Curtas WE ARE – Issa Rae Productions

Bom, hoje assim como no post do primeiro dia desse mês, eu trago 5 links de vídeos do Youtube maravilhosos, porém com uma proposta diferente. Já que sextou, que tal uma série de curtas para assistir?

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[Descrição da Imagem: sete mulheres (seis negras e uma latina) estão sentadas em cima de um tapete, no meio de um salão onde foi uma exposição de fotos e festa, e estão de braços extendidos brindando com copos de plástico vermelho, em tom de celebração e confraternização. Cena do curta We are – Everything, comentado no fim do post.]

Assim que assisti o primeiro curta da série WE ARE, me apaixonei instantaneamente. É produção de qualidade. É narrativa e roteiro trabalhados com tanta sutileza, presença, contemporaneidade e coração ao mesmo tempo. São histórias de milhares de mulheres negras – aquelas histórias que a gente não vê com frequência na TV – de cenas cotidianas sobre a vida, narrativas humanas, autênticas e muito reais.

Acho que essas últimas palavras definem muito. Não só eu, como milhares de pessoas (principalmente espectadoras negras que se identificam com as narrativas) sentimos algo de muito especial assistindo esses curtas. Algo que eu não tinha sentido antes em nenhuma produção que eu já tivesse assistido – e olha, eu assisto muita coisa, cresci fazendo maratona de filme! Na forma como os curtas são produzidos, todo o conceito ao redor do projeto, dá pra sentir que o objetivo é retratar histórias cotidianas e sensíveis que vão além dos estereótipos que costumamos ver e isso é muito claro porque tem MUITA autenticidade. Uma autenticidade tão única, presente, forte e sincera. Aquela sinceridade que bate na sua cara e ao mesmo tempo oferece um ombro amigo, pois a forma como os roteiros e as cenas são conduzidas – até mesmo a direção de arte, os locais bem iluminados, de cores pastéis e suaves, o figurino leve porém marcando a personalidade de cada protagonista – consegue retratar bem a complexidade do ser humano, a complexidade da vivência da mulher negra e como essa vivência é muito diversificada; e ao mesmo tempo deixa aquele sentimento de coração aquecido no final e a vontade de quero mais.

A série WE ARE é postada aos domingos desde outubro no canal da Issa Rae – uma mulher maravilhosa que não só fez sucesso com sua websérie Awkward Black Girl, lançou livro, tá aí produzindo e estrelando sua própria série pra HBO, como fundou sua própria companhia chamada Issa Rae Productions, enaltecendo milhares de profissionais não brancos, em sua maioria, pessoas negras. Admiro demais essa mulher, mas hoje o foco é outro, então não vou me estender muito (quem sabe eu faço um post sobre ela e outras produções da companhia em outro post?). Mas isso precisava ser dito, porque todo esse objetivo da Issa de enaltecer vozes negras abriu muitas oportunidades para muita gente. O que é maravilhoso e necessário, visto o quão majoritariamente branca, abusiva e racista Hollywood é, com o sucesso da sua plataforma ela abriu um espaço seguro para diversas histórias serem contadas. Se não fosse por sua plataforma, eu nunca teria descoberto WE ARE, nunca teria descoberto o #ShortFilmSundays e não teria conhecido essas produções incríveis.

Mas afinal, quais são os temas tratadas nos curtas? A série WE ARE é uma antologia que conta um pouco da vida de sete mulheres não brancas em Austin. A antologia possui narrativas de diferentes identidades e explora a perspectiva dessas mulheres como irmãs, amigas, artistas, amantes, mas acima de tudo, humanas. Temas como amizade, família, questionamento de identidade, insegurança e duvidar de si mesma são muito presentes nas histórias, que tal conferir algumas delas?

We are – Friends é claramente, sobre amizade. Este é muito real oficial (aliás, todos são). Sabe quando a vida está uma merda e as pessoas que você ama estão longe ou para se mudar? Pois então. O curta começa com uma das protagonistas pegando uma caixa repleta de objetos, com roupa de trabalho, e andando até o fim de um corredor. Depois ela está em casa, plena, dançando e extrazando as emoções, isso tudo trabalhado com muita sutileza. E aí aparece sua amiga (uma mulher latina) e elas tem um papo sério de sofá sobre dificuldades da vida e um momento bem de amiga, tô aqui pra te ouvir e te acolher, vai ficar tudo bem. A protagonista (aquela que começou dançando no curta) tinha planos pra fazer com a amiga e achava que as coisas iam melhorar. Até que sua melhor amiga solta uma bomba: ela vai se mudar para Wisconsin. E agora?

As cenas delas lidando com todos esses sentimentos de mudanças na vida e a falta que uma vai fazer na vida da outra e vice versa são muito verdadeiras. Recomendo demais. Amizade é um negócio complexo, mas também é lindo e maravilhoso, e é ainda mais lindo quando vemos mulheres não brancas se apoiando e se fortalecendo juntas.

We are – Sisters é mais do que um curta sobre irmãs, mas outros temas e sentimentos complexos que elas precisam trabalhar juntas. É um dos melhores, na minha opinião. São cenas das duas conversando e vamos percebendo a diferença de personalidade entre as duas, mas como também a falta de um pai presente as afetou. São conversas cruas, reais e os momentos das duas são muito coisa de irmãs mesmo. Nada do que eu falar vai fazer jus ao curta, porque a qualidade é imensa e expressa bem a complexidade de ser humano e relações familiares. E às vezes, ainda mais em cenas assim, cruas e jogadas na sua cara, com diálogos reais e naturais, cenas significativas e sensíveis, personagens imperfeitos e lidando com a vida à sua maneira são tão verdadeiramente humanas que não tem o que explicar, apenas sentir. (Por favor assiste, nunca te pedi nada!).

Vai ter mulher negra artista, sim! We are – Artists conta a história de uma fotógrafa tentando entender melhor a si mesma e como criadora. O curta começa com ela em uma sala de espera de uma clínica, aguardando uma sessão de terapia. Já começamos com uma personagem branca falando o por quê dela estar ali e mostrando o quão “fora do normal” era o problema dela. A protagonista explica que ela está ali porque está com depressão e se sente muito cansada mesmo depois de 15 horas de sono, e a mulher branca do lado já vem com aquele discurso “mas isso é mais do que suficiente, você deveria estar bem, isso não é nada, o meu é um problema sério” e blá blá blá.

Mas isso nem se compara com a sessão de terapia. O psicólogo branco além de não ouvir apropriadamente a sua paciente, comparava as inseguranças da protagonista com  as experiências de vida dele para explicar que é normal, sendo que não é uma comparação equivalente, pois a vivência como mulher negra (e artista!) tem uma carga muito grande (e muito maior do que um homem branco) devido à opressão, racismo e dificuldades que enfrenta a vida inteira. Caso você não seja familiarizado com esse assunto, recomendo esse vídeo da Gabi. Ela jogou um balde de água fria (não literalmente) sobre a realidade dela e ao invés dele ouvir e ajudar, ele simplesmente a dispensou. Essa narrativa é muito importante, real e necessária. Quando falamos de saúde mental, as discussões e produções para TV/cinematográficas são centradas em uma narrativa branca (e mesmo assim, ainda muuuito problemática). Quando uma pessoa não é branca (ou até pertence a outro grupo marginalizado) precisa levar em consideração o quanto essa vivência afeta como a pessoa vê a si mesma e é vista pela sociedade. Que pessoas não brancas também encaram diversos problemas e também precisam de atendimento de saúde mental humano e de qualidade. E em espaços embranquecidos como esse, ainda mais de saúde mental, precisa-se muito saber ouvir e respeitar a voz do outro e ter empatia. O que não foi o que aconteceu aqui e não é o que acontece em muitos casos. A cena foi tratada com um pouco de humor e de forma leve ao mesmo tempo que nos é lembrada essa realidade que é constantemente ignorada.

E peraí! Que essa foi só uma parte do vídeo, mas tive que comentar, porque né, um lacre desses! Sem ajuda profissional, sua mãe a ignorando, a personagem vai atrás de algum livro que possa ajudar – e olha só quem ela encontra lá, a irmã mais velha do curta We are – Sisters! Elas passam um tempo conversando juntas, a protagonista questiona se ela é mesmo artista e tem um papo sincero em que ela  fala sobre várias inseguranças em relação às suas fotos, a amiga, do jeitinho dela, a escuta e dá aquele empurrãozinho básico: amiga para de besteira que você tem um monte de foto, vai lá e faz sua própria exposição! Outro curta super real oficial e que tem mulheres se apoiando, além de trazer vários temas muito revelantes e trazendo uma narrativa que é não só dessa protagonista, como de muitas outras.

We are – Evolving é o mais curtinho de todos. Com menos que 4 minutos de vídeo e aproximadamente 3 minutos de narrativa, este conta muito em pouquíssimo tempo e pouquíssimas falas. A perspectiva de uma mulher jovem introvertida e insegura em uma cena clássica: várias roupas espalhadas pela cama, tentando decidir o que vestir. Uma fala marcante é “For my next act, I will atempt to socialiaze!” (Para o meu próximo ato, vou tentar socializar!). Enquanto a personagem experimenta vários modelitos diferentes, ela se olha no espelho e tenta encontrar com que estilo se identifica mais. É uma cena bem curta e muito simples, mas muito real e cotidiana, de usar esse momento de escolher a roupa como um viés para a busca da identidade e autoafirmação. Quem nunca? Um curta sincero e muito precioso.

Vamos finalizar com continuidade de narrativa e muita união entre mulheres? We are – Everything começa de onde terminou o We are – Evolving. Com a protagonista do curta Evolving andando na rua com o modelito que ela escolheu até uma casa. Depois a fotógrafa e a amiga( a irmã mais velha do We are – Sisters) também estão indo para a mesma casa e a irmã mais velha, Ronnie, diz que estão indo ver uma apresentação de uma banda de um dos colegas de trabalho dela. Até que elas entram e tem várias fotos em exposição em cada parede, sim!!! Aquela exposição de fotos da fotógrafa, que se chama Evelyn, que sua amiga sugeriu fazer. As duas amigas do primeiro curta também estão lá e também um casal de outro curta da antologia (We are – Lovers). Também tem cena da amiga introvertida tentando socializar, com direito a um pouco de humor e tudo. Esse curta foi como um fechamento da antologia, mas eu sinceramente espero que tenham muito mais curtas, porque tem muita história pra contar e porque já deixou saudades para todo mundo.

Evelyn (a fotógrafa de We are – Artists) faz um discurso belíssimo agradecendo a presença de todos, à exposição e diz o quanto está feliz por ver quem está naquela sala: várias mulheres não brancas, em maioria negras, de diversas personalidades e tons de pele diferentes, também tem a miga latina e até uma miga asiática como extra! Ela reforça em suas palavras, aquilo que deu pra sentir o que a antologia queria fazer desde o começo: abraçar a si mesma do jeito que é e a sua identidade. Vem a hora do batidão e todo mundo dança plenamente; pra finalizar, apenas as sete mulheres estão no salão, sentadas no chão e conversando como amigas, se amando e uma estando feliz pela outra pelas conquistas. Comentando que cada uma está seguindo um caminho diferente, mas para elas não deixarem que isso atrapalhe a amizade e que elas permaneçam unidas e façam mais reuniões assim, com direito a um trocadilho muito bom: vamos fazer igual aqueles filmes da Disney/ filmes de comédia romântica dos anos 90-2000 quando as pessoas faziam um juramento sagrado para todo mundo se ver de 5 em 5 anos, finalizando o curta com várias conversas paralelas e risadas, como sempre é uma boa roda entre amigas.

Este aqui juntou todas as outras narrativas, finalizou alguns ganchos soltos – como do curta We are – Artists e We are Evolving e trouxe algo mais: sororidade, união e aquela declaração forte de “vocês são maravilhosas como são” e um discurso feminista interssecional muito presente.

O projeto tem twitter, instagram e página no face, além de um site próprio com todo o conteúdo, equipe de produção e elenco. Se você se interessou, recomendo muito conferir as páginas – até para entender melhor a série e quem está por trás dela. Mais que cinco (ou seis) curtas, uma antologia. Recomendo demais e é tudo curtinho gente, bora assistir!

L.

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