Frankenstein, a primeira obra do gênero literário ficção científica

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[Descrição da imagem: Uma pilha de dois livros com a coletânea com as obras Frankenstein, O Médico e o Monstro e Drácula, da editora Martin Claret; acima, edição de Frankenstein da editora Zahar e um crânio decorativo.]

Nada melhor do que trazer ao nosso Pavê Trevoso um dos maiores e mais tradicionais nomes do terror mundial. Por isso, no post de hoje, refletimos sobre Frankenstein, sua importância não apenas para a literatura mundial como também para a cultura pop e, principalmente, te introduzimos aos seus primórdios. Vem com a gente explorar o famoso conto!

Talvez você tenha se familiarizado com a história do abominável ser de dois parafusos na cabeça, pele esverdeada e andar e trejeitos característicos a um zumbi. Talvez até mesmo se recorde de seu criador, um cientista maluco de meia-idade, e seu assistente Igor que, em meio à uma tempestade de raios, exclama e comemora seu experimento que deu certo, trazendo o tal ser à vida. O terrível monstro chega até mesmo a ser referido, na cultura pop, pelo sobrenome daquele que o criou.

A verdade é que nada do que narrei acima corresponde à realidade na qual consiste a obra “Frankenstein (ou O Moderno Prometeus)”. O livro já ganhou numerosas adaptações, dentre elas séries, filmes, jogos, HQs e até mesmo outros livros que ajudaram a consagrar essa imagem tradicional sobre o que conhecemos de Frankenstein, embora pouquíssimas delas retratem fielmente a obra original.

Mary Wollstonecraft Shelley
(1797-1851) foi uma escritora britânica, autora de contos, dramaturga, ensaísta, biógrafa e escritora de literatura de viagens. Mary se tornou igualmente notável como um símbolo do feminismo, não apenas por suas opiniões em defesa das mulheres e do movimento feminista, como por ter desafiado a sociedade na qual vivia ao publicar um livro de sua autoria em um tempo no qual as chances de isso ocorrer eram quase inexistentes. Também auxiliou a promover os trabalhos de seu marido, o filósofo e romancista Percy Bysshe Shelley (1792-1822). O casal oficializou a união em 1816, pouco antes do acontecimento acarretador do lançamento do livro que marcaria o início de uma nova era para a literatura inglesa (e, posteriormente, a literatura mundial), com a história eterna de Victor Frankenstein, apresentando o gênero ficção científica para o mundo.

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Foi no verão de 1816 que Mary, juntamente com seu marido Percy, o poeta romântico Lord Byron e John William Polidori, dividiu uma casa em Genebra, Suíça. Em um dia tempestuoso, sem opções do que fazer e trancados dentro da casa, os escritores procuravam por atividades que coincidissem com o clima. Foi quando começaram a discutir histórias alemãs de fantasmas, chegando ao assunto das Fantasmagorianas: coletâneas de histórias sobrenaturais contendo fantasmas, aparições, sonhos e espectros. Partiu de Lord Byron o desafio de cada um dos autores presentes escrever um conto de terror inspirado pelas Fantasmagorianas. Mary, sem muita experiência no assunto e tendo apenas escrito um livro de viagens, aceitou o desafio com a pretensão de escrever um conto curto. Este, contudo, foi se expandindo com o incentivo de Percy, acabando por resultar no romance Frankenstein (ou O Prometeu Moderno), que teria sua primeira edição publicada quase dois anos depois, em 1818.

Frankenstein perdurou no tempo até alcançar a cultura pop. O filme de 1931 mostrou Boris Karloff no papel da criatura, proporcionando-a sua face mais popular, da mesma forma que serviu de inspiração para artistas como Tim Burton e Alice Cooper. Além de The Rocky Horror Picture Show, há referências a Frankenstein nos filmes Reanimator e A Família Addams, no famoso álbum Yellow Submarine, dos Beatles, em vários videogames e nas HQs da Marvel e DC Comics. Desenhos animados como Scooby-Doo trouxeram personagens inspirados em Frankenstein. Sua adaptação mais fiel na atualidade (e possivelmente de todos os tempos) está inserida em Penny Dreadful (2014-2016), série protagonizada por Eva Green na qual os papéis de Victor e da criatura são interpretados por Harry Treadaway e Rory Kinnear, respectivamente.

Quanto à história, eu acredito que você já conhece. Estamos diante de um jovem médico, apaixonado por ciências naturais e determinado a mudar a humanidade com algo inédito: gerar vida sem utilizar-se dos métodos convencionais para tal. Ele obtém sucesso e a criatura ganha vida, porém, feita a partir de remendos de corpos condenados, não passa de uma réplica tenebrosa de um ser humano. Ao se dar conta da monstruosidade que criou, Victor foge, deixando a criatura à mercê de uma humanidade que não se adaptaria à sua cruel natureza. Quando percebe que jamais será aceito pelos homens, o monstro procura se vingar de Dr. Frankenstein e sua família.

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A essência de Frankenstein, provavelmente, encontra-se nas conversas que Mary escutava entre seu marido Percy e Lord Byron, que debatiam entusiasmados a respeito da “natureza do princípio da vida”. Isto é dito de ter levado Mary a um caminho distinto do qual originalmente planejado — afinal, sua mente se esforçava para criar uma ficção sobrenatural e fantástica quando, de fato, seu interesse se voltava às especulações científicas. Não à toa Victor Frankenstein era médico, um homem da ciência e que pensava como um cientista, com uma perspectiva prática, metódica e cética. Realizava considerações fundadas em suas experiências com anatomia e ciências naturais, mas entrava em conflito com a própria mente ao considerar os fatores que conceberiam a vida, entrando em profundas reflexões filosóficas acerca de sua natureza e origem.

O caráter sobrenatural e fantástico sugerido por Lord Byron apresenta-se em outros aspectos da história, correspondentes a seus elementos subjetivos. Um deles é o método utilizado por Victor para dar vida à criatura, o qual não fica claro em nenhum momento — sabe-se que esta foi concebida em um quarto de estudante porém, ao contrário do que é repercutido pela cultura pop, não há menção de tempestade de raios; e o outro, a descrição da criatura, cujos horrores ficam a critério da imaginação do leitor, com poucos detalhes acerta de sua aparência fora sua conhecida pele amarelada, cabelo comprido e preto e olhos cinzentos. Assim, toda o raciocínio feito por Mary, que nos é exposto através de Victor, ocorre por meio da razão científica e filosófica. A reanimação da criatura é calculada e esclarecida cientificamente, e ela adquire capacidade de comunicação e inteligência após leitura e o aprendizado com obras clássicas.

São esses os quesitos que ocasionam com que Frankenstein seja identificado mais como fundador do gênero ficção científica, até mesmo pertencente ao steampunk, do qual já falamos aqui no blog, ao invés de obra do gênero horror. A presença de um médico como protagonista foi essencial para ditar as ponderações científicas e filosóficas que posteriormente serviriam como as condições definitivas para que exista uma ficção científica. Não deixa, entretanto, de ser uma das obras clássicas que compõem a literatura gótica mundial, ao lado de Drácula, de Bram Stoker, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, e Carmilla, de Sheridan Le Fanu, e segue a lista. Meu contato com esses títulos desde a infância fez não somente com que eu me apaixonasse pelos gêneros terror e ficção científica, como também me motivou a escrever essa reflexão. O que todos eles possuem em comum é a constante discussão sobre a dicotomia vida e morte, alguns com mais ênfase do que outros. Em Frankenstein, temos contato com essa dicotomia logo no início da narrativa.

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Victor Frankenstein era um rapaz inteligente desde criança. Na faculdade de Medicina, se destacava em meio aos seus colegas como um estudante prodígio e grande conhecedor de sua área. Foi sua vontade de exercer uma mudança significativa na humanidade que o levou a utilizar de seus conhecimentos para desafiar a Morte em um experimento macabro, motivando sua saída da faculdade para se dedicar a uma paixão que parecia ainda maior. A ânsia e o impulso para concretizar o ato o levaram a violar túmulos atrás de partes de corpos para formar sua criatura. O foco no projeto exigia sua completa incomunicabilidade com amigos e parentes, afastando-o de todos durante os dois anos que passou trabalhando no projeto. Ao conferir o apavorante resultado de sua própria criação e amedrontado, Victor foge, deixando para trás tudo aquilo ao que se dedicou tão arduamente e o ser que desconhecia sua nova realidade.

A criatura não possui nome. Referida como “monstro”, “abominação”, “demônio”, “miserável” e outros termos pejorativos e quaisquer sinônimos de uma coisa indesejada, é até irônico o quanto foi se confundindo com seu Criador com o passar do tempo. Esta passa a procurar Victor buscando uma afeição mínima, mas ele a ignora por completo. Certo dia, foge para a floresta, onde depara-se com a única pessoa capaz de compreendê-lo: um cego. A criatura descobre as emoções humanas e, pela primeira vez, respeito, até ser expulso pelos filhos do homem que o acolhera. Sem nenhum senso, volta a ir atrás de Victor, desta vez matando seus entes queridos para conseguir sua atenção.

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O principal momento de confronto entre Criador e Criatura se dá enquanto Victor caminha pelas montanhas e se depara com esta, mais estruturada do que no momento de seu abandono. Ela promete sair da vida de Victor e dos seres humanos com uma condição: exige de Victor que ele lhe faça uma noiva, uma igual. Horrorizado e relutante, Victor aceita a proposta, mas desiste da tarefa temeroso que ele criasse uma geração de aberrações que assombrassem a humanidade. A Criatura, furiosa, se vinga de Victor. Sozinho e desorientado, ele decide caçar o monstro com as próprias mãos, seguindo-o até um navio no Pólo Norte. É lá que Victor dá seus últimos suspiros, relatando sua história ao Capitão.

Duas pautas extremamente relevantes são realçadas por Mary Shelley. A primeira é a ganância humana e a segunda, suas consequências. Victor cegou-se em um nível infindável pela vontade de se destacar em meio a seus colegas pelos seus feitos, o que culminou em sua ruína. Além do mais, abandonou a Criatura em seu instante mais crítico, o que seria um paralelo com a paternidade (não somente tendo relação com as experiências pessoais de Mary, mas num todo), deixando-a só em um mundo de pessoas cruéis com quem não se encaixa nos padrões impostos. Podem ser elaboradas infinitas metáforas envolvendo sociedade atual e o mundo em que vivemos.

A atmosfera que Mary Shelley constrói é sombria o suficiente para caracterizar um terror psicológico, contudo, ela toca em outros pontos. Os cenários são lúgubres, melancólicos, nostálgicos e causam desconforto pela sensação de de desconhecermos o que virá a seguir. O horror não é tão proeminente e se manifesta a partir do gore, em relatos das experiências de Victor com a anatomia humana e das falhas de seus experimento, do suspense, e dos tormentos da Criatura. Não estamos essencialmente diante de uma obra de terror, entretanto, é igualmente possível encaixá-lo como tal. De certa forma, Mary também aposta no terror, que não surge com sustos ou adrenalina; se esculpe através da consciência e da natureza humana.

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Frankenstein proporciona um olhar mais profundo dentro de nós mesmos. Mary Shelley ensina lições importantíssimas, utilizando-se de uma tática extraordinária ao elaborar o caráter do Victor propositalmente terrível e cruel — e daí vem minha admiração e fascinação, até com certo apreço, pelo mesmo — em paralelo com a Criatura para que, por conseguinte, o leitor se coloque no lugar dele. Desse modo, começa a se auto-questionar, e de repente se vê desentranhado por completo, quase como se fosse transparente ao ponto de a autora enxergar diretamente dentro de sua alma.

Ela conhece nossos temores no que diz respeito à sociedade e à natureza humana, como por exemplo, a aversão em falhar, o desejo por aceitação e a busca por ganância, e tem a rara capacidade de explorá-los como ninguém. Frankenstein se aprofunda na imprevisibilidade humana, o que por si só já é extremamente assustador. E aqui nos deparamos com o verdadeiro terror, quando o monstro não é um cadáver que voltou à vida e desafiou a morte, e sim o personagem que não passa de um ser humano.

Beatriz
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Contadora de histórias que sonha em viajar o mundo e estudante de Direito no resto do tempo. Viciada em séries e em pesquisar sobre mitologia.
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