#desafiopave: Cerulean: Belo, mas com seus defeitos

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[Descrição da Imagem: Foto da HQ, Cerulean, de Catharina Baltar. Ao centro, em um fundo esbranquiçado de uma mesa meio transparente, está a capa de Cerulean, com título em letra cursiva e branca, ilustração de uma sereia de cabelos azuis esverdeados de óculos, olhando fixamente para frente enquanto segura um celular com a tela brilhando em suas mãos, com a companhia de seu amigo axolote. Ao lado esquerdo, um marcador de página de uma das cenas da HQ, com Cerulean de corpo inteiro, vestindo óculos, uma camiseta, segurando em uma mão o seu amigo axolote e em outra o celular, com sua cauda de sereia à vista.]

Se vocês ainda lembram do #DesafioPavê, ele continua pleno e em pé, com as resenhas relacionadas ao desafio postadas sempre aos domingos. Estamos em maio e Cerulean foi a HQ escolhida para o mês de março, então sim, esse post está um tantinho atrasado, mas o que importa é que ele finalmente saiu! E caso você tenha perdido, pode conferir todas as resenhas relacionadas ao #DesafioPavê nesta página aqui, como a resenha de abril de As Lendas de Dandara feita pela Sol e O Enterro das Minhas Ex feita pela Mamá no domingo passado.

Cerulean é roteirizado e ilustrado por Catharina Baltar. O quadrinho começou com o Inktober – um desafio no qual artistas ao redor do mundo se propõem a desenhar todo dia durante o mês de outubro – e Catharina se propôs a tirar a sua personagem da gaveta e finalmente dedicar uma história completa para ela, fazendo uma página por dia no Inktober. A repercussão do projeto foi grande e com isso, depois de ajustes, acabamento e um desenvolvimento maior, Cerulean se tornou um projeto no Catarse e a sereia tomou forma física. Nós do Pavê descobrimos essa HQ na época em que ele ainda estava sendo financiado e tínhamos altas expectativas para ela. Afinal, uma HQ brasileira, feita por uma mina e, ainda, com uma sereia geek que usa óculos? Adoramos a ideia e algumas de nós estavam ansiosas. Eu, Lari, vou ser honesta e bem crítica nesta resenha. É sim um trabalho bem feito, poxa, é todo de aquarela e isso dá um trabalho enorme, tem muitos aspectos positivos, mas, no geral, eu esperava bem mais.

Eu tenho uma certa experiência não só lendo quadrinhos, mas absorvendo e analisando eles também, porque de certa forma, eles estão vinculados à minha área de atuação. E dá para perceber bem que a Catharina é uma ilustradora. E ilustradora de aquarela, com um traço que encanta muitos à primeira vista. Mas ainda não diria a palavra quadrinista. Não é apenas ter um desenho muito bem feito, uma história dividida em vários quadros. História em quadrinhos é uma forma de narrativa, tanto como um livro; seja em formato de romance ou crônica, assim também como ilustração. Mas não é um nem outro, em suma, é a união do uso ideal de roteiro e imagem para contar uma história – e até mesmo sem palavra alguma – em forma de vários quadros sequenciais, mas que juntos, formam uma história completa e bem estruturada. E senti que Cerulean era mais uma história ilustrada do que uma HQ e sim, tem diferença. Uma das coisas que mais faz diferença em uma HQ é o roteiro e a forma com que ele é narrado e estruturado. O roteiro de Cerulean foi meio fraco. Se a caracterização da personagem Cerulean e a aquarela não fossem boas e atrativas, não teria muito o que ficar animado para ler sabe? Vou explicar melhor.

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Essa é a primeira cena e página do quadrinho e já foi bem interessante essa abordagem. Logo no primeiro quadro, aparece um cenário típico urbano, cheio de edifícios, mas com um aspecto meio desfocado e descobrimos que a Cerulean é míope, não só por não conseguir enxergar direito e se atrapalhar toda – inclusive acaba se distanciando e se perdendo do seu grupo de sereias por conta disso – mas também logo depois, quando ela está explorando uma gruta, encontra uma mochila cheia de objetos humanos e, dentro dele, um óculos. Quando ela usa o óculos, ela percebe que agora consegue enxergar melhor. No começo eu tava animada, achei que tinha um toque de Ariel — quando ela encontrou a mochila, pareceu que ela já explorava o mundo humano e suas criações inanimadas, pois foi bem natural e mais familiarizado do que a Ariel que tava penteando o cabelo com um garfo, por exemplo. Quando ela encontrou o celular no fundo do mar, se adaptou bem às funcionalidades do aparelho. O celular descarrega então ela sai para procurar uma bateria nova (como ela já sabia disso? imaginei que ela observa os humanos frequentemente, mas não é algo mostrado aqui) e no mundo humano, ela se aventura pelos lugares cheio de aparelhos eletrônicos, como videogames, e é fascinada pela tecnologia que os humanos construíram.

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Cerulean também vai ao Meow Café, e lá conhece Mirna, uma garçonete do café que aparece vestida com orelhas de gatinho e um uniforme um tanto quanto similar à meninas de cafés japoneses. Na verdade o café e o conceito inteiro aplicado no quadrinho é um tanto quanto problemático. Mas volto nesse aspecto mais para frente. Mirna também trabalha como cabeleireira em outro lugar e convida Cerulean para experimentar um novo corte e a sereia ganha um visual totalmente novo. Depois de muito andar pelas ruas humanas, Cerulean volta para casa e se depara com as sereias do seu grupo, encontrando-a totalmente diferente, como é possível ver na cena abaixo.

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É certamente uma das cenas mais importantes e de destaque do quadrinho todo. Preciso parabenizar Catharina pela caracterização de sua protagonista muito bem: não só o traço, seu visual, como sua personalidade muito bem definida, seus gostos e suas expressões faciais, muito vívidas e (quase todas) bem naturais. A expressão de pertencimento próprio na face de Cerulean quando as colegas sereias a encontram e se surpreendem com sua mudança é marcante. Esse é um dos melhores aspectos do quadrinho: como Cerulean fazia parte de um bando, e, quando ela se perdeu dele, na verdade se encontrou e permitiu ser quem ela era de verdade. É visível a leveza no olhar de Cerulean quando ela tá ligada à tecnologia, explorando o mundo humano e seus objetos que são tão cativantes, visitando o café e degustando a comida diferente e se sentindo completamente confortável até mesmo quando está navegando pela Internet. O jeito como as outras sereias afrontam Cerulean para ela parar de besteira e ser uma sereia como elas deixa bem claro o aspecto das famosas panelinhas que são presentes tanto na ficção quanto na vida real, principalmente, dos adolescentes. Mas não é algo que é trabalhado tão a fundo e com interações frequentes entre elas, isso é possível ver na caracterização e desenvolvimento de Cerulean sozinha.

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E além disso não podemos esquecer do grande amigo de Cerulean, claro, Ollie. O bichinho é um axolote (um animal que existe de verdade inclusive, conhecido pelo seu rosto parecer que está sorrindo) e companheiro de todas as horas. Embora muitas vezes a sereia esqueça disso, pois está tão entretida com o mundo humano e o que suas tecnologias têm a oferecer, que passa horas e horas fora de casa, o que sempre causa uma certa irritação em Ollie, que claro, quer atenção e carinho. A caracterização do Ollie é muito boa também. Suas expressões são sempre bem pontuais (mais do que as de Cerulean às vezes) e o animalzinho tem uma luz própria, como não se cativar por sua simpatia e carisma? O maior ponto de conflito na história, é que um dia, Cerulean estava fora de casa e aí fica sabendo que uma mancha de óleo está se espalhando pelo oceano e a primeira preocupação que se passa na sua cabeça ao saber disso é naturalmente: Preciso avisar Ollie. Com certerza enriqueceu muito a história, não só de dar um grande destaque para a amizade dos dois, com um final lindíssimo de bonito, de aquecer o coração e sorrir de orelha a orelha, como ainda levanta a questão da poluição nos mares.

Falando assim parece que eu reclamei demais, mas de fato não tem um ponto central que mova a história e o principal ponto para movimentar a leitura continua sendo a arte. Não tem aquele ponto instigante que faz você continuar página após página ansiosamente sem mal poder esperar o que vai encontrar pela frente. A arte é sim, bela, mas em alguns pontos até mesmo pensei que poderia ser mais viva. A capa é deslumbrante e quando eu fui de fato ler o conteúdo dentro, senti que faltou um pouco dessas pinturas coloridas e vivas, da riqueza do oceano misturada à curiosidade e fascinação da Cerulean pelo mundo humano, teria sido lindo ter visto o conceito executado artisticamente também. A arte é bonita, mas não é espetacular ou revolucionária. Ainda sim, tudo de aquarela então vamos exaltar. Algumas diagramações de layout da página (como por exemplo a da segunda imagem desse post) ficaram muito bonitas e diferentes, contrastando com os diferentes quadros da história. Catharina teve esse cuidado de pensar em layouts diferentes bacanas e que desse um ar moderno e fluido para a história, o que é sempre um aspecto positivo.

Devo dizer que a edição contém alguns Extras, assim como o Pétalas do Gustavo Borges. A primeira parte a autora conta como foi o processo de criação, o que levou a criar o quadrinho, materiais utilizados e algumas partes de caracterização e desenvolvimento. A segunda parte é composta por Histórias Curtas, com três espécies de backstories diferentes e a última sendo uma continuação da história principal. A primeira é a uma história no ponto de vista de uma senhora, personagem coadjuvante que ajudou Cerulean, dando a entender que ela é uma exploradora também, viajando pelo mundo e retornou para casa, perto da praia, onde cruzou seu caminho com a sereia de cabelo azul. Mas não é muito revelado, apenas uma perspectiva de como as duas cruzaram caminhos. A segunda história é de como Ollie e Cerulean se conheceram e devo dizer que ESSA É A MINHA PARTE FAVORITA DA EDIÇÃO INTEIRA. Com certeza é um ponto que me fez gostar mais de tudo, apesar de não estar presente na narrativa principal, acrescentou muito no desenvolvimento tanto da Cerulean, como do Ollie e da amizade entre os dois. É uma parte tão boa que eu acho que até faria muita diferença se tivesse sido incluída na narrativa principal. O desenvolvimento seria maior e um pouco mais estruturado. Nessa história, começa em um cenário típico, o bando de sereias enganando e seduzindo alguns homens, o que já é bacana sozinho, mas aí, temos uma visão mais completa da vivência de Cerulean fazendo parte do bando e se sentindo de fora (ela não participa da Operação Presa Fácil com as outras sereias), ao invés disso, percebe algo dentro do navio e vê vários peixes presos e reféns, consegue resgatar apenas um, o axolote Ollie, mesmo o homem do navio tentando impedi-la (cena que até chegou a me deixar levemente aflita, preocupada com os personagens e entretida, poxa Catharina, como foi deixar essa história de fora???). Essa história curta é o resumo e complemento dos melhores aspectos do quadrinho e da inteligência de roteiro que faltava nele. É uma pena não estar presente.

A terceira história é da perspectiva da Mirna, conhecemos melhor a personagem – até porque as cenas em que ela aparece, mal dá para ter uma visão de quem ela é direito – descobrimos que era seu primeiro dia de trabalho no café, e ela estava tendo um dia horrível no trabalho, até que então, Cerulean chega e assim termina a história. Outra história de ponto de vista diferente e que entendemos melhor sobre a personagem e como ela cruzou com a protagonista. A última história é muito spoiler se eu contar, então resumidamente, o final do quadrinho principal termina em um ponto crítico. E nos perguntamos: Cerulean não volta mais para o mar? O que aconteceu com sua cauda? Ela se reencontra com o Ollie? (deixando vocês levemente curiosos para ir ler essa história, rs). E o que temos nessa última história curta é uma resposta das pontas soltas deixadas na história principal e cenas maravilhosas. Com certeza o melhor de Cerulean é: o desenvolvimento da personalidade e autodescobrimento da sereia, pertencimento e sua amizade com Ollie. No começo o Ollie parecia ser um personagem incluído só para ser fofo e você ficar caindo de amores em todas as cenas, mas ele mostrou que tem importância e lugar na narrativa e que sua amizade com Cerulean é muito importante. Foi muito bacana como a autora realçou a amizade dos dois no final. Cerulean deu importância à Ollie, o amigo que aceitou ela como ela era.

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Por fim eu finalizo problematizando horrores. Um dos meus principais problemas com essa obra, além de eu achar que tecnicamente, faltava um pouco, foi a apropriação cultural. Eu tenho ascendência japonesa então tô definitivamente no meu lugar de fala quando eu falo isso, sem falar na parte profissional. O Ollie, durante a história, falava algumas poucas coisas e era em uma língua diferente. Há um alfabeto na primeira parte dos Extras e eu fiz questão de traduzir todas as falas. A maioria das falas era algo como “Cerulean” ou até mesmo um oi, tinha algumas falas diferentes, mas não eram muito longas e nada que fosse essencial para a narrativa; Ollie já se expressava perfeitamente  bem com suas expressões faciais, então não achei assim tão importante ter essas falas. E além disso é um fator bem problemático. Muitos dos símbolos do alfabeto remetem à ideogramas do próprio alfabeto japonês e como vocês podem ver na foto, a própria Catharina diz que se inspirou em caracteres japoneses e élficos. Eu digo: Por que? Qual o propósito disso? Se ainda tivesse algo a ver com a história – ainda não ia deixar de ser problemático, mas ao menos teria um objetivo. Me pareceu que foi para caracterizar o Ollie como uma criatura diferente. O que eu achei meio sem sentido, pois axolotes não são qualquer criatura imaginária, são animais que existem de verdade e se apropriar de outra língua que não a sua pra fins estéticos, porque acha fofo ou vai ficar bonito, sem ao menos ter um propósito real, não é certo. E não é só isso. Eu falo isso porque eu senti uma certa romantização da cultura japonesa pela Catharina Baltar e ela aplica isso esteticamente no trabalho dela. É uma coisa quando você gosta da cultura e admira. É diferente quando você se apropria dela para se beneficiar, como puro fim estético, para deixar com um aspecto mais “fofo” ou criar uma voz que não é a sua. Eu fico extremamente irritada com isso principalmente porque como artista, a minha cultura certamente é algo em que eu me encontro pessoalmente e artisticamente. Meu povo, minhas raízes, minha casa. Assim como o Brasil. Vocês nunca ficaram irritados em como os gringos enxergam o Brasil com olhos exóticos de “samba, bundas, futebol”? Pois é. Eu fico possessa com os dois casos. E o Meow Café foi exatamente uma referência à cafés que existem no Japão, com gatos e o mesmo tipo de ambientação, além do uniforme e até mesmo a cara da Mirna. Parecia meio uma menina de animê/mangá, pois seus olhos eram diferentes, ela era loira de olhos azuis, mas não tinha aspectos físicos estéticos ocidentais como Cerulean. Se Catharina tivesse deixado claro que a história se passava no Japão, era uma coisa, mas com isso, eu senti que foram fatores incluídos apenas para enfeitar mais a história e embelezar o visual assim como seu toque de aquarela. Eu levantei muitos aspectos positivos e como ela caracterizou bem os personagens principais e desenvolvimento destes, mas apropriação cultural é algo que me irrita e eu não deixo passar.

L.

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