WYTCHES: esqueça tudo que você sabe sobre bruxas

Bruxas são uma das criaturas mais icônicas do imaginário sobrenatural. Por isso, é comum vê-las representadas nos mais diversos formatos. Seja em American Horror Story, Charmed ou Sabrina: Aprendiz de Feiticeira são muitas as semelhanças entre elas. Se fecharmos os olhos nós somos capazes de imaginar uma bruxa nos moldes das tantas que vimos.

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[Descrição da imagem: Em destaque, vemos a capa do primeiro volume da HQ “Wytches”.]

Mas Wytches, de Scott Snyder, nos apresenta a bruxas que nós nunca sonhamos que poderiam existir. Desde a grafia do título – usada durante toda a história, aos traços e cores, as bruxas de Wytches não são como as que nós conhecemos. Nós até queríamos que fossem, mas estas são bem piores.

Confesso que a grafia foi a primeira coisa que me chamou atenção, afinal por que substituir o “i” por “y”? A minha curiosidade aumentou quando folheei as primeiras páginas e encontrei a palavra bruxa e as suas definições do dicionário; apenas para na página seguinte, descobrir as mesmas definições cobertas por riscos, fazendo com que fosse impossível lê-las. Foi então que percebi que Wytches seria algo completamente diferente.

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[Descrição da imagem: Num fundo preto, podemos ver a palavra “bruxa” seguida pelo que parece ser uma definição tirada diretamente do dicionário. Porém, as palavras estão riscadas e não é possível as ler completamente.]

Wytches é uma HQ lançada em 2014 e dividida em seis volumes. Aqui no Brasil ela foi lançada pela Darkside Books e ganhou uma edição especial em capa dura. A história segue duas linhas temporais, uma em 2011 e outra em 2014, o que pode parecer confuso a princípio já que muitas vezes os quadrinhos das duas linhas temporais aparecem juntos, mas é essencial para entender quem são os personagens principais. E apesar de em tempos diferentes, as duas linhas tem um ritmo semelhante e se cruzam em diversas vezes.

A primeira cena consegue resumir bem o horror e o gore que o leitor vai encontrar nas próximas páginas. Uma mulher grita por ajuda, ela está presa dentro do que parece ser uma árvore. O seu filho, apenas uma criança, aparece e pergunta por que ela está ali, ao que ela responde que foi prometida e, mais uma vez, pede ajuda para sair. O garotinho pega uma pedra no chão, bate com ela no rosto da mãe e diz “promessa é promessa”.

Após essa introdução intensa, nós somos apresentados à família Rook, composta por Charlie, Luce e Sailor. Eles acabaram de se mudar para Litchfield em busca de um recomeço. Sailor sofreu bullying no colégio e a sua agressora apareceu morta, o que fez com que todos acreditassem que quem a matou foi Sailor. E não ajudou o fato da garota ter dito que forças estranhas na floresta levaram a sua bully.

Agora numa nova cidade, os Rook querem mais do que tudo se encaixar: Sailor torce para que ninguém no colégio novo a reconheça; Luce volta a trabalhar após um acidente de carro que a deixou numa cadeira de rodas; e Charlie tenta escrever um novo volume da sua HQ. Mas incidentes estranhos continuam acontecendo ao redor de Sailor, fazendo com que os seus pais comecem a questionar a sua sanidade mental.

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[Descrição da imagem: Um homem parecendo determinado diz “Aw, vamos lá. Todos nós somos criaturas egoístas. E elas são as Deusas do Egoísmo. Elas sentem o cheiro em nós, isso as atrai, as necessidades e as vontades, hormônios e coisas do tipo, elas conseguem sentir o cheiro. Elas vem até você quando você quer que elas venham. Sim, você entendeu. Talvez seja melhor, sim, você andar em círculos um pouco. Vagar, enrolar até termos certeza que ela–“]

Em Wytches, nós não somos apresentados logo de cara às bruxas. Isso demora a acontecer. E esse suspense aumenta o terror por trás dessas criaturas. Nós sempre as vemos à espreita, mas nunca as vemos por completo. Elas estão sempre nas sombras e ainda contam com o talento do cartunista do Jock (que fez as artes conceituais do filme EX_MACHINA) para escondê-las ainda mais – criando ambientes assustadoramente perfeitos para isso.

E as bruxas são um terror à parte. Aquelas que conhecemos, que foram julgadas e queimadas em Salem, aqui são apenas as ajudantes das bruxas de verdade. E as verdadeiras são criaturas antigas, intrinsecamente conectadas à terra e que usam os humanos para realizar tarefas que elas não querem ou não podem fazer em troca de pequenos presentes. As bruxas de Wytches se alimentam de seres humanos, principalmente crianças e elas nunca estão satisfeitas.

As bruxas representam todo o egoísmo que envolve as relações humanas, principalmente as relações familiares. O foco da narrativa é na família Rook e através deles conseguimos ver como os pais têm dificuldade em manter a sua individualidade e ser pais, como ir atrás dos seus sonhos e ajudar os filhos a alcançarem os deles. Vemos o relacionamento entre Charlie e Sailor em crise pois ele não consegue lidar com toda a responsabilidade que vem com ser pai quando a filha mais precisa dele.

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[Descrição da imagem: No primeiro quadro vemos uma garota de costas para um homem que a observa. Ela diz “é como um poço que você cai dentro”. No segundo, vemos apenas a garota que continua a falar “é como se, de repente, você caiu nesse lugar onde tudo está te dizendo que o pior está por vir e que você está amaldiçoada, e dentro das suas células você consegue sentir que é verdade. É assim que é, mas por semanas quando não estou bem, pai.”]

Como boa parte da história é contada do ponto de vista do pai – o que é diferente, mas explicado quando pensamos que a HQ tem muito do seu autor; a linha temporal do passado mostra, principalmente, o relacionamento entre pai e filha e também serve para esclarecer melhor quem é Sailor além da garota que sofreu bullying.

Um dos diálogos mais reais é quando Sailor fala sobre as suas crises de ansiedade, algo que sempre gerou atrito entre ela e o pai pois ele acreditava que a ansiedade era algo que a filha poderia apenas “superar”. Conseguimos ver o desenvolvimento da relação deles enquanto Charlie aprende a ser ele mesmo e a ser pai.

Com seis volumes, Wytches consegue criar um fascinante universo sombrio, trazendo um novo significado à palavra “bruxas” e explorando os temores mais humanos de uma maneira sobrenatural. A HQ fez tanto sucesso que um novo arco, dessa vez contado pelo ponto de vista de Sailor, está sendo produzido e deve ser lançado ainda esse ano.

Rebeca de Arruda
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Social Media, graduada em Jornalismo, entusiasta do k-pop e doramas. Lê livros demais, vê séries demais e uns filminhos também. Vive para problematizar (e amar) a cultura pop — e também para enaltecer The Shannara Chronicles!

 

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