Mãe!

Chegou na hora de falarmos aqui no Pavê Trevoso sobre um dos filmes mais controversos desse ano: Mãe! de Darren Aronofsky. Vendido por todo lado como um clássico filme de terror — o trailer mostrando paredes sangrando, Jennifer Lawrence gritando — não poderia ter feito um marketing mais errado. Ou talvez, era o único jeito como sabiam vender esse filme. Uma coisa é certa: eu nunca vi nada igual Mãe!

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Eu sabia que o marketing ao redor do filme já estava meio errado desde o começo porque duvidava muito que Aronofsky ia fazer um filme de terror com jumpscare e histórias clássicas de demônio ou fantasma. A sinopse de Mãe!, guardada a sete chaves durante toda a etapa de produção, revelava pouquíssimo sobre a trama e o que nos esperava — apenas que era a história de um casal cuja paz era interrompida quando visitantes chegavam em sua casa. A única coisa que consegui aproximar disso foi Funny Games, e esperei que fosse um terror psicológico desse estilo.

Conforme mais e mais polêmica foi criada ao redor do filme, tanto de aplausos quanto de vaias, minha curiosidade ia crescendo para assistir. Quando finalmente peguei meu ingresso para assistir no cinema, não era nada daquilo que eu pensei, mas também não era nada igual ao que eu já tinha visto antes. Mãe! é um filme único e fantástico, e ao mesmo tempo impossível de descrever para aqueles que não presenciaram esse espetáculo.

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#pracegover: a personagem da mãe, assustada, olhando para algo além da tela, enquanto o personagem Ele olha para a mesma coisa sem expressão.

Sem adentrar muito na área dos spoilers, adianto que é exatamente como a sinopse acima disse: um casal, composto por uma mulher jovem e um homem mais velho, mora isolado em uma casa no campo e sua paz é interrompida com a chegada de um homem estranho. A partir daí, vemos a narrativa entrar cada vez mais dentro de um pesadelo em que não há saída, uma verdadeira cena saída das pinturas do inferno de Dante. A sensação que o filme me passou é de agonia. Fiquei quase duas horas sentada com meus músculos tensos, me perguntando se haveria algum momento de descanso.

Não houve.

No entanto, Mãe! traz uma narrativa muito bem construída ao mesmo tempo em que um pouco doida ao redor das alegorias bíblicas e da relação do homem com Deus. Aronofsky não segura a mão ao mostrar cenas de agonia, de dor, e até mesmo de desgosto e nojo puro ao contar a sua história. Vemos o filme todo através do ponto de vista da personagem da mãe, interpretada por Jennifer Lawrence. A câmera frequentemente filma sua face, permitindo-nos ver as micro-expressões e uma atuação de tirar o fôlego por parte dela. A cada momento, vemos como a mãe se sente sobre todas as pessoas e sobre tudo o que está acontecendo, e as alegorias vão surgindo e se multiplicando a cada segundo do filme.

Uma das coisas mais interessantes também é que o filme é aberto o suficiente para permitir que cada espectador interprete de um jeito diferente. Enquanto alguns odiaram o filme pela agonia que ele traz, alguns outros amaram e puderam interpretar de jeitos diferentes. Discutir com os amigos a experiência desse filme foi uma das coisas mais enriquecedoras para o próprio filme — alguns interpretaram como sendo sobre um relacionamento abusivo, alguns sobre como o homem destrói a natureza, outros sobre a relação de Deus com o homem. E é ainda mais interessante ver que todas essas interpretações se encaixam muito bem dentro do filme, permitindo conter multitudes de coisas diferentes.

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Eu gostei muito de Mãe!. Achei que é um filme que tem coração e que não fica com medo de ser estranho e louco e deixar o espectador dentro de um pesadelo do qual não se pode escapar. A própria mãe, submissa, também tem muitas facetas diferentes. Tudo que ela quer é agradar o marido, e fica feliz com a menor das migalhas de atenção. As pessoas invadem sua privacidade, destroem parte da sua casa e tentam tirar tudo dela — e no entanto ela continua ali, com uma bondade óbvia e uma personalidade singela. Estamos bastante acostumados a ver “personagens mulheres fortes”, que não aceitam abusos e que estão sempre preparadas para bater de volta, mas a personagem da mãe é refrescante por causa disso. Ela é extremamente real. Uma pessoa que fica desconfortável, e no entanto, está eternamente fazendo sacrifícios em nome daquele que ela ama. É um relacionamento abusivo? É, sim. Mas também é uma forma de mostrar que a mãe é uma pessoa boa, e que a bondade é desvalorizada frente a todas as outras coisas.

Apesar de não ser nenhum filme de terror, há muitos elementos do horror presentes, e não podemos ignorá-los. Talvez até mais do que fantasmas, visitas inesperadas que não vão embora e invadem sua casa são realmente assustadoras, e Aronofsky trabalha isso com tantas alegorias que é impossível não se prender ao filme e ao que ele traz. Todos os atores são excelentes, embora tenha uma aparição de Kristen Wig que faz a audiência rir de nervoso, e sem termos certeza do que ela está fazendo ali. Admito que funciona para o filme, pois já estamos tão impressionados e sobrecarregados de informação que a surpresa ajuda a aumentar o desconforto do filme.

Há uma coisa quase mágica em Mãe! que permite adentrarmos dentro de um pesadelo, cujas imagens de um quase-inferno são perfeitamente visíveis, as experiências confusas e traumatizantes. Quando chegamos ao final, no grande clímax, é quase um alívio se não fosse o puro desespero e a tensão que acumulamos no corpo.

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#pracegover: a personagem mãe, com os olhos fechados, com as duas mãos em uma parede. Sua expressão é serena.

Tudo é muito bem feito, desde a fotografia que alterna entre tons claros para cenas de conforto da mãe, para tons sombrios e escuros nas cenas mais adequadas a pesadelos. A própria mãe não usa quase nenhuma maquiagem, mostrando assim que o filme quer passar a ideia de pureza para ela, e até mesmo todas suas roupas são em tons de branco e cinza claro — enquanto todos os outros são escuros. Outra observação interessante é o fato de que o filme não utiliza nenhuma trilha sonora, e assim consegue deixar o telespectador ainda mais tenso com o decorrer da história por se ouvir o menor barulho de um grampo caindo no chão durante o filme.

Não sei se veria o filme de novo pela agonia que ele me trouxe, pela própria sensação de nervoso que a narrativa passa. Saí do cinema sem fôlego e com as pernas tremendo um pouco, e sem ter certeza bem do que vi. Fico triste de o filme ter causado tanta polêmica e ter sido algo tão estranho que provavelmente não será indicado a nenhum prêmio, porque creio que Jennifer Lawrence deu uma das maiores performances de sua carreira com esse filme. Ao todo, é um filme imperdível e que nos deixa pensativos por semanas após assistir, sem inteiramente conseguir reunir todos os pensamentos em um post só.

Laura
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Escritora com um sonho distante de ter um diploma de faculdade. Fã de Hamilton e Star Wars. Lê muito e dorme pouco. Loka de muitas coisas.

 

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