Greenleaf: real demais para ser ignorada

No começo do ano, chegou à Netflix Brasil uma das séries mais polêmicas de 2016. Uma série produzida por ninguém menos que Oprah Winfrey e que aborda temas como pedofilia, corrupção, homossexualidade e religião. Porém, não vi muitas pessoas falando sobre ela.

greenleaf_serie

[Descrição da imagem: À frente, vemos duas garotas se olhando — Sophia e Zora, uma mulher (Mavis) as observa, enquanto um homem com vestes litúrgicas (Bispo James) está sentado numa cadeira imponente e segura a mão de uma mulher (Mae) que está em pé ao seu lado. Ao fundo, é possível ver um homem (Mac) olhando para o lado. De costas para a cena e encarando a câmera, encontra-se Grace.]

E é por isso que hoje, assim que terminar de ler esse texto, quero que você corra para a Netflix e assista a série Greenleaf, ela é real demais — e boa demais, pra ser ignorada.

Greenleaf é uma série de televisão exibida pelo canal OWN, que é comandado pela rainha Oprah, e é hoje o carro-chefe do canal, quebrando recordes de audiência dentro da OWN e com renovação garantida para a terceira temporada.

A série acompanha a história da família Greenleaf, considerada o padrão de excelência da sua comunidade. Eles administram a maior igreja da cidade, a Calvary — em português, “Calvário” que de acordo com a Bíblia é o local onde Jesus foi crucificado. Eu compararia a Calvary com o que é a Igreja Universal, aqui no Brasil.

O bispo da Calvary é James Greenleaf, logo muitos dos sermões são ministrados por ele. E o tema destes sermões é um que todos devem ter ouvido nas aulas de história sobre a Idade Média: a ideia de que se você é rico é porque Deus te abençoou. E para que Deus continue abençoando, você deve “investir” em Deus, ou seja, fazer doações à igreja.

Greenleaf aborda corrupção e um tema ainda mais delicado: fé. Todos os Greenleaf são pastores da Calvary, eles fazem parte igreja seja na administração ou na doutrinação e eles vendem para os fiéis essa ideia de que a prosperidade é uma benção divina e usam isso para lucrar.

OWN: Oprah Winfrey Network

[Descrição da imagem: Durante um dos sermões, o bispo James usa suas vestes litúrgicas e tem uma de seus braços erguidos enquanto fala.]

No Brasil já tivemos — e ainda temos, casos bem parecidos de igrejas que vendem relíquias que supostamente pertenceram a Jesus Cristo e seus apóstolos, ou escrituras e chaves que dariam acesso ao céu. Então o tema está bem próximo à nossa realidade, mesmo se não fizermos parte de uma instituição que pregue essa ideia.

Outro tema muito importante e que é o fio condutor da primeira temporada é a pedofilia. O piloto da série começa com Grace Greenleaf (também conhecida como Gigi) voltando à sua cidade natal para o enterro da irmã mais nova, que se suicidou — no cristianismo, o suicídio é considerado pecado, então toda a família age como se isso não tivesse acontecido.

Quando Gigi volta, ela começa a questionar as circunstâncias que levaram a irmã Faith a tirar a própria vida. E é então que o espectador descobre que Mac, um dos tios das garotas, abusou sexualmente de Faith, que era uma adolescente na época. E ela não foi a única vítima de Mac.

Na luta para fazer justiça por sua irmã, Gigi descobre que Mac costuma abusar de meninas que vão à Calvary. E quando estas meninas denunciam, os Greenleaf silenciam a vítima e a polícia com dinheiro, afinal eles são uma família poderosa, influente e cristã, que não pode ter a reputação manchada por um escândalo como esse.

34477_ep106_6_0590

[Descrição da imagem: Gigi está de pé, atrás do altar, olhando para um ponto além da câmera enquanto a sua família a assiste.]

Mas depois do que aconteceu com a sua irmã, Grace está decidida a não deixar que o mesmo se repita então ela vai atrás de tudo que possa provar que o seu tio vem abusando de várias meninas da congregação.

Além desses temas mais densos, Greenleaf também aborda os jogos de poder dentro da família; o bispo James tem clara predileção entre os seus filhos e então, os favoritos fazem sermões, ajudam a administrar a Calvary, enquanto os outros devem ficar nos bastidores.

Porém, em uma família que está acostumada com o poder, é claro que os Greenleaf não aceitam tudo isso calados. Existe uma competição entre eles, liderada por Charity que tenta sair da sombra de seus irmãos mais velhos — Gigi e Jacob, mas continua sendo tratada como uma criança pelo pai.

E ainda temos Kerissa, esposa de Jacob, que está sempre tentando fazer com que o marido se torne o favorito do bispo e quem sabe um dia assuma o seu lugar como chefe da Calvary; não importando para ela que o marido não tenha o menor interesse e nem leve jeito para o trabalho que deve ser feito.

Kerissa também é a diretora da Excellence Academy, escola frequentada por sua filha Zora e pela filha de Gigi, Sophia. A escola é um ambiente sufocante, que obriga os seus alunos a buscarem a excelência, mas não percebe que nessa busca, os métodos usados por eles podem não ser os melhores.

03-greenleaf.w710.h473.2x

[Descrição da imagem: Zora e Sophia estão sentadas olhando para um ponto além da câmera.]

O núcleo adolescente de Greenleaf é tão interessante quanto o adulto e consegue explorar bem a pressão a que os jovens são submetidos: sendo levados a acreditar que aqueles momentos no colégio, o livro que você não leu ou o exercício que deixou de fazer vão definir o seu futuro; e também, a pressão a que jovens submetidos a essa doutrinação religiosa passam.

Acredito que muitos dos personagens de Greenleaf acreditem naquela famosa frase: uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade; se eles fingirem ser bons cristãos, eles vão se tornar — ou pelo menos as pessoas irão acreditar nisso.

Existe uma briga entre os Greenleaf para mostrar quem é o melhor cristão: quem tem mais versículos da Bíblia decorados, quem faz os melhores sermões, quem vive de acordo com os mandamentos de Deus; mas nessa briga, eles se afastam da espiritualidade e pecam.

Greenleaf é uma série pesada, não é daquelas que você maratona enquanto come pipoca e toma um refrigerante; ela não é facilmente digerida, mas é necessária. Não só pelos temas abordados, mas também pelo fato de que o seu elenco é majoritariamente negro, seus produtores-executivos são negros e ela é exibida no canal cuja dona é uma mulher negra.

Cada episódio novo dessa série é um motivo para ser comemorado, e o fato dela ter sida renovada para a terceira temporada — com tantos elogios do público e da crítica, me deixam muito feliz e esperançosa. A narrativa é maravilhosa, o visual é lindo, as atuações são incríveis e se você ainda não abriu a Netflix pra conferir, corre agora!

Ainda temos muita coisa boa programada para esse Mês da Consciência Negra, e eu espero que você esteja acompanhando todos os posts que preparamos com o maior carinho. Agora, aproveita que hoje é sexta-feira pra começar a assistir Greenleaf! E depois conta aqui nos comentários o que você achou.

Rebeca de Arruda
meus textos | twitter | goodreads
Social Media, formada em Jornalismo, entusiasta do k-pop e doramas. Lê livros demais, vê séries demais e uns filminhos também. Não faz amizade com quem não curte k-pop. Vive para problematizar (e amar) a cultura pop.

 

Um comentário sobre “Greenleaf: real demais para ser ignorada

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s