[Resenha] Cada Um na Sua Casa (Home, 2015)

 

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Aproveitando a deixa da chegada da primavera e dias de muito céu azul e sol radiante, hoje venho aqui indicar uma animação vibrante, leve, cheia de aventuras e com muito coração. Mas mais do que apenas um bom entretenimento, Cada Um na Sua Casa é um dos poucos longas metragens de animação com uma protagonista negra e esse é um dos principais motivos que me levaram a assistir ao filme e também a vir falar dele aqui no Pavê.

Caso você não tenha visto, eu falei um pouco sobre representatividade na área de animação nesse post aqui e, naquele post, me concentrei em falar sobre curtas. Mas e os longas? Sabemos o quanto representatividade é algo muito necessário e que precisa melhorar e muito, não deixamos de repetir isso sempre. Mas e quanto ao que já foi e está sendo feito? Aposto que se discutirmos sobre a escassez de personagens diversos e representatividade em animação, e nesse caso específico de longas metragens, quem está ligado nos últimos filmes vai comentar: Mas Larissa, e o filme Cada Um na Sua Casa, de 2015, com uma protagonista negra? Pois então! O holofote hoje é dele mesmo.

Quantos filmes de animação com protagonistas negras você já assistiu? Deve dar pra contar em metade de uma mão. E os de grandes estúdios então? Apesar da escassez, é algo que aos poucos está mudando. No mesmo post sobre Os Heróis de Sanjay comentei sobre uma produção em andamento. Cada Um na Sua Casa faz parte dessa pequena porcentagem e, devo admitir, tinha baixíssimas expectativas; mas o filme acabou me cativando e surpreendendo.

O filme começa com uma raça de aliens chamada Boov, fugindo de seu inimigo Gorg – destruidor de planetas – e encontrando no planeta Terra seu refúgio perfeito para chamar de lar. Então eles simplesmente vão lá e invadem a Terra e abduzem os seres humanos tudo (pois é, isso mesmo) e tomam conta de todo o planeta Terra dizendo que os Boov são amigos dos seres humanos e que seu dever é cuidar deles. Abduzem todos (menos uma) e os levam para um lugar afastado da Austrália, com várias pequenas casas que eles construíram. Enquanto os aliens se ocupam das casas das pessoas, implantando seu sistema e modo de viver por todo o lado —alterando a gravidade, interagindo com os objetos criados pelos seres humanos e achando a todo tempo que estão fazendo um serviço de ótima qualidade — , o cenário (apesar de muito rico e coloridíssimo) é um tanto quanto caótico e assustador para quem estava tranquilamente em sua casa e de repente – foi abduzido.

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No meio disso tudo estão nossos dois protagonistas: Oh é um alien peculiar, muito social e animado, cuja espécie é totalmente o oposto: cada um fica no seu canto e não se importa muito com o outro, além de todos terem pavor de Oh, acharem ele esquisito e o evitarem o tempo todo. Afinal, ele se chama Oh porque toda vez que ele aparecia animado pra falar com alguém, todo mundo dizia “Oh!” com uma expressão de completo horror e urgência de fugir dali imediatamente. De outro lado temos Tip, uma menina de 12 anos que fui abruptamente separada da mãe no meio de toda a invasão e abdução.

Os dois acabam se esbarrando no meio da fuga de Tip para sair dali do meio de tantos aliens e ir encontrar sua mãe e Oh fugindo de um bando de Boovs furiosos com mais um erro que ele cometeu – dessa vez o de mandar acidentalmente um convite da sua festa para todos da galáxia, inclusive o maior inimigo, Gorg. Se fosse algo do tipo Malévola, um convite para festa com certeza iria poupar um drama e tanto, mas nesse caso, foi um dos pontos para toda uma jornada de fuga e aventuras, com muitas cenas dinâmicas e com ação e uma pitada de bom humor sempre presente.

No áudio original, Oh é interpretado por Jim Parsons, Tip por Rihanna e a mãe de Tip pela Jennifer Lopez. Para quem é fã desses nomes, recomendo muito assistir no áudio original (embora não duvido que a dublagem brasileira esteja ótima também), principalmente os dois primeiros, considerando que são os que mais tem destaque no filme. A trilha sonora é composta inclusive por algumas músicas da Rihanna e da JLo e elas são tão cheias de vida e sentimento que não duvido que queriam elas no elenco não só para atuar como também na produção musical, que de fato, ficou muito boa e deu muita vida ao filme.

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Visualmente, esse filme é muito rico. Tanto nas cenas cheias de movimento, dinâmicas de ângulo de câmera; não é um filme parado que vai te deixar entediado — se você não se apegar à trama, com certeza pelo menos vai ter muito com o que se entreter nas imagens, cenários vivos e cheios de cor. Tem algumas cenas fantásticas mesmo, como a cena em que Tip e Oh conversam em cima do carro acima de um lago numa noite estrelada. Um trabalho da Dreamworks de muita qualidade técnica, sem desapontar na trama.

Esse filme, diferentemente de A vida dos Pets, por exemplo, é muito mais dinâmico e com aquela sensação de aventura sem deixar de ter uma boa essência repleta de sensibilidade e muitos sentimentos humanos, assim como sempre é um filme de animação de boa qualidade – aquele que capta o coração de todos, não importa quem seja. E aquele fatorzinho de ficção científica sobre espaço, o que é ser humano e qual o seu verdadeiro lugar. Não é a primeira vez que a Dreamworks nos traz um filme com (ou sobre) aliens: temos também Monstros vs. Alienígenas e Megamente.

Não espere nada trabalhado demais, inovador e UAU porque esse tema é bem genérico na área cinematográfica e sendo um filme para todas as idades e também voltado para o público infanto juvenil, é tudo bem leve, rico visualmente e com uma certa carga emocional, mas trabalhado para realmente o espectador se divertir e deixar aquele quentinho no coração.

É claro, eu adoraria ter visto um desenvolvimento maior e mais profundo da Tip por exemplo, entender melhor quem ela é e o que ela almeja. Na trama só sabemos que ela faria de tudo para encontrar e estar junto de sua mãe novamente, também sabemos que assim como Oh, ela também não tem muitos amigos e é tratada diferente na escola. Mas isso é algo que vemos mais no personagem Oh, perdido, sozinho e excluído inicialmente, depois encontrando em Tip uma amiga e companheira, que muitas vezes perdia a paciência e se estressava com Oh não entendendo os sentimentos humanos; até a hora em que ele finalmente encontra seu lugar e pessoas (e aliens) que querem ficar ao seu lado.

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Uma das coisas mais bonitas desse filme é a amizade que esses dois formam ao longo de sua jornada para encontrar a mãe de Tip (além de ter que resolver as confusões que Oh aprontou também). No meio do filme, há algumas cenas deles no carro voador movido a refrigerante, deles dividindo a direção enquanto o outro descansa, Oh e Tip ouvindo música e dançando, simplesmente conversando e rindo, como se fosse uma verdadeira viagem de estrada (road trip) de velhos amigos, só que no céu. E é possível perceber o crescimento de Oh e seu afeto pela Tip, a garota humana. Tip dá vários tapas na cara (às vezes literalmente) de Oh quando ele sumiu por horas no meio do nada sem avisar e a preocupou, quando ele não entendia porquê ela se sentia tão triste e com raiva por ter perdido sua mãe e se sentir sozinha. E com isso, Oh vai percebendo o que é ser humano de verdade. Ser humano não é o que vem no manual de instruções que os Boov receberam, são seres muito mais complexos, cheios de sentimentos e empatia.

Apesar de o filme colocar os aliens Boov como os que não tem senso de comunidade, habilidades sociais e não se importam com o outro, não dá pra deixar de pensar que muitos seres humanos também são assim. E ressaltar a complexidade e os bons sentimentos que estimulam os seres humanos a buscar e enfrentar as coisas dá uma sensação de esperança, principalmente quando vemos Tip em ação. Ela lembra Oh que os humanos erram e isso que faz deles, humanos. Ela é movida por coragem e esperança, ao mesmo tempo que está triste e apavorada com tudo. Tip desperta aquilo que há de mais verdadeiro e bom nos seres humanos e é uma das coisas que formam a essência desse filme.

Até mesmo o Gorg, não era um vilão tão unilateral como vilões em desenhos de uns anos atrás eram retratados. Gorg tem uma aparência diferente da qual os Boov achavam que tinha e sua motivação para ir atrás dos Boov era muito mais vinda do coração do que movida pelo ódio.

Pensando bem, se você já viu Megamente, pode ser que você goste bastante de Cada Um na Sua Casa. Os dois possuem uma trilha sonora vibrante, uma trama cheia de aventura, questionamento de valores e humanidade, a diferença é que Cada Um na Sua Casa tem um pouquinho mais de vida. Toda a trama, toda a ambientação visual, a trilha sonora contribuem para que Cada Um na Sua Casa seja não só uma jornada cheia de aventuras mas uma história sobre amizade, sobre encontrar seu lugar, estar com quem se ama e nos lembrarmos o que é ser humano: tá tudo bem errar, se apavorar, ficar com raiva e estar triste, mas não deixar apagar aquela luz de esperança dentro de nós. (Ok, isso soou bem brega – sou bem brega também inclusive – mas é verdade.)

Esse filme tem aquele espírito de verão, para quem gosta de uma boa jornada de aventura, algo leve, divertido e bem humorado, para aqueles que gostam de uma boa história de amizade peculiar, sobre aprender com seus erros e que deixa aquele quentinho no coração no final. Além de ouvir a voz maravilhosa da Rihanna o filme todo né?

fotobio27 Lari
meus textos | twitter | goodreads | filmow Designer gráfica, artista visual, ilustradora e aspirante a quadrinista. Faz dancinhas aleatórias pra tudo. Canta músicas icônicas da MPB para seus personagens preferidos como declaração de amor. Grita como forma de expressão.
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