Coraline: Filme e Livro, a essência do medo e da coragem através de fantasia e surrealismo

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Coraline Jones. Você já deve ter ouvido falar dessa garota. Além de sua obra original, também possui uma adaptação para os cinemas e tanto a obra original quanto a adaptação são bem famosas. Pode ser que você já tenha lido o livro, mas de repente não parou para conferir o filme. Pode ser que você tenha assistido o filme uma pá de vezes, porém nunca chegou perto do livro. Ou você gostou da história o suficiente para conferi-las de todos os jeitos. Hoje venho falar da história de Coraline: uma resenha tanto do livro e outra do filme, comparações, conclusões e porque você devia conhecer essa história e porque ela se encaixa tão bem nesse Pavê Trevoso.

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Coraline originalmente é uma história infanto juvenil escrita por Neil Gaiman e conta a jornada apavorante de uma menina de mesmo nome. Ela e seus pais haviam acabado de se mudar, a nova casa, foi dividida em três partes e vendidas como se fossem apartamentos. Desde as primeiras páginas, a protagonista se vê entediada e sem ter o que fazer. Assim como muitas crianças, ela queria a atenção de seus pais e que brincassem com ela. Constantemente ignorada e deixada de lado, além de precisamente terem pedido para ela se distrair com qualquer outra coisa e deixar os pais trabalharem em casa em paz, Coraline decide explorar a nova moradia e seus habitantes, os peculiares vizinhos.

Na parte debaixo da casa, moram duas senhoras aposentadas e ex-atrizes, vivem recordando os tempos de teatro e dias de espetáculo, além de ter vários cachorros, de vez em quando Coraline ia visita-las para tomar um chá. Na parte de cima, o que costumava ser o sótão, mora um outro vizinho, um senhor que treina ratos e que diz que quando eles estiverem prontos, abrirá seu circo de ratos. Na visita à casa das senhoras Spink e Forcible, a menina foi alertada que corria perigo. A senhora Spink perguntou se podia ler as folhas do chá de Coraline e a senhora Forcible, não acreditando a princípio, checou as folhas e confirmou a previsão. Sendo assim, desde o começo Coraline estava alerta e não confiava facilmente em tudo, visto que sabia que estava correndo perigo. Para ajudá-la, a senhora Spink lhe deu uma pedra com furo no meio, já que poderia ser boa para coisas ruins.

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No dia seguinte, Coraline e sua mãe saíram para fazer compras para as voltas às aulas. Apesar dos diálogos serem bem simples e não vermos uma Coraline tão carismática, Gaiman dá muita ênfase nessas pequenas partes em que Coraline interage com seus pais e o quanto a personagem fica chateada e se sente negligenciada. Com sua mãe fora de casa, ela decide explorar. E explorar onde ela era proibida de ir, na sala de visitas com os móveis herdados de sua avó, havia uma porta, que se abrisse, ela sabia que daria em nada: apenas uma parede de tijolos. Uma parede que construíram para dividir a casa e fazer mais um apartamento do outro lado. Até que dessa vez, ela dava para um corredor escuro.

Atravessando o corredor, Coraline chegou em um apartamento exatamente igual o seu, com as mesmas paredes e os mesmos móveis. Até pensou ter ouvido a voz de sua mãe, mas apesar de ter muitas semelhanças, a mulher que viu era mais alta e magra e também tinha algo de muito estranho: havia grande botões pretos pregados como se fossem olhos. A mulher se apresentou como A Outra Mãe. Também havia O Outro Pai, que também possuía botões no lugar de olhos. Eles eram tudo que Coraline desejava que seus verdadeiros pais fossem: atenciosos, comeram um jantar divino de frango assado com batatas ao invés das esquisitices que seu verdadeiro pai inventava, um quarto colorido e nada sem graça, com brinquedos interessantes que se mexiam como se fossem coisas vivas, além de tudo parecer muito interessante.

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A princípio Coraline pensou “isso sim, isso é uma maravilha e nem um pouco chato” e foi explorar o que esse Outro Mundo tinha a lhe oferecer. Ela viu o outro velho vizinho e seus ratos que cantaram e formaram uma pirâmide. Ela viu um espetáculo das outras senhoras Spink e Forcible, com vários cachorros na plateia e vários números mirabolantes das versões mais novas da senhora Spink e Forcible, até que por fim voltou à casa. Sua Outra Mãe e seu Outro Pai a esperavam e quando entraram dentro de casa, a Outra Mãe disse que esperava que Coraline estivesse gostando de tudo e para ver ali, como seu lar. Se quisesse, ela poderia ficar para sempre. Só tinha que fazer um pequeno favorzinho. Também colocar botões pretos no lugar de seus olhos. Assustada e horrorizada, Coraline dispensa a oferta e corre de volta para a porta, o corredor escuro e volta para sua casa verdadeira. Mas quando chega lá, seus pais não estão.

Bom, caso você não saiba, aviso que Coraline é uma história infanto juvenil e também curta, quase como um conto ou uma novela. Mas acredite ou não, tudo isso acontece em um pouco menos que as primeiras 50 páginas do livro. Eu já havia ouvido falar desse livro juvenil meio suspense meio horror, do tão aclamado Neil Gaiman, mas devo confessar que conheci Coraline primeiro por sua adaptação cinematográfica. Basicamente todo o enredo que ocupa um pouco mais da primeira metade do filme é quase como uma mera introdução no livro, visto que todas as outras cento e poucas páginas são dedicadas à jornada de Coraline para salvar os pais e se salvar completamente da Outra Mãe. Mas isso é porque cada mídia tem um teor e uma essência diferente, além de se complementarem muito bem. Então se você só leu ou só assistiu ao filme, recomendo muito conhecer a história na versão que não consumiu, porque só agrega e enriquece mais toda a construção de personagens, mundos e complexidade presentes nesse universo surrealista e ao mesmo tempo tão real.

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Enquanto a estrutura da obra original, criada e escrita por Neil Gaiman, não é tão equilibrada no quesito começo, meio e fim e termos uma noção melhor da personalidade da Coraline, Gaiman fez uma história interessante e que nos faz refletir sobre coisas muito simples como o tédio e valorizarmos o que temos, até algo mais complexo como o medo e a coragem. É aquele tipo de história infanto juvenil de qualidade: não só é um ótimo entretenimento, como também não subestima as crianças.

Coraline é uma menina muito esperta. Ela não se deixa enganar e encantar tão facilmente por todo o mundo que A Outra Mãe criou. No livro, ela só tem a ela mesma, a pedra com furo no meio que ganhou e sua agilidade e esperteza. Além disso também tem um gato preto, que ficava perambulando perto de sua casa em seu mundo, e no mundo da Outra Mãe, este falava e lhe dava dicas para manter a pedra com furo por perto e não acreditar na Outra Mãe. E por sua agilidade e coragem, ela não só conseguiu salvar a todos, como a si mesma.

 

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Em 2009, Coraline ganhou uma adaptação para as telonas e não foi qualquer adaptação: a história ganhou vida em forma de animação pelas mãos do Studio Laika. Toda a produção detalhada e minuciosa artesanal na técnica de Stop Motion do estúdio, as cores vibrantes e caracterização dos personagens só contribuiu para que a história ganhasse ainda mais presença e vida.

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Enquanto no livro, conhecemos e acompanhamos Coraline com muitos pequenos detalhes para compreendermos a essência da história e a forma que a protagonista sente e lida com os acontecimentos, no filme esses detalhes não passam em branco, mas também são adaptados e sintetizados para que funcionem em um longa metragem de uma hora e quarenta minutos. Coraline é lembrada pela caracterização marcante que o Studio Laika deu à ela: cabelo curto, liso e azul, sua capa de chuva e botas amarelas, além de ser muito expressiva. Mais do que tudo, sua coisa favorita é explorar. Então logo no começo, Coraline explora os arredores da casa e encontra um menino chamado Wybie. Um personagem que não existia no livro, mas serviu como alguém que nos dá dicas sobre a Outra Mãe, como que ela consegue atrair Coraline e também alguém que ajuda a protagonista a conseguir escapar do perigo.

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Coraline é uma história que funciona muito bem visualmente. Tanto é que não é à toa que o longa metragem fez sucesso. Muitos pontos de clímax e que geram o terror são resultados do aspecto físico tanto dos personagens como do mundo que a Outra Mãe criou. Simplesmente começando pelo fato de que o que gera a tensão e nervoso na personagem são os Outros Pais terem botões no lugar de olhos. A criatura que se denomina Outra Mãe não tem muitas descrições específicas de sua aparência verdadeira na obra original, no entanto, Neil Gaiman dá imensas dicas o tempo todo desde as primeiras páginas até o final acerca de quem a Outra Mãe verdadeiramente é, e entendendo quem ela é, também entendemos melhor suas motivações e a inteligência em que esse enredo foi construído. Como o gato diz para Coraline “Ela precisa de algo para amar. Ou talvez só para comer.” 

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Além disso, todo o cuidado e trabalho minucioso do Studio Laika conversou muito bem com o que a história pedia. Aspectos muito humanos quanto a sentimentos e ações da protagonista é algo muito forte na obra original, e no filme, tudo foi construído de forma visualmente chamativa para todas as diversas situações que Coraline enfrenta. Desde o apartamento com seus pais, sem muita coisa e com cores mais neutras e cinzentas, os próprios pais, cansados e viciados no trabalho, até a caracterização da heroína, um cabelo azul curto vibrante e roupas divertidas e coloridas. A direção artística e o aspecto visual do filme são como o olhar de criança: do apartamento monótono, pais que não dão atenção e tédio ao vislumbre imediato a tudo do Outro Mundo. O quarto cheio de vida e cor, tudo parece ser mais legal e divertido, tanto é que a cozinha tem a mesma aparência que a cozinha de sua verdadeira casa, mas a outra cozinha tem cores muito mais quentes, vivas e atrativas.

A visita de Coraline, na obra original, foi uma só vez e conheceu tudo e todos; no filme ela se multiplica para três vezes. A primeira vez ela conhece seus outros pais, se encanta com a comida, com a atenção, a diversão, o Outro Pai até faz um jardim repleto de flores e super colorido com a cara dela, pô! Na segunda ela conhece o Outro Wybie (que também ajuda ela a escapar posteriormente), e as Outras senhoras Spink e Forcible. Na terceira ela conhece o Outro Sr. Bobinsky e seu circo de ratos e até então, ela permanecia admirada e encantada, por isso continuava voltando para esse Outro lugar.

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Desse jeito, o desenvolvimento da história foi mais gradual e também tem aquele teor clássico do infanto juvenil: a criança vislumbrada com tudo e não entende porque aquilo seria ruim, até que aos poucos, as coisas não saem como o planejado e temos sempre uma lição de moral. Mas antes de apresentar isso, teve toda essa construção gradual e lenta para mostrar o quanto o Outro mundo era mais fascinante, mais atrativo e divertido, que  levaria uma criança a querer voltar para lá e porque seria tão difícil de voltar para casa, já que a Outra Mãe é controladora e manipuladora.

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Há alguns detalhes muito interessantes que foram acrescentados ao filme e não existiam no enredo original. Como o personagem Wybie, por exemplo. Ele diz que não pode chegar perto da casa, que sua avó o proíbe pois ela costuma lhe dizer que é perigoso para crianças. Sua avó morou na casa anos atrás e sua irmã gêmea desapareceu. O que entendemos é que a tia-avó de Wybie passou pelas mesmas coisas que Coraline passou com a Outra Mãe, mas não sobreviveu (inclusive, ela acaba sendo uma das almas de crianças que Coraline consegue resgatar). E bem no comecinho do filme, quando estão passando os créditos, vemos uma criatura com mãos quase mecânicas e finas como agulhas fazendo uma boneca nova, igualzinha a Coraline e antes, era igualzinha a irmã da avó de Wybie. A Outra Mãe entendia o que Coraline sentia e queria porque através dos olhos da boneca, ela viu sua vida monótona e infeliz, e assim conseguiu atrair a menina para seu ninho. Mas no livro, não temos nenhuma pista de como a Outra Mãe conseguiu construir tudo e adivinhar o que Coraline queria, tanto é, que a Coraline do livro não se deixa encantar muito.

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Coraline é uma história sobre medo, coragem e enfrentar desafios. Na animação, o aspecto do horror, o medo pela figura da Outra Mãe e dessa incansável perseguição dela por Coraline é mostrado muito bem pela caracterização da própria personagem. A princípio a Outra Mãe era praticamente igual a mãe verdadeira da protagonista, exceto pelos botões. E conforme Coraline ia enfrentando e desafiando-a, sua verdadeira forma ficava cada vez mais clara, mais alta e mais deformada, até virar se tornar algo distante de um ser humano.

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Como no filme eles desenvolveram a narrativa de começo, meio e fim, cenas extraordinárias e interessantes que agregam para a construção de mundo da Outra Mãe, o tempo dos desafios e enfrentamentos finais que Coraline passa, achar as almas das crianças perdidas e seus pais é algo mais corrido e não tão gradual e lento como foram as primeiras visitas à Outra Casa. Porém não deixa de ser fiel e além de trazer todas as cenas importantes do enredo original, alguns elementos visuais como os vários insetos coloridos na sala de visitas e a própria aparência da Outra casa e da Outra Mãe no final contribuem para uma noção melhor da verdadeira forma da vilã e quais eram suas motivações.

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No livro, como a jornada para salvar seus pais e enfrentar a Outra Mãe são partes que tem mais destaque e foco no enredo, o teor da história se concentra muito na escrita de Gaiman e na percepção do medo pelos olhos da protagonista. Os personagens reforçam o quanto Coraline tem que ser esperta e inteligente para se salvar, porque a Outra Mãe não vai jogar limpo, mesmo que ela dê a sua palavra. E Coraline continua corajosa e astuta, criando soluções que a ajudam a se salvar de uma criatura que diz que a ama, e pode até ser verdade, mas a quer como uma posse e que não desistiria dela tão fácil.

Não estou apavorada, pensou e, ao pensar nisso, sabia que era verdade. Não havia nada que a amendrontasse ali. Aquelas coisas – mesmo a coisa na adega – eram ilusões feitas pela outra mãe em uma paródia terrível das pessoas de verdade e das coisas de verdade no outro extremo do corredor. Ela não podia realmente criar nada, Coraline concluiu. Podia apenas torcer, copiar e distorcer coisas que já existiam.

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É por isso que eu acho a história de Coraline tão interessante. Apesar de ter visto o filme algumas vezes antes de ter lido o livro e já saber o que iria acontecer na história, ainda sim me encontrei entretida e perdida nesse mundo surrealista e tão humano que Neil Gaiman e Studio Laika construíram. O horror não se dá somente na forma que a criatura Outra Mãe constrói tudo para levar sua presa a fisgar a isca, mas também na constante perseguição, necessidade e esse apego completamente não saudável da Outra Mãe ter a Coraline a qualquer custo e que também aterroriza a pequena heroína, com aquela sensação de que não conseguirá escapar. Mas ela continua enfrentando seus medos e usando sua esperteza para se salvar, sem nenhum tipo de poção mágica ou espada, apenas uma pedra com furo no meio para ver as coisas ruins, um gato à tiracolo dando aquela ajudadinha; mostrando ao leitor o quão forte você se torna e o medo muito menor quando você tem noção e percepção do que você está enfrentando e porque você está com medo. Assim, Coraline é um ótimo exemplo de heroína que salva a própria pele, além de amadurecer muito no fim da história e também perceber o quão interessante é sua verdadeira casa com seus pais verdadeiros, quando finalmente está de volta ao seu lar.

L.

 

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