A pirataria no mundo literário (e porque ela é muito prejudicial)

Vou começar esse post com uns avisos prévios.

O primeiro aviso é que vai ser longo. Vou incluir estudos/links e afins pra quem quiser se aprofundar no assunto e se jogar. O segundo aviso é que eu não estou aqui pra condenar ninguém – apenas para informar mais sobre o fenômeno da pirataria nos livros, e todas as causas e consequências.

(Sim, vai ser tipo uma tese, então pegue um café, um sanduíche e venha com a gente).

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1. Introdução

Como começar a falar desse tema que mal conheço e já desconsidero pacas?

Pirataria é um negócio bem comum no nosso dia-a-dia. Pode ser que tenha surgido nos anos 1500 e pouco, com os piratas em navios que saqueavam os produtos e trocavam por ouro e afins, mas o princípio da prática ainda é o mesmo – comercializar um produto que não é seu. Nos dias de hoje, pode ser que você não esteja ganhando nada com o tal comércio, mas ainda assim é um comércio ilegal de algo ao qual tecnicamente você não tem direito.

“Ai, Laura,” você diz, “mas TODO MUNDO já baixou filmes e músicas!”. É bem verdade. Até eu dou umas escapadas de vez em quando (me perdoem, filmes pré anos 90), mas não quer dizer que só porque é uma prática comum ela é legal. No sentido de legalidade da lei mesmo. É igual as mães sempre dizem “se fulaninho pular uma ponte, você pula também?”. É o que acontece na pirataria: se é algo que todo mundo faz, se torna comum, e, portanto, fica normalizado e ninguém questiona a ilegitimidade.

Sim, é difícil falar de pirataria porque é impossível dissassociá-la de qualquer produção cultural de hoje. Livros, música, filmes, séries, tudo pode ser encontrado “de graça” na internet. É mais difícil ainda falar de livros porque é uma indústria diferente das outras.

Esse debate todo foi incitado principalmente porque essa semana a autora brasileira Babi Dewet reclamou no twitter da pirataria de livros, e um leitor respondeu que “baixo mesmo, sem problemas”. É interessante ver que na verdade muitas pessoas não param para pensar nas consequências de baixar um livro. É uma coisa tão fácil, né? Só entrar no site e salvar o arquivo. Nem parece que é ilegal nem nada.

É nesse post que vamos analisar um pouco mais sobre como esse comportamento surge, e porque ele também não vai embora – mesmo quando deveria ser mais do que óbvio o quanto a pirataria é prejudicial a todos.

2. O livro como objeto

A primeira coisa que precisamos estabelecer é como vemos o livro em nossa sociedade/cultura. O livro é visto como objeto de luxo, muitas vezes, algo bonito para se ter e colocar na estante.

Não estou dizendo que todo mundo vê assim – mas é quase um reflexo. Se você vai na casa de alguém e ela tem uma estante enorme, automaticamente a pessoa em questão acaba adquirindo um status. Especialmente na sociedade em que vivemos, o livro é sim um objeto de status/poder. Já pensou no preço nos livros? Naquelas capas duras maravilhosas da Cosac Naify? Então.

Agora isso também gera um outro reflexo – o fato de que o livro é um objeto de luxo por ele não ser estritamente necessário para sobrevivência. Enquanto coisas como comida, roupas, escola, etc, são todas parte de coisas que precisamos para sobreviver. Você PRECISA comer. Você PRECISA se vestir. Você não necessariamente precisa de cultura para sobreviver.

Certo, para alguns de nós, ficar sem ler/ver filmes é de certa forma algo que a gente precisa, mas no grande esquema da sociedade, não é não. Então qualquer coleção de livros/CDs/filmes e tal mostra que a pessoa investe em algo que não trará nada para a sobrevivência dela.

Assim, o livro acaba se tornando não só um objeto simples (uma história que a gente quer ler), mas algo que vai muito além disso.

2.1. A cultura do imediatismo (e porque ela gera a pirataria)

Aqui entramos numa parte um pouco mais complexa da coisa. Livros são objeto de luxo, sim, mas ao mesmo tempo são algo ao qual queremos ter acesso. Isso não acontece somente com livros, mas com filmes, séries, músicas, qualquer parte de cultura. Sabe quando todos os seus amigos estão ouvindo o novo álbum da Lorde e você não ouviu nada, e então você sente que está sendo excluído de algo mágico e brilhante e PRECISA remediar isso imediatamente?

Esse desespero/necessidade de se juntar a uma tribo, de pertencer, é algo básico do ser humano. Todo mundo quer participar de alguma coisa, e se todo mundo está falando daquilo, também se quer saber o que é para poder participar junto. É muitas vezes assim que o bom marketing funciona – se todos estão falando sobre o livro, e você está vendo outras pessoas falarem que querem lê-lo, seu subconsciente cria um elo e você também quer participar disso tudo. É como as tribos urbanas e tal – se você é emo, tem que gostar de Simple Plan, amar MCR, etc. Ser leitor também se encaixa dentro desse parâmetro e você quer ler tudo que as outras pessoas estão lendo.

Esse comportamento de querer tudo de imediato se agrava um pouco na era da internet. Antigamente não existia isso porque duh, as pessoas tinham que esperar meses até um livro chegar até elas/ser publicado, ou ver um filme no cinema. Hoje está tudo muito mais fácil, com apenas um clique de distância. Isso alimenta facilmente essa cultura do “precisar” e de ter tudo imediatamente. É claro, muitas pessoas mais velhas vão falar que nossa geração de millenials está acostumada a ter tudo de imediato, etc. Não é disso que estou falando, mas sim da facilidade do acesso para termos coisas realmente ajuda muito nessa parte. Tornou-se mais normal ter tudo com fácil acesso, e isso alimenta a pirataria também – se todos têm um livro, e eu quero lê-lo, mas não tenho dinheiro para comprar, o mais “fácil” seria achá-lo pirateado na internet.

Quando você tem toda essa cultura do imediatistmo, de tudo que tem que acontecer AGORA, isso alimenta bastante a pirataria. A Netflix, por exemplo: por mais barato que seja o acesso, TAMBÉM tem coisas pirateadas. É meio doido, mas é essa coisa do “preciso ler/ver isso agora para me encaixar”. E é uma cultura que não vai parar, porque a indústria necessita do marketing e dessa propaganda boca-a-boca. É óbvio que para a indústria é vantajoso todos termos o hype, querer ter tudo para ontem. É assim que a indústria vai para a frente e algum produto ganha força. Mas é claro que tem o outro lado da moeda – o lado que se a pessoa PRECISA ter esse acesso, ela vai tentar acessar isso de maneiras ilegais.

2.2. A necessidade de “ter” o livro acima de tudo

Aqui entramos um pouco em outra coisa complicada – o livro como um objeto para se TER. É claro, vivemos numa sociedade na base do capitalismo, em que todos nós muitas vezes somos definidos pelas coisas que temos e pelas coisas que compramos.

Na cultura do mundo literário, quanto mais livros você tem, melhor. Todos nós somos culpados de comprar livros que não vamos ler (ou livros que a gente tem e finge que leu para não ficar feio pras visitas), e por mais que as nossas TBR (to be read, em inglês, define a sua lista de livros para serem lidos) seja enorme e esteja destruindo o seu quarto, você ainda tem um certo orgulho de gritar para os amigos “eu tenho trinta livros pra ler na minha estante!”

Esse fenômeno se auto-alimenta. Você gosta de falar quantos livros tem, porque isso é importante para as outras pessoas. E é claro, muitas vezes a pirataria também gira em torno disso – alguns leitores preferem “ter” o PDF do livro pirateado a pedir emprestado da biblioteca ou de um amigo, por exemplo. Claro, é uma parcela pequena, mas ainda está lá. É muito estranho, se pararmos para pensar, porque na verdade você também não “tem” o PDF no sentido mais direto da palavra. Ele não é físico, não serve para exibir. E ainda assim, o pensamento persiste – essa ideia dos livros como algo para se possuir. Vou voltar nessa ideia mais adiante novamente quando falar sobre soluções/combates a pirataria.

3. Estrutura de publicação

Outra coisa que também afeta muito a pirataria no mundo literário é a falta de conhecimento sobre o processo de publicação de um livro. É uma coisa demorada e complicada e que muitas vezes as pessoas acham que se resume somente ao autor do livro. Até mesmo quem publica indie costuma contratar um revisor, um capista e até mesmo um editor, então quando ocorre a pirataria, não é só o trabalho de UM profissional que está sendo desvalorizado, mas de uma cadeia inteira de pessoas.

É claro, tem sempre a pessoa que acha que está sendo “revolucionária” ao piratear o livro. Realmente, talvez os donos das editoras e de outras empresas não estejam precisando tanto assim de dinheiro, mas o fato é que não é apenas uma pessoa afetada, é uma cadeia inteira de profissionais. Então vamos começar falando um pouco mais dessa cadeia, e porque é importante conhecer o processo da criação de um livro.

3.1. A publicação de um livro

O livro começa como um belo bebêzinho na cabeça do autor (daqueles que choram de noite e não te deixam dormir). Um autor pode demorar de seis meses a um ano para escrever uma nova ideia e colocá-la em forma de livro, e depois para editá-la e passar para alguém. Muitas vezes tem um agente literário envolvido, e depois vai para o editor. O trabalho do editor é tornar o livro melhor do que antes – eliminar buracos na trama, pedaços que não fazem sentido, etc. Depois disso também há pessoas que irão atuar na equipe de marketing do livro, o capista, os revisores (que não deixarão passar erros gramaticais), o diagramador, e provavelmente mais uns revisores. Você tá vendo que é uma CARALHADA de gente pra fazer esse livro. E isso aí só na editora.

Depois disso vem a impressão e o papel. Papel é caro e aqui no BR é pago em dólar, então, sim, o produto final vai ser caro. Depois da impressão e da gráfica você tem a distribuição e finalmente as lojas (que tem um lucro de 50% do preço de capa, mais ou menos, para compensar os lugares do estoque e pagar funcionários). O autor normalmente vê cerca de apenas 10% do preço de capa. Num livro de 40 reais, esse preço é quatro reais. Quatro reais por livro, já imaginou? Se não imaginou, vou te dizer: é bem pouco. É por isso que muitos escritores tem que trabalhar durante um dia em um emprego regular e escrever de noite.

“Ai, Laura, mas fazem isso porque GOSTAM”. Verdade. Eu provavelmente não vou parar de escrever porque alguém deixou de comprar meu livro. É uma coisa que eu amo fazer e vou continuar fazendo. Mas não quer dizer que eu não deva ser paga pelo meu trabalho, né? Afinal de contas, olha todas as horas de sono que eu perdi pra parir um bebê fofo que espero que faça meus leitores chorarem.

Mas pensa no trabalho todo que foi pra trazer esse produto inteiro para você. Sabe aquela coisa de “você não rouba uma maçã no mercado, então porque roubaria um livro?”. É exatamente o mesmo esquema. No caso as pessoas só pirateiam os livros porque não têm chance de serem presas. Vai tanta coisa na publicação e para trazer um livro inteiro, e é uma sacanagem enorme com o trabalho de pelo menos umas 12 pessoas.

Esse mito do “trabalhar por amor” tem que ser abolido. É CLARO que escritor trabalha por amor. Ó quanto a galera ganha. É praticamente nada. A única razão de continuar fazendo isso é amor a profissão. Parem de falar que artista tem que trabalhar de graça. É trabalho igual qualquer outro. Você não vai chamar o encanador na sua casa e falar pra ele trabalhar de graça porque “ele tem amor ao esgoto”.

3.2. O livro como produto no mercado

Muita gente ama falar na famosíssima “democratização da cultura”. “Cultura deve ser de graça! É enriquecer o povo!”. Eu concordo com você sim, mas com ressalvas. As ressalvas no caso sendo explorar outro proletário trabalhador (autor) só porque você tá afim. Vivemos num sistema capitalista (como ressaltei ali em cima) e portanto devemos nos adequar as normas. No caso, ter um trabalho e pagar nossas contas. Em um mundo ideal, a cultura seria subsidiada em boa parte pelo governo, que deve oferecer educação e opções ao povo e incentivar a leitura. Não é o que acontece.

Na boa, se isso acontecesse, autor não ia precisar ficar pistola no twitter porque a pirataria é vista como algo normal.

Eu sei, eu TAMBÉM queria que a gente tivesse acesso a cultura mais facilmente, e pudesse ler mais livros sem pagar os olhos da cara!!! Ou ver vários filmes logo depois que saem, e tudo isso aí. Mas você não pode querer começar a sucatear o sistema capitalista por pessoas que estão no mesmo barco que você, saca? Você está afundando o seu barco junto.

Se isso fosse um incentivo real, estaríamos pensando em baixar o custo pra todos, melhorar o acesso a cultura, etc. Isso aí de “democratização da cultura” é sempre às custas do trabalho alheio e é uma desculpa bem esfarrapada. De qualquer maneira, esse elemento cultural do livro pesa muito, porque é a desculpa mais utilizada quando se fala em pirataria de livros. A cultura, como dizem todos, deveria ser algo de graça.

O fato é que cultura não quer dizer a mesma coisa que ter acesso a qualquer material de graça na hora que você tiver vontade. Temos que compreender, acima de tudo, que um livro não é “só” cultura. Ele também é um produto do mercado.

Muita gente não consegue compreender que um livro é algo que tem que ser VENDIDO, como qualquer outra coisa. Precisa de estratégia de marketing, precisa ter uma capa bonita, precisa ter uma boa história. Ela precisa ser comercial ao mesmo tempo em que também pode ser literária. Tem que ter um futuro promissor, porque para as editoras, é um investimento. E você só faz investimento em produto.

Quando você torna o livro (objeto) em algo abstrato como a cultura, e apenas o valoriza nesse aspecto, é impossível compreender a situação como um todo. Vamos pensar assim: o que incentiva um mercado de um produto? Mais compras. Quanto mais livros se compra, mais livros são produzidos, e, portanto, mais livros pra ler. Quando os livros são pirateados, são menos compras, e, assim, um menor incentivo no aspecto do produto.

Não podemos deixar algo tão raso como uma análise que apenas leva em conta o livro como algo cultural, ao invés de ser um produto que está inserido dentro do mercado, e que por sua vez está inserido na sociedade como um todo, permeando por todos os meios.

4. A pirataria

Agora que já estabelecemos as coisas principais – como a realização da produção de um livro e como o livro é visto na nossa sociedade – podemos passar para a parte principal desse post: a pirataria como um todo, como ela surge e como ela se mantém no mundo atual.

4.1. Mito de origem

O mito de origem da pirataria é muito simples: ele acaba sendo gerado nessa ideia da “democratização da cultura”. Em princípio, essa é uma ideia muito boa, se não fosse pelo fato de que quando você pirateia um livro, por exemplo, está roubando o autor de seus ganhos.

A cadeia é bem simples: Você pirateia livros > autor não ganha dinheiro > autor tem que continuar a trabalhar na vida normal > autor escreve menos > menos livros. 

É MUITO simples quando se coloca dessa forma. Há menos livros no mercado do que teriam se não houvesse a pirataria. É claro que como toda forma de entretenimento disponível na internet, isso fica difícil – todos querem ter acesso a tudo, e todo mundo acha que tem direito a ter acesso a tudo.

Tem também outro mito que permeia esse meio da pirataria bastante – no caso, a justificativa do “não ter dinheiro”. Eu sou a primeira pessoa a concordar que essa é uma justificativa bem válida pra MUITA coisa na vida. É por isso que muitas vezes a gente acaba caindo nessa vida da pirataria – você quer muito uma coisa, não tem os meios, a internet tá lá por você. É tão fácil que você até esquece que é pirateado. Contudo, há outros meios de acesso que não a pirataria em si. Há bibliotecas, o domínio público, pedir emprestado, etc. Não ter dinheiro é uma justificativa? É. Faz com que a pirataria torne-se um meio correto? Não.

Isso também afeta quando a pirataria é de um livro em inglês. Eu mesma justificava com “é muito caro, não tenho dinheiro”, mas já vem de um privilégio gigantesco que era o fato de eu SABER ler em inglês. Se eu consigo ler livros inteiros em inglês é porque eu já tenho privilégio o suficiente para saber ler em outra língua. Pode ser que pessoalmente eu não tenha acesso ao dinheiro, mas eu não sou exatamente “pobre”.

Outro mito de origem também é a chamada “Democratização da Cultura”, da qual já falei ali em cima. Muita gente usa isso como uma desculpa, mas nota-se o seguinte:  o material geralmente pirateado são coisas novas, coisas que acabaram de sair no mercado. A pirataria é justificada como “democratização”, sendo que temos acesso a bancos enormes como o domínio público, que conta com mais de 1500 obras, inteiramente de graça. Se houvesse um argumento real a favor da democratização – como subsídios do governo, aumento de bibliotecas e dos acervos, incentivo das editoras para trazer mais coisas – seria inclusive muito justo, mas a democratização no caso é usada para justificar a pirataria de conteúdo novo para se consumir.

A pirataria é sim um assunto que precisa ser debatido levando em consideração diferentes realidades, mas nem por isso devemos justificá-la e dizer que é aceitável o que acontece nos dias de hoje.

4.2. A cadeia de consequências

Depois de destruir alguns mitos que tentam justificar a pirataria, vou falar um pouquinho da cadeia de consequências de piratear. Assim, para a pessoa que pirateia, é muito difícil haver alguma consequência (no máximo um vírus escondido quando você baixa um PDF), mas como não vivemos isolados, cada uma dessas ações pode chegar em consequências maiores no clássico efeito bola de neve.

4.2.1. Pirataria no mundo literário

É aí que a gente entra numa sessão mais complicada dessa história toda. Levantaram no twitter a diferença entre cópia e roubo (uma cópia baixada É necessariamente uma cópia não comprada? Até onde vão os direitos autorais? etc). Tudo bem, pode ser que quem baixe não compre depois o livro, ou nem tinha intenção de comprar em primeiro lugar. Pode ser que a pessoa só queira saber se o livro é bom antes de investir o dinheiro em uma cópia física real. Todos esses motivos podem ser “razoáveis” porém não justificam o resultado final: um livro que foi pirateado e está sendo distribuído por aí sem autorização.

A questão literária, principalmente, é mais complicada do que no mundo da música e dos filmes, por exemplo. Tanto na música quanto na indústria de cinema/TV temos uma distribuição maior e convenhamos: uma parcela MUITO maior da população vê TV e ouve música do que lê livros. “Mas, Laura,”, você grita, desesperado, querendo chegar ao fim desse texto enorme que mais parece um TCC, “se mais pessoas escutam música e veem TV, não quer dizer que o prejuízo dessas pessoas é maior?”

Sim e não. É um prejuízo maior, sim, em questão de dinheiro. Agora proporcionalmente, nem tanto. Atores fazem festivais, são pagos pelo trabalho individualmente, sem % sobre o filme (no geral). Quem ganha na indústria de TV/filmes são as produtoras. Temos também a questão da distribuição – filmes são distribuídos no cinema, vendidos para a TV, para a Netflix, e tem o release digital e o DVD, fora o possível merchandising. Com a música funciona assim também – os artistas e bandas fazem show, e, apesar de vender as cópias do CD e termos disponíveis músicas para comprar no iTunes, uma enorme parte da renda se deve exclusivamente a shows e aparições, e vender direitos pra rádio, Spotify, etc.

Nós não temos esse tipo de opções para livros, por exemplo. O Kindle Unlimited é a opção mais próxima que temos de uma “Netflix de livros” e, no entanto, não temos o mesmo enorme conteúdo disponível no banco de dados deles, principalmente em questão de lançamentos. Temos as bibliotecas, é claro, porém nem todas elas tem conteúdo o suficiente, principalmente aqui no Brasil. Então qualquer prejuízo que se dê na indústria vai diretamente para as pessoas que criaram o produto – a editora e, principalmente, os autores.

Autor geralmente não é pago pra fazer evento (ou é uma quantia simbólica), e tudo é visto como divulgação do trabalho. Post no blog? Divulgar trabalho. Entrevista? Divulgar trabalho. Vídeo no YouTube? Divulgar trabalho. Autor tem que penar e muito, e jamais vai se igualar ao dinheiro que se ganha na indústria de filmes e música. Em primeiro lugar, porque menos gente compra livros, em segundo lugar, porque os livros são a ÚNICA forma do autor ter renda.

É por isso que a pirataria no mundo literário é como dar um tiro no próprio pé. Infelizmente, não temos uma indústria que produz quantias enormes de livros bons para lermos, nem tão diversificados assim. Cada livro é um esforço e deve ser visto como tal. A indústria de livros, no geral, ainda não consegue se sustentar o suficiente para justificar produzir uma grande quantidade de livros.

Apesar de a porcentagem de “quanto mais se pirateia, menos se vende” ser irreal e mostrar uma falta de estudo, a pirataria afeta sim a indústria como um todo.

4.2.2. O mito do bestseller

Outra coisa que se ouve muito quando se fala em pirataria no mundo literário é o famoso “eu só baixo bestseller, não faz diferença para o autor”. Pode ser bem verdade. Duvido que o Dan Brown e a JK Rowling estejam precisando de grana (e se estiver, JK Rowling pode simplesmente mandar a coluna semanal dela no twitter, o JK Rowling Revela™ e tudo está resolvido), mas deixa eu fazer um adendo: são estes bestsellers que pagam as contas da editora.

Sabe aquele livro pequenininho, que quase ninguém ouviu falar, mas você ama de paixão? Então, algum editor também amou. E porque os bestsellers da editora continuavam mandando grana, eles puderam pegar uma parcela do dinheiro e fazer esse outro projeto diferentão. Porque vocês acham que aqui no Brasil se publica tanto livro de youtuber? PORQUE VENDE. E quanto mais cópias venderem, melhor, porque conseguem pagar os livros que estão dando prejuízo para a editora. Conseguimos os livros da Donna Tart ou de autores mais indies na Companhia das Letras porque graças aos céus o livro da Kéfera vende a rodo. E tomara que continue assim, honestamente.

Então, quando você pirateia um bestseller, pode até ser que não afete o autor – mas afeta a cadeia de produção, que poderia gerar mais livros com esse dinheiro. Então sim, pirataria do bestseller da editora prejudica também, por mais que seja num nível diferente.

4.2.3. A pirataria no mercado brasileiro

A pirataria, como um todo, mais afeta o autor dos livros que qualquer outra pessoa. É claro que há consequências para as editoras e para a linha de produção e as livrarias, mas o autor é quem sempre sai mais prejudicado dessa história. Já se ganha pouco em cima do livro, dum livro pirateado não se ganha absolutamente nada.

Sem mencionar como pode haver cancelamentos de série se os primeiros volumes não venderem, diminuição de contrato, etc. Um bom autor ajuda a editora a lucrar – e se a editora está lucrando, ela investe de volta no autor. É um círculo que fecha a linha de produção. Se o autor parar de lucrar, a editora não vai querer investir, e daí teremos menos livros.

Nos EUA, há muitas maneiras razoáveis de conseguir livros – preços mais acessíveis, bibliotecas que são subsidiadas pelo governo, membros da biblioteca, etc. Sem falar que a indústria de livros é muito maior, vende mais, etc. Um autor americano consegue lucrar não só nas vendas nos EUA como também as vendas internacionais. Você entende onde eu vou chegar com isso, né?

A indústria brasileira de livros é muito mais frágil que a dos EUA. As editoras são menores, o espaço no mercado é menor, e, no geral, o brasileiro médio não lê o bastante para carregar essa indústria sozinho. Devagar, isso vem mudando, mas ainda está muito cedo para declarar que os livros estão todos salvos. Pelo fato de não haver tantas bibliotecas nem a leitura ser algo incentivado, o mercado brasileiro atua num nicho muito específico de leitores. Tudo bem, as estatísticas apontam que 56% dos brasileiros leem. Mas essa porcentagem é pra quem leu UM livro nos últimos três meses. Isso ainda é bem pouco, considerando que a pesquisa pode ser que você tenha lido só um gibi, rs.

Enfim, quando você, uma pessoa que lê muito, pirateia um livro, você é um dos poucos compradores efetivos do mercado e boicota a indústria da qual você está se alimentando. Não estou dizendo que você é obrigado a comprar livros. Estou apenas dizendo que há outros meios sem piratear de pegar livros. A indústria já é frágil com a pequena porcentagem de brasileiros que a sustenta, então se a pirataria tornar-se a prática mais comum de se obter livros, a coisa vai por água abaixo.

Pior ainda se o autor for brasileiro. Autor brasileiro não vende fora. Autor brasileiro vende só aqui, exclusivamente aqui, e ainda precisa superar o preconceito de “brasileiro não escreve bem”. Temos autores maravilhosos na cena nacional hoje em dia, cujo trabalho é desvalorizado muitas vezes pelo fato de serem brasileiros  – “ah, vou baixar esse livro, porque é brasileiro, então não deve ser muito bom”. Essa noção é completamente idiota. Há escritores americanos muito ruins que são traduzidos e ainda viram bestsellers. Não é só poque o autor é americano que ele é bom, ok?

Os autores brasileiros geralmente ganham menos no preço de capa, e também a divulgação é menor (por falta de recurso). Piratear um livro brasileiro é o CÚMULO do cúmulo, porque normalmente são mais baratos que os estrangeiros, e ainda por cima você incentiva a produção nacional. Incentivar a produção nacional barateia o custo dos livros, pessoas compram mais livros, livros ficam mais baratos, há mais livros disponíveis no mercado. É uma cadeia de acontecimentos bem simples.

O escritor brasileiro não consegue viver de escrita a não ser que seja muito sortudo mesmo. É o trabalho que ele faz com amor que você vê por aí, jogado na internet e sem valor. Se valorizarmos os livros produzidos no Brasil, iremos expandir mais o mercado e permitir que haja mais coisas para comprar. Todo leitor quer mais livros. Se você compra mais livros, há mais chances de que mais livros serão produzidos. Todo mundo sai feliz.

Resumo: NÃO PIRATEIE LIVROS DE ESCRITORES BRASILEIROS DE JEITO NENHUM. Não pirateie nenhum livro, mas muito menos de escritor BR.

5. E agora, José?

Eu falei praticamente cinco mil palavras sobre os motivos de a pirataria ser uma coisa que não dá pra justificar, e procurei também trazer os motivos do porquê ela ocorrer. É uma questão bem complexa, que tentei retratar de vários ângulos diferentes para tentarmos compreender esse fenômeno. No entanto, não seria um bom post se eu não oferecesse soluções e alternativas.

Sei que parece um cenário maluco demais, e todos nós sabemos que a pirataria não vai acabar do dia pra noite. Na era das internets, qualquer coisa pode ser passada para a frente, e isso é bem normalizado. Não existe algo que possamos fazer para ENCERRAR a pirataria de vez. A pirataria virou algo metafísico, inalcançável. Não é igual caçar piratas como os espanhóis nos anos 1600 (no caso, botar fogo nos navios e nos piratas).

No entanto, há sim coisas que podemos fazer no dia a dia.

“Quero ler um livro, mas não posso comprar!”

  • Veja se o livro está disponível no sebo em algum lugar. Sebos costumam ser bem baratinhos, e há muitos livros disponíveis. Tente a Estante Virtual.
  • Entre em grupos do FB especializados em trocas de livros. Sempre há algo interessante por lá para se trocar. O twitter também é bem interessante (eu sempre troco livros por lá).
  • Vá até a biblioteca. Aqui tem um mapa de todas as bibliotecas do Brasil para você poder acessar.
  • “Ah, mas quero um livro em inglês!”. A Cultura Inglesa tem uma biblioteca própria com um acervo muito bom. Custa 60 reais POR ANO para você ficar sócio e poder pegar quantos livros você quiser.
  • Combine com seus amigos de comprarem séries juntos, por exemplo. Assim cada um compra um exemplar e todo mundo pode ler.
  • O Skoob também tem um ótimo sistema de troca de livros para os usuários.
  • A Amazon tem promoções ótimas, principalmente no Kindle. Já paguei 3 reais em vários livros. 3 reais é menos que uma passagem de ônibus. Eu sempre anuncio no twitter quando um livro que eu gostei está em promoção. Não precisa ter kindle pra ler – o aplicativo de leitura pode ser baixado no seu celular ou no seu computador.
  • Kindle Unlimited. Por $19,90 ao mês, você consegue ler vários livros. É como a Netflix – o catálogo muda sempre e sempre há opções novas (principalmente de autores independentes brasilerios).
  • Há livros de graça nas plataformas como o Netgalley e o Edelweiss, por exemplo. Tem muitos ARCs (advanced reader’s copy), e você pode lê-los em troca de uma resenha sincera. Você normalmente precisa ser aprovado pela editora, mas não é difícil se você prometer resenhas regulares.
  • EMPRESTE LIVROS DE AMIGOS E COLEGAS. É muito simples! Eu sei que muita gente fica com xodó de livro, e é a coisa mais estúpida do mundo. Livro é pra ser compartilhado. Não tem graça ler sozinho. Divida os seus com os amigos, e eles dividirão os deles com você.
  • Leia coisas no Wattpad. Tem muitos autores publicando coisas independentemente por lá, e é sempre legal incentivar um autor novo que resolveu fazer sua plataforma por lá.
  • O Domínio Público tem uma lista ENORME de obras pra você ler a vontade. Todos os clássicos estão disponíveis para leitura.

E se você quer também incentivar a acabarmos a pirataria, aqui há algumas atitudes para você fazer, como pessoa:

  • Doe livros. Desapegue-se dessa ideia maluca de que você PRECISA ter um monte de livros na sua biblioteca. É legal ter livros? Sim, é bacana. Eu tenho um monte. Agora todo ano eu faço uma limpeza nos que não foram meus favoritos, e eu doo/vendo. O valor de venda as vezes é cinco reais. É pra ser simbólico mesmo.
  • Divulgue ofertas nas suas redes sociais. Quando tem promo dum livro da Amazon que eu amo, eu sempre tuíto sobre ele e divulgo para as outras pessoas poderem ler também.
  • Empreste seu livro para amigos e colegas. Emprestar não dói absolutamente nada, e você pode compartilhar seu amor por livros com os amigos também.
  • Fique sócio de uma biblioteca ou doe livros pra biblioteca, se puder. É meio burocrático, sim, mas vale a pena!
  • Converse com seus amigos sobre pirataria. Esse tópico parece aquele aviso amigável anti-drogas, mas isso é bem real. Muita gente pirateia/baixa livros porque não sabe as consequências. Se você tiver informações, repasse adiante. Explique. Mande esse textão gigante pras pessoas lerem.

Essas são apenas algumas sugestões que você pode fazer. Você vai heroicamente ENCERRAR a pirataria? Não. Algum dia a pirataria vai acabar? Não também. Porém, você está fazendo sua parte, e eu a minha, para continuar viva essa coisa de ler livros.

Eu posso não gostar da estrutura da indústria, porém, é ela que produz meu passatempo favorito: ler livros.

6. Conclusões

Depois desse texto enorme, podemos chegar a algumas conclusões, a principal delas sendo:

  • NÃO
  • PIRATEIE
  • LIVROS
  • PORRA!!!!

Era só mais um aviso mesmo. Mas depois de desmantelar todas as desculpas e explicar os fenômenos, espero que tenha ajudado todo mundo a entender o porque a pirataria prejudica tanto o mundo literário.

As editoras são corporativas que só pensam em dinheiro? Até certo ponto, sim. Qualquer empresa precisa pensar no dinheiro se quer sobreviver no mercado. Os livros que elas vendem são o produto, e o livro é comercializado – ele deixa de ser estritamente “cultura” para ser produto. Quando uma editora decide parar de publicar uma série, é porque ela não quer levar prejuízo. Mas sinceridade, a maioria das editoras está levando bastante prejuízo sempre.

Você está destruindo o capitalismo pirateando livros? Não também.

Não há justificativa para a pirataria. Não há e pronto. Você pode até fazer, mas não ganha absolutamente nada com isso. Não está democratizando cultura nem nada. Pode até ser que pessoas que não teriam o acesso possam ter através da pirataria, mas em 90% das vezes, não leva a nada. Não há justificativa. Não se ache “esperto” por piratear livros.

No fim, quem mais sai prejudicado é sempre o autor, quem teve o trabalho de parir o livro em primeiro lugar. Ele, mais do que todos, merece ser pago pelo enorme trabalho que teve (mesmo fazendo a gente chorar de vez em quando). Já pensou como seria um mundo sem livros? Eu não queria viver num lugar desses.

Temos que parar de pedir para que autores se justifiquem e implorem para serem pagos pelo seu trabalho. Quando um autor defende seu direito de receber pelo que escreveu, ele apenas está pedindo o mínimo. Mais nada.

Aqui vai outra verdade: os escritores nunca, nunca estão contra seus leitores. Muitos preferem que você baixe sim livros ao invés de ficar sem ler. Juro que a gente entende. Mas também queremos defender o direito de ser pago pelos nossos esforços, e que isso não deveria ser tomado como absurdo.

Eu não vou impedir pessoas de piratearem livros. Eu não posso impedir isso sozinha. Mas posso convencer você a entender um pouco mais do assunto, e então tomar uma decisão mais iluminada sobre tudo isso.

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Piratas eu só quero mesmo na ficção, de preferência com espadas e sereias. Pirataria de livros? Tô fora, pego meu papagaio e vou embora.

Laura
meus textos | twitter | goodreads | pinterestEscritora com um sonho distante de ter um diploma de faculdade. Fã de Hamilton e Star Wars. Lê muito e dorme pouco. Loka de muitas coisas.
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