na ficção científica temos gêneros como o steampunk (Leviathan), a ficção científica militar (Ender’s Game), invasão alienígena (Independence Day), ficção apocalíptica (Snowpiercer, O Dia Depois de Amanhã) e viagem no tempo (12 Macacos).

Confesso que ainda há muitas controvérsias quando estamos falando da ficção científica e da fantasia. Quando começou, a space opera em si foi classificada como sci-fi, mas cada vez mais vemos tudo isso dentro do gênero da fantasia. Ainda não são gêneros extremamente definidos, uma vez que podemos sempre dobrar as barreiras. Muitos dos filmes e livros que lemos podem até se encaixar em dois ou mais subgêneros, mostrando que a narrativa entre eles pode ser muito fluida.

E aí, qual desses você prefere e porque?

 

Laura
meus textos | twitter | goodreads | pinterest
Escritora com um sonho distante de ter um diploma de faculdade. Fã de Hamilton e Star Wars. Lê muito e dorme pouco. Loka de muitas coisas.
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2 comentários sobre “Ficção Científica vs Fantasia: O que é o que é?

  1. Fantasia libera a mente, faz viajar sem haver amarras ou barreiras, quer seja dentro ou fora do indivíduo ou ambiente.
    Ficção científica, tem uma base, faz pensar, refletir, crer que “um dia” possa se chegar lá.
    Entre um e outro, prefiro os dois, afinal sou humano, me adapto à situação e sobrevivo. 🙂
    Deixo aqui uma menção:
    “O medo é assassino da mente.
    O medo é a pequena morte que traz total obliteração.
    Enfrentarei meu medo, permitirei que passe sobre mim e através de mim, e quando tiver passado farei com que o olho interior enxergue seu caminho.
    Onde o medo esteve nada restará.
    Somente eu permanecerei.

    Ladainha do Medo – Frank Herbert – Duna”
    Excelente exemplo de fantasia, com altas doses de ficção científica.

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