A representatividade assexual em Sirens (e por que ela é tão importante)

Alguns anos atrás, descobri uma série nova no Tumblr. Até então, nada de novo. Boa parte das séries e desenhos que eu assisti nos últimos anos foram recomendações das pessoas que eu seguia no site. Cada uma me chamava a atenção por um motivo diferente, mas o motivo principal acabava sendo, sempre, um grande número de pessoas comentando os últimos episódios e fanarts lindos aparecendo na minha timeline (por que, né, ninguém é de ferro). Mas esse seriado em questão não era assim – pouquíssima gente falava dele e havia pouco material nas buscas. O que foi que me chamou a atenção para Sirens? Uma personagem secundária assexual e como um dos personagens principais lidou com isso depois de perceber que tinha uma quedinha por ela.

Ano passado o Paulo falou sobre assexualidade aqui no blog (o post é esse aqui e está bem completinho, pra quem tiver interesse), mas, só pra recapitular, assexualidade é uma orientação sexual (é o A no final do LGBTQA que, não, não está lá para os aliados) assim como hétero, bi, homo e pan, definida pela falta de atração sexual por outras pessoas. Não é celibato e também não é uma piada engraçadinha sobre comida ou falta de qualquer coisa. É algo válido, real e que pode mexer muito com a cabeça de uma pessoa que não tem muita informação, como qualquer outra orientação. A diferença? Pouquíssimas pessoas falam sobre isso. Eu mesma demorei anos pra descobrir que assexualidade existia e havia mais gente nesse mundão que partilhava disso.

sirens voodoo

Descrição da imagem: Voodoo, do ombro para cima, olha para alguém fora da cena. Seu cabelo loiro está preso em um rabo de cavalo e ela usa o uniforme azul marinho de paramédica.

Imagine a minha surpresa, então, ao ver uma personagem assexual em um seriado de comédia, sendo respeitada por todos e com uma personalidade que ia muito além da sua orientação!! Sirens, na verdade, acompanha um time de paramédicos de Chicago, focando no trio formado por Brian, o cara novo, Johnny, seu novo amigo e Hank, um homem negro gay. Além deles, temos também Cash, um homem negro hétero mais velho, Claire (conhecida como Stats), uma mulher branca que tem transtorno obsessivo compulsivo, e Valentina, a Voodoo, uma mulher branca assexual.

A série tem apenas duas temporadas e um total de 23 episódios de 22 minutos cada (e está na Netflix!!), mas é justamente o sexto episódio da primeira temporada, intitulado “The Finger”, que apresenta a assexualidade de Voodoo. A coisa toda começa com Brian, um dos personagens principais, percebendo que tem uma quedinha em Voodoo depois de uma conversa com ela. Ao contar para seus amigos Johnny e Hank que ele pretende convidá-la para jantar, os dois informam que Voodoo, além de ser meio dark demais pra ele, é assexual.

Descrição da imagem: Um gif em que Hank e Johnny contam a Brian que Voodoo é assexual, o que significa que ela não faz sexo com ninguém.

A série é de comédia, então, óbvio, Brian ficando chocado com a ideia de alguém nunca fazer sexo e seus amigos confirmando é esperada. Um comentário, por parte de Brian, de que “talvez ela não encontrou o cara certo ainda” também acontece. Mas o que faz Sirens ser uma boa introdução a assexualidade é que Brian logo começa a pesquisar sobre o assunto e, amém!, ele respeita a orientação de Voodoo e vai além do esforço de saber mais sobre o assunto, garantindo a mulher que, se ela nunca quiser fazer sexo, tudo bem, porque ele fica feliz apenas de estar perto dela. Não tem escândalo, não tem continuação da ideia de que “ela não encontrou a pessoa certa ainda”, não tem ninguém forçando nada. Voodoo acha engraçado o empenho de Brian em saber mais sobre o assunto e, depois de dizer que fica só na dela e não “participa de eventos ou coisa do tipo”, aceita o interesse dele nela e age com naturalidade a sua volta.

Voodoo não pretende fazer sexo nunca, e isso pode incomodar alguns assexuais que não se veem nesse mesmo contexto (lembra o post do Paulo, que fala que a assexualidade é um espectro?), mas isso é muito mais representação do que a gente encontra por aí. O conceito é apresentado, nomeado e explicado, tudo em um episódio de vinte minutos. Voodoo se sente confortável com quem é, Brian foi de confusão a compreensão e aceitação após suas pesquisas e conversas com a mulher e a ideia de que um relacionamento não precisa necessariamente ser definido por sexo é apresentada e aceitada com tranquilidade.

Descrição da imagem: Voodoo, de costas, usando uma blusa de moletom cinza e calças jeans clara e um rabo de cavalo, ri, olhando para baixo, junto com Brian, que sorri para ela. Brian está de frente para Voodoo e usa o uniforme azul marinho dos paramédicos.

A assexualidade de Voodoo e seu relacionamento com Brian só vão ser mencionados novamente na segunda temporada (que, confesso, não assisti), mas isso não significa que ela foi esquecida. Voodoo continua presente na série, sua personalidade vai muito além de sua orientação sexual e nada disso invalida o que já foi apresentado. Está certo que a representação da assexualidade não é perfeita, uma vez que foca, principalmente, na experiência de Voodoo, sem falar sobre outras experiências ou aprofundar o assunto. Mas ela existe. Está lá. Nomeada e explicada. E isso é muito mais do que muitos livros, filmes e séries fazem. Nada de diretores ou autores soltando “Personagem x é gay” em entrevistas alegando que tal informação não era importante para a trama. A assexualidade de Voodoo é importante, é explicada, mas, também, é só mais uma característica sua. Assim como acontece na vida real. E isso é um ótimo primeiro passo.

Emily
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Graduada em Letras. Ama monstros e cachorros e, principalmente, lobisomens. Puxa o erre, adora parênteses e quase nunca usa o plural direito.
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