Pavê de Vó: Matilda

 

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[Descrição da Imagem: cena de Matilda, com a clássica fita vermelha na cabeça, encarando a sua frente.]

Quem nunca assistiu ou ouviu falar de Matilda? Esse grande clássico da Sessão da Tarde. Não só isso, como um grande clássico da literatura infanto-juvenil, obra de Roald Dahl; autor conhecido por títulos famosos como Charlie e A Fábrica de Chocolate, O Fantástico Sr. Raposo, James e o Pêssego Gigante e muitas outras mais. Além do famoso longa metragem de 1996, a história de Matilda também se tornou um musical.

Hoje no entanto, venho falar exclusivamente do filme. Apesar de Matilda ser um clássico da literatura eu não sabia da existência do livro na minha infância, só muitos anos depois descobri que a história que tanto adorava era inicialmente, um livro. Pelo que vi, a adaptação é bem fiel à história original, mas ainda pretendo voltar aqui um dia e falar sobre a obra original tintim por tintim.

Enfim. Matilda. Há aqueles que adoram esse filme e há aqueles que detestam – ou simplesmente não se importam. Dos que gostam, muitos lembram com um quentinho no coração da pequena Matilda que adora ler. Mas a história é muito mais do que a paixão pelos livros da pequena protagonista.

Não vou negar no entanto, que ver uma protagonista que gostava de ler e se encontrava nos livros, passava horas na biblioteca, não trouxe um calorzinho no meu coração porque trouxe sim. Como a Matilda, eu também perambulava a biblioteca sozinha e devorava um livro após o outro, voltando todos os dias para ter a companhia dos livros, navegando por diversas histórias e aventuras. Os livros deram a Matilda uma mensagem de conforto e esperança: você não está sozinha. E a sensação maravilhosa de se perder em histórias, viajar por diversos lugares sem sair do lugar, conhecer e fazer novos amigos, é uma sensação que só aqueles que amam ler sabem bem como é.

 

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[Descrição da Imagem: Última cena do filme com os pais de Matilda, o pai de Matilda à esquerda, de chapéu, paletó e gravata, Matilda ao centro encarando sua mãe, e a mãe de Matilda à direita, encarando a filha.]

Mas a questão é que Matilda precisava desse acolhimento e conforto nos livros, porque ela não tinha em casa. O espaço que tecnicamente deveria ser um ninho cheio de carinho, conforto, acolhimento e seguro, era totalmente o oposto: negligente e abusivo.

Bom, se você nunca assistiu e nunca leu Matilda, vou avisar que vai ter alguns SPOILERS nesse post, porém também aviso que são temas importantes e se você não conhece a história, talvez vale a pena conferir mesmo assim e quem sabe eu não te convenço a assistir (ou reassistir) esse clássico?

Obras infanto-juvenis que não totalmente um conto de fadas às vezes (ou muitas) não são tão bem recebidas. Roald Dahl recebeu muitas críticas e honestamente, até hoje ainda é possível ver pessoas comentando mal de histórias com protagonistas crianças que passam por problemas relacionados à violência, dor, algum tipo de sofrimento e uma série de outras desventuras. Antes de vir aqui escrever esse post eu vi resenhas de pais falando o quanto esse filme é ruim e violento, nada apropriado para crianças. E o quanto é horrível especialmente a pauta dos pais. O modo como eles são retratados e péssimos com a Matilda.

Bom, é feio mesmo. Não tem nada de bonito não só na forma que a suposta família trata Matilda mas como também o que ela passa na escola. Porém, o filme faz isso de uma forma muito boa, expondo todos os momentos de terror que Matilda passa de forma bem visualmente marcante, sem deixar de subestimar a protagonista e ainda ter uns toques cheio de alma na produção.

Começamos o filme conhecendo a família de Matilda, desde que ela nasceu, seus pais não ligavam para ela. Muitas vezes era até mesmo deixada sozinha em casa, mesmo com apenas 2 anos. Nisso ela aprendeu a se virar, aprendeu a ler e gostava de passar seu tempo mergulhada nos livros, aqueles que a acolhiam de verdade. O pai, um vigarista, vendia carros usados e caindo aos pedaços, muitas vezes com peças roubadas, por um preço absurdo e a mãe, passava seu tempo no bingo ou ao telefone. Além disso Matilda também tinha um irmão mais velho, que já estava sendo encaminhado para aprender os negócios da família e trilhar os mesmos passos sujos que o pai.

 

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[Descrição da Imagem: Em destaque, a diretora Trunchbull, ao fundo a sala de aula da turma de Matilda, onde há alguns alunos, Matilda em pé e a Srta. Honey ao seu lado.]

Não era só ignorarem a sua existência, como Matilda era constantemente lembrada que não sabia de nada, burra, constantemente subestimada, além de sempre receber inúmeros gritos, ameaças de espancamento e em nenhum momento, mesmo que pequeno, recebeu algum tipo de afeto. A história começa a mudar, quando ela começa a frequentar a escola.

Se em casa Matilda se sentia perdida e sem segurança nenhuma, na escola não parecia existir nenhuma perspectiva de um ambiente melhor. A diretora Trunchbull era o terror em pessoa. Não só tem o regime extremamente rigoroso, mas totalmente bruto e desumano. Violência física era sua resposta para as crianças as quais julgava que eram merecedoras de punição. Por ter sido atleta, levantamento e arremeso de peso com alunos era sua atividade mais frequente. Também fazer um menino comer um bolo gigantesco contra a vontade dele, obviamente tentando fazê-lo vomitar. Isso quando ela não levava eles ao sufoco. 

Matilda não via a hora de ir para a escola e aprender, e apesar da diretora terrível, sua professora era maravilhosa. A Srta. Honey era uma jovem professora amável, gentil, que se importa com cada um dos seus alunos, aceitando os pelas suas diferenças (e não os punindo por elas), mas ela tinha um segredo obscuro. E voltarei nesse ponto mais adiante.

Depois uma série de acontecimentos, inicialmente envolvendo os gritos de seu pai, Matilda descobre que ela tem poderes. Isso mesmo, por meio da telecinese ela conseguia mover qualquer coisa e depois de muita prática – ao som da música Little Bitty Pretty One – ela consegue expandir e dominar suas habilidades completamente, conseguindo mover desde um objeto até mesmo uma pessoa. E é esse o ponto que conduz todo o resto da narrativa, com reviravoltas e novas perspectivas.

Mesmo em casa, em um ambiente nocivo e hostil, Matilda revidava as atitudes de sua família, como não só a tratavam, mas o negócio de venda de carros sujos de seu pai, com trocadilhos como supercola no chapéu de seu pai, água oxigenada na loção para crescimento de cabelo e assim vai. Com a descoberta da telecinese ela não só continuou a fazer tudo isso de forma inteligente, mas com planos estratégicos mais sólidos também. Não há explicação do porque ou como Matilda conseguiu os poderes, porém uma coisa é certa: era essa a sua forma de sobrevivência em ambientes tão hostils e violentos.

 

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[Descrição da Imagem: Srta. Honey está na sua mesa de professora na sala de aula, uma lousa atrás, Matilda à direita sorrindo para a frente, fazendo o jarro de água levitar, enquanto Srta Honey olha impressionada.]

Voltando à Srta. Honey, na primeira aula de Matilda, Jennifer Honey ficou fascinada com a inteligência da pequena e particulamente, na matemática. Ela foi falar para a diretora Trunchbull o quanto a menina era inteligente e que talvez deveria até ir para uma turma mais avançada, porém a diretora interpretou como que a professora quisesse se livrar de Matilda. Não sendo ouvida, ela foi na casa dos pais de Matilda para falar o quanto a filha deles é avançada e que com algumas aulas particulares, Matilda estaria até mesmo pronta para a faculdade dali não muito tempo. Claro, novamente, não foi levada a sério. Inclusive o pai de Matilda disse que faculdade é bobagem (afinal, ele mesmo despedaçou um livro de Moby Dick que Matilda lia porque ela não queria assistir à TV) e a família estava incomodada pela professora ter atrapalhado a hora de assistir à televisão.

A Srta. Honey percebeu então, o que Matilda passava e sabendo da paixão da garotinha por livros, deixou um para ela ler, e foi embora. Apesar de ter sido negligenciada, a professora não deixou de notar e prestar atenção na sua aluna (favorita, eu arriscaria dizer). Certo dia, ela convidou Matilda para ir tomar chá na casa dela depois da aula e aproveitou para contar uma história.

A caminho da casa da Srta. Honey, elas passaram pela casa que a diretora Trunchbull morava e então Matilda percebeu que havia um balanço junto a um tronco de uma árvore. Por que haveria um balanço no quintal da casa da diretora que odiava crianças? Afinal, Ágatha Trunchbull mesma disse que ela sempre odiou crianças e inclusive, nunca foi uma. A Srta. Honey então contou que uns anos atrás, uma menina morava ali com sua mãe e seu pai. A mãe adoeceu e faleceu, o pai precisava cuidar dos negócios, então precisou chamar alguém para ajudar a cuidar da menina. E não foi qualquer alguém, foi justamente a diretora Trunchbull, meia irmã da mãe da garotinha. As cenas dessas passagens são bem sutis mas só de ver a Truchbull colocando a mão no ombro da menina e lembrar de todo o histórico de violência dela na escola, é claro que fica óbvio o quanto a menina sofreu psicologicamente e fisicamente nas mãos de Trunchbull.

Para piorar, o pai da menina faleceu misteriosamente, a polícia alegou suicídio, apesar de parecer muito suspeito e todas as pistas apontarem para Ágatha. A Srta. Honey termina a história com um pouco de esperança, dizendo que a menina cresceu e conseguiu um pouco de indepedência, saiu da casa da tia malvada e alugou um chalézinho onde vivia com um pouco mais de paz. Até que Jennifer Honey e Matilda chegam na casa da Srta. Honey e Matilda se depara com um chalézinho, cheio de madresilvas e uma aparência acolhedora, igual à história que acabara de ouvir. Ela se dá conta então que a menina da história é sua própria professora e isso quer dizer que ela sofreu diariamente por muitos anos na mão da Trunchbull, não só na escola mas em casa.

 

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[Descrição da Imagem: Srta. Honey e Matilda se divertindo com uma máquina de costura em uma das cenas finais, morando juntas na casa de direito da Srta. Honey, que era de seu pai.]

A Srta. Honey se viu na Matilda quando ela visitou a casa da pequena e viu como a família a tratava, especialmente os adultos. E isso é uma das melhores coisas dessa história. Muita gente fala sobre a paixão da Matilda de ler livros e dos poderes dela, mas acho que o verdadeiro ponto é o vínculo que ela cria com a Srta. Honey. Não só isso, são duas persogens femininas que sofreram com abuso domiciliar e não tinham nenhuma perspectiva de amor e segurança, uma família que cuidassem e amassem elas. Ambas sobreviventes da mesma situação e ambas perdidas e sozinhas criam um vínculo grande e ajudam uma à outra.

No decorrer do filme acontece muita coisa envolvendo acontecimentos na escola e na casa da Matilda, não vou ficar transcrevendo o filme inteiro aqui, mas basicamente depois da hora do chá no chalé da Srta. Honey, Matilda sugeriu elas irem na casa de Trunchbull, afinal, a diretora não estava ali, e recuperar os tesouros da Srta. Honey que ela deixara quando se mudou dali – sua boneca Alice e os chocolates de seu pai. Nisso elas não conseguem recuperar os tesouros, mas quase não saem com vida quando Trunchbull volta para a casa e descobre que tem alguém lá e quer pegar os intrusos a qualquer custo. Essa parte é definitivamente a mais angustiante do filme, mesmo reassistindo ainda fico nervosa, as cenas são ótimas, segurando o terror da Trunchbull achar as duas e o suspense em se elas conseguiam se esconder e escapar a tempo. (P.S: Elas conseguem escapar.)

E depois da protagonista desenvolver e dominar totalmente seus poderes telepáticos, ela bola um plano para recuperar a boneca e alguns chocolates e devolver os items para sua professora, sem entrar na casa. Além disso ela aterroriza psicologamente Ágatha Trunchbull fazendo diversos objetos se moverem, mudando o horário do relógio, queimando o retrato pintado da mesma e trocando pelo retrato de Magnus, o pai de Jennifer Honey, enlouquecendo a diretora supersticiosa. O que Matilda não percebeu foi que ela deixou um rastro: sua fita vermelha. É claro que no dia seguinte, a diretora quer descobrir quem invadiu a casa dela e punir a criança a qualquer custo. Matilda com ajuda de seus poderes e conhecimento da vida da Srta. Honey, bola um plano e consegue assustar a diretora de uma vez por todas. Para completar, as crianças de todas as turmas veem ali uma oportunidade de revidar, com a vulnerabilidade da diretora, elas expulsam Trunchbull para fora da escola e nunca mais se viu ou ouviu falar da terrível Trunchbull, em nenhum outro lugar, aterrorizando mais ninguém.

Eu fico sim questionando como tudo se resolve tão facilmente no final, não acho que essa história é perfeita. Na verdade, nada é.  Mas o fato de ter outra personagem que sofreu exatamente o que Matilda sofreu, deu a ela atenção, carinho, reconheceu suas capacidades, mas também proporcionou o que as duas mais precisavam: uma família, onde se sentiam seguras, felizes e num lugar cheio de amor. Elas passavam muitas tardes de chá juntas, mas tudo se concretizou quando no final os pais de Matilda aparecem apressados na casa da Srta. Honey para buscar a menina, alegando que iam se mudar de país, já que o pai de Matilda estava sendo investigado pelo seu negócio sujo e foi alertado. Matilda então já estava com papeis de adoção e fala pra Srta Honey adotá-la, após Jennifer admitir que se importa e ama Matilda e não queria vê-la longe. Os pais de Matilda então fazem a única coisa decente que já fizeram pela filha: ambos assinam os papeis de adoção. Assim, a história termina com várias cenas de Matilda e Jennifer Honey vivendo juntas na casa de herança da Srta. Honey, inclusive lendo livros e comendo chocolates juntas.

Claro, apesar de todas as realidades de assuntos sérios tratados aqui, tudo foi resolvido de forma que tudo ficou bem no final e foram felizes para sempre, e que sabemos que nem sempre as coisas terminam assim. Mas vou te falar o porque gosto tanto de Matilda e porque também considero este um bom filme. Matilda é um tipo de história infanto-juvenil que prova ser uma daquelas feita para crianças: uma história envolvente e bem trabalhada sem subestimar a capacidade delas. Matilda não só ama livros como ela é muito esperta, ela percebe que todo mundo tem um ponto fraco – até mesmo os adultos. E é assim que ela consegue derrotar a diretora Trunchbull. Apesar do modo como ela era tratada em casa, sempre vista como tola, esquisita e burra, ela tinha ideias e planos inteligentes, sempre provando a sua sagacidade. O tempo todo, vemos e Matilda se vê confiante e inteligente mesmo quando em casa, ela só ouvia o contrário. Não só isso, não esconde das crianças a verdade: muita gente não gosta de histórias como essa, que mostram violência e acham inapropriado, mas não quer dizer que elas não deixam de acontecer se você deixar de contá-las e expor. Porque as que passam isso, também precisam se ver na tela, verem que não estão sozinhas e ter alguma perspectiva de acolhimento. Família vai muito além de laços de sangue, é onde o coração habita. E essa é uma das coisas que esse filme faz muito bem. Talvez essa história não seja para todo mundo, mas para os que gostam, tenho certeza que é inesquecível.

Lari
meus textos | twitter | goodreads | filmow Designer gráfica, artista visual, ilustradora e aspirante a quadrinista. Faz dancinhas aleatórias pra tudo. Canta músicas icônicas da MPB para seus personagens preferidos como declaração de amor. Grita como forma de expressão.
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