Burning Girls: uma novela sobre folclore, história e sororidade

A primeira coisa que me chamou atenção sobre Burning Girls foi a sua capa. Eu estava olhando a loja Kindle da Amazon brasileira e fiquei encantada com a ilustração. Uma mulher em chamas no céu. Fui procurar mais sobre a obra e além de ser cativada por uma das sinopses mais intrigantes que já li, também descobri que a novela foi finalista do Prêmio Nebula e venceu o Prêmio Shirley Jackson. Além disso, a linda ilustração que primeiro me atraiu foi feita por Anna e Elena Albusso, responsáveis pela maravilhosa capa da nova edição d’O Conto da Aia.

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[Descrição da imagem: no centro podemos ver um Kindle mostrando uma capa em que se é possível ver uma mulher pegando fogo, que parece andar no céu, ao fundo vemos prédios altos e uma fábrica soltando uma fumaça escura. Escrito sobre a imagem está o título da obra “Burning Girls” e o nome de sua autora, Veronica Schanoes.]

Com tantos pontos a favor eu me senti na obrigação de devorar essa novela escrita por Veronica Shanoes, e garanto que se você der uma chance à obra também não vai conseguir parar até chegar na sua última página.

Burning Girls se passa na Polônia do final do século XIX e mistura em sua narrativa fatos históricos com fantasia. A novela acompanha Deborah, uma jovem judia que desde muito nova foi treinada por sua vó para se tornar uma curandeira, uma bruxa. A avó de Deborah é a zegorin de sua vila, o que significa que ela ajuda mulheres com problemas que elas não podem compartilhar com mais ninguém.

A garota passa as suas férias na vila da avó aprendendo a fazer amuletos, caldos e unguentos, estudando Deus e os seus anjos e assim libertando o poder que ela tem dentro de si para ajudar os outros. Enquanto Deborah estuda, sua mãe, seu pai e sua irmã mais nova, Shayna, trabalham na cidade, em Bialystok. A distância entre a família e o fato dela ter sido a única a herdar os poderes da avó fazem com que Deborah se sinta uma estranha dentro da própria casa, e faz com que ela tenha ciúmes da irmã, que divide o ofício de costureira com a mãe.

Os estudos de Deborah fazem com que ela descubra que demônios andam entre os humanos, apenas esperando o momento certo para usá-los e enganá-los. E conforme os anos vão avançando e o sentimento antissemita crescendo não são apenas com demônios que Deborah tem que se preocupar; os pogrons (ataques violentos em massa contra judeus e outras minorias étnicas da Europa) se tornam cada vez mais frequentes e sobreviver se torna cada vez mais difícil.

Esse misto entre acontecimentos reais e o folclore judaico é um dos destaques da obra. A autora Veronica Schanoes ambientou cada acontecimento de uma forma tão palpável, que mesmo após terminar a novela a imagem de Bialystok continua viva em minha mente. Os pogrons são descritos de uma forma que o leitor consegue absorver o horror daquela situação, mas a descrição nunca é gráfica, o que eu considero um ponto positivo.

E horror é algo que não falta em Burning Girls, seja com a constante ameaça de pogrom ou de um demônio à espreita, o tom sombrio da obra vai até a última frase que continua te assombrando horas e horas após ter sido lida. Por isso, aconselho cuidado, não é uma história fácil de ser digerida. Muito pelo contrário. Isso que a torna tão incrível.

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[Descrição da imagem: no Kindle, vemos uma frase em foco “na América, eles não te deixam queimar. A minha mãe me disse.”]

Mas também há espaço para luz em Burning Girls e vemos isso o tempo todo, mesmo nos momentos mais pesados, através de Deborah e da sua relação com Shayna, mas principalmente através dos ensinamentos passados por sua avó e que ela tenta por em prática com as mulheres que ajuda.

Desde muito nova Deborah aprendeu que tem poder dentro de si, que é diferente das outras pessoas — e isso ao mesmo tempo que a ressente, por torná-la diferente de sua família, também a deixa arrogante pois ela se sente especial e muitas vezes mais sábia do que os outros. Essas características da personalidade de Deborah são trabalhadas durante toda a novela, sendo em muitos momentos a causa de certos acontecimentos, o que também confere a história um caráter de fábula, já que existem lições de moral impregnadas na narrativa; às vezes sutis, outras nem tanto, mas elas estão lá.

Apesar da fantasia e da carga histórica, Burning Girls é primeiramente uma história sobre sororidade. O que Deborah faz, e sua avó também, é ajudar mulheres, especialmente aquelas que não têm a quem recorrer. E é por isso que sempre vemos relances do ressentimento e da arrogância de Deborah, pois quando se está na posição dela, esses sentimentos não têm espaço, eles precisam ser colocados de lado para a empatia florescer.

Outro ponto que merece destaque é que Veronica Shanoes, autora da novela, também é judia — inclusive ela escreveu uma dissertação maravilhosa sobre as implicações de ser judia. Vale a pena conferir. É sempre legal encontrar uma história ownvoices, ainda mais quando ela está repleta das coisas incríveis que comentei acima.

E pra facilitar a vida de todo mundo, Burning Girls está por apenas R$2,84 na Amazon então o que você está esperando para correr lá e comprar logo?! Depois não esquece de voltar aqui e contar pra gente o que você achou dessa novela com folclore judaico, história, sororidade e tudo que há de bom (e mau, nesse caso) no mundo.

Rebeca de Arruda
meus textos | twitter | goodreads
Social Media, graduada em Jornalismo, entusiasta do k-pop e doramas. Lê livros demais, vê séries demais e uns filminhos também. Vive para problematizar (e amar) a cultura pop — e também para enaltecer The Shannara Chronicles!
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