The Handmaid’s Tale: uma aula de opressões em nossa sociedade

The Handmaid's Tale 1

O texto de hoje acabou sendo a quase estreia dos posts do nosso amado Pavê Trevoso, sendo o primeiro após a postagem de apresentação. Entretanto, não trata de algo que convencionalmente poderíamos associar a essa época do Halloween, mas elaborei alguns bons motivos para que isso não seja um problema! Apesar de estar escrevendo sobre o tema por estar devendo esse texto para o blog há um tempo e porque não lido muito bem com as mídias convencionais “trevosas”, podemos considerar que a série abordada tem um certo clima de suspense e, principalmente, ela aborda algo que é pra por medo mais do que qualquer palhaço assassino: o patriarcado e suas consequências na vida de mulheres e outros grupos marginalizados. E é principalmente a partir dessa perspectiva que irei abordar a obra.

Já se escreveu bastante coisa sobre a série The Handmaid’s Tale e após a lavada de prêmios no Emmy 2017 (premiação voltada para programas de televisão) não há muitas dúvidas sobre a qualidade do seriado, que concorreu pela sua primeira temporada. A série foi baseada no livro O Conto de Aia (homônimo, em inglês), de Margaret Atwood e encomendada pelo serviço Hulu (uma espécie de Netflix). Mas para além da grande qualidade técnica, já bem reconhecida nas premiações, o que tanto de bom The Handmaid’s Tale tem a nos oferecer?

Offred

Muitas resenhas classificaram a série como uma “distopia feminista”. E não é para menos. Narrada a partir da perspectiva de Offred, temos uma história na qual o fundamentalismo religioso toma conta dos EUA utilizando como pretexto a crises pela qual o mundo está passando: problemas ambientais e a diminuição drástica do nascimento de crianças, atribuída a menos mulheres serem férteis. A partir disso, o fundamentalismo avança na transformação da sociedade, pautada em um “resgate” de vidas mais “simples” e no controle completo da vida das mulheres, principalmente aquelas que seriam as últimas mulheres férteis. A partir dessa premissa, The Handmaid’s Tale passa a revelar muitas questões acerca da dominação da mulher numa sociedade patriarcal, utilizando uma sociedade ficcional para falar da nossa.

De início, a questão mais amplamente abordada na série é a necessidade de controle total das mulheres férteis, o que acaba passando a ser aceitável para aquela sociedade na qual a taxa de natalidade diminui espantosamente. As pessoas passam a aceitar a situação quase com naturalidade, num espaço de tempo curto, com um raciocínio que a princípio parece lógico: ora, essas mulheres não podem mais se dar ao luxo de liberdade porque a sociedade precisa que elas gerem “frutos”, não há como escolherem entre terem filhos ou não.

Uma associação possível com essa situação é a nossa própria história real. O teórico Friedrich Engels apresenta em sua obra A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado como foi “necessário” dominar a mulher para garantir o desenvolvimento da sociedade que se formava em torno da propriedade privada, já que ela seria a “responsável” por gerar os futuros herdeiros das propriedades, que não deveriam passar para outras famílias (ressalte-se que a ideia do teórico está aqui apresentada de forma bem resumida e simples). Assim, a mulher acaba sendo o “bode expiatório” no desenvolvimento da nossa história, da mesma forma que acaba sendo no mundo de The Handmaid’s Tale.

The Handmaid's Tale 3

Entretanto, a resposta dada aos problemas do mundo na série provoca indignação em quem a assiste. “Como assim essa é a solução? Não pode ser!”. A indignação é ainda maior diante do fato que as pessoas daquele mundo parecem, a princípio, aceitar aquela situação, “é assim porque tem que ser assim”. E será que não teria ocorrido dessa forma em nossa própria história, com a dominação da mulher passando a ser “natural”? Sempre parecendo uma questão “lógica”, uma resposta válida aos problemas enfrentados? The Handmaid’s Tale, em uma perspectiva mais crítica, pode nos trazer um choque de realidade. Se utilizando de uma situação mais exagerada, representa o desenvolvimento do patriarcado na vida real e como isso foi sendo incutido mais e mais como uma parte da nossa realidade, sem ter muito o que questionar.

Naquele mundo ficcional, o momento de crise tem suas “soluções” dadas de forma muito parecida com nossa vida real: com a opressão da parte da sociedade mais marginalizada. É importante destacar que não apenas as mulheres enquanto mulheres sofrem naquele mundo. Também ocorrem perseguições aos LGBT e a outras religiões, já que o grupo religioso que ascende seria o único correto. Não muito diferente do que estamos vendo acontecer na nossa realidade: crise é desculpa para políticas públicas para mulheres, LGBT e negras e negros serem cortadas. Os direitos trabalhistas são ameaçados porque assim é mais fácil dominar a classe trabalhadora. Crescem as manifestações de racismo, xenofobia, machismo, LGBTfobia, classismo, como se dissesse que apenas uma pequena parcela da sociedade está apta a ter poder e dar as respostas dos caminhos que devemos seguir, sempre sob um discurso mentiroso de que é pelo bem de toda a sociedade. Da mesma forma, em The Handmaid’s Tale, todas as perseguições, opressões e violências são justificadas pelo “bem de todos”.

The Handmaid's Tale 4

Mas acredito que a série demonstra ainda mais complexidade ao não tratar os personagens de forma maniqueísta, baseada em uma só questão como gênero, orientação sexual, raça, etc. Do mesmo jeito que as opressões em nossa sociedade não são fechadas nesses aspectos, isso ocorre na série. As mulheres são oprimidas, claramente, mas de formas diferentes e há aquelas que perdem muito mais com isso, enquanto outras ainda aspiram a possuir certo poder. Os homens possuem um status de privilégio irrefutável, mas alguns possuem um poder muito mais palpável associado a esse privilégio. Um exemplo disso é o fato das mulheres que são férteis serem diretamente controladas por outras mulheres, chamadas de “Tia”. Entretanto, mesmo que essas Tias tenham um poder direto sobre a vida das outras, elas não podem ditar realmente o que podem ou não fazer das suas vidas.

Só que The Handmaid’s Tale ainda consegue ir mais além. Ela não demonstra apenas como as relações de opressão são estabelecidas naquela sociedade, refletindo também a nossa. Do mesmo jeito que nossa história não é feita apenas de aceitação passiva das opressões que se estabelecem, nem todo mundo se curva diante do que acontece. Algumas pessoas se rebelam, não aceitam e aqueles que almejam o poder calcado na opressão de outros precisam aperfeiçoar mais e mais suas estratégias de dominação. Em parte, conseguem diminuir bastante da revolta mais aparente, mas essa destruição não é completa, o sentimento de indignação, mesmo que escondido, permanece. Acaba que diversas vezes parece ser insuficiente, que o poder dos “de cima” é forte demais para ser barrado, mas uma coisa em comum que todas essas “rebeldias” apresentam é aparentemente serem realmente frágeis, coisa de poucas pessoas. Mas o que aconteceria da união dessas “rebeldias”? Na primeira temporada, vemos algumas sementes disso, embora a obra tenha nos deixado na sede de ver o desenvolvimento nas próximas. Espero poder acompanhar de perto onde vai dar!

The Handmaid's Tale 6

Marina
meus textos | filmow | skoobMilitante do Levante Popular da Juventude, de esquerda, feminista, lésbica e afrontadora da família tradicional brasileira. Nas horas vagas, estuda Direito, devora quadrinhos, lê livros, assiste filmes e algumas séries.

 

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