A Trilogia Grisha: ‘young adult’ com uma nova perspectiva

Ao longo da existência do blog, já falamos várias vezes sobre livros do gênero YA, lançados recentemente ou não. Um dos gêneros que nós da equipe mais gostamos, tem sido bastante explorando na literatura mundial nos últimos anos, com muitas obras que, inclusive, chegamos a resenhar por aqui.

No post de hoje, mais uma vez trago uma recomendação de livros sobre fantasia – um dos meus gêneros favoritos de todos os tempos – e como a série A Trilogia Grisha, de Leigh Bardugo, apresenta uma perspectiva diferente do gênero young adult, fazendo parte de um movimento que traz mudanças significativas para a construção de histórias e seus respectivos personagens. Vem com a gente explorar esse universo fascinante!

007

A trilogia Grisha é uma série de três livros de YA de autoria da escritora Leigh Bardugo. Uma das obras mais influentes do YA atual, foi uma leitura que realizei alguns anos atrás e me marcou de maneira profunda. Leigh, juntamente com outras autoras como Sarah J. Maas e Maggie Stiefvater, compõem uma geração de autoras de YA que lançaram suas obras nos últimos seis anos e que acabaram ganhando notoriedade pelos elementos que empregam em suas histórias, essencialmente de fantasia, mas com universos próprios e fazendo uso de conceitos até então considerados abstratos, como magia, aventura e a dualidade entre luz e sombras.

Leigh, particularmente, o faz através da mitologia que desenvolve ao longo de suas narrativas, desafiando os limites de realidade e imaginação. Me arrisco até a afirmar que a sensação que ela transmite é a de que estamos presenciando uma espécie de conto-de-fadas, exceto que muito mais elaborado e desenvolvido, no qual não há uma donzela em perigo (embora haja, mais ou menos, príncipes encantados), e sim uma lutadora que enfrenta os perigos para defender aquilo no que acredita.

O primeiro volume, Sombra e Ossos, é o que inicia essa jornada por reinos distantes onde a fantasia se faz tão presente. Alina Starkov, a personagem principal, é uma cartógrafa de seu regimento militar que ficou órfã após a guerra e apaixonada por seu melhor amigo, Maly. Certa vez, ela precisa fazer uma viagem à Dobra das Sombras, uma faixa repleta de escuridão entra o mar e a terra e habitada por criaturas terríveis chamadas de “volcras”.

Após presenciar Maly ser atacado pelos monstros e ficar brutalmente ferido, seu instinto a leva a protegê-lo, quando inesperadamente ocorre a manifestação de um enorme poder que era de seu desconhecimento. A partir disso, é arrancada de seu mundo e levada à corte real para ser treinada como um dos Grishas, elite mágica liderada pelo Darkling que pratica a Pequena Ciência e divide-se em três ordens. Utilizando-se do poder de Alina, ele crê que poderá finalmente destruir a Dobra das Sombras. Agora, Alina terá de dominar e aprimorar seu dom especial e tentar adaptar-se à sua nova vida. Mas nesse mundo, tudo é enganável. As sombrias ameaças ao reino são crescentes, assim como a atração de Alina pelo Darkling, e ela acabará descobrindo um segredo que poderá dividi-la em dois, o que pode determinar sua ruína ou seu triunfo.

015

A princípio, a primeira coisa que me atraiu para essa série foi o fato de não se tratar de um enredo contemporâneo como é comum aos YA, e sim explorar um de seus subgêneros aproximando-se ligeiramente de obras igualmente fantasiosas, como Senhor dos Anéis e Harry Potter. Desde a contextura do reino até a introdução dos personagens principais e a apresentação dos Grishas, caímos de cabeça em algo que nos remete aos contos que líamos e ouvíamos na infância, como numa versão para adultos dessas mesmas fábulas. Porém não no mesmo estilo dos irmãos Grimm, apesar de quase tão sombrio tanto, e sim num estilo particular de Leigh que elabora, aplicando o fantástico e o mítico, todos os cenários característicos do universo que quer nos apresentar.

As construções de Alina e do Darkling também são diferenciais se comparadas às de personagens convencionais encontrados dentro do gênero YA, mesmo tratando-se de um subgênero. O prelúdio nos leva a, talvez, acreditar que será só mais uma história de romance com um enredo totalmente previsível, só que a história segue por um caminho oposto a esse, apesar de, no final, todos conseguirem o que desejam – literalmente. Alina aparenta ser uma personagem ingênua e facilmente influenciável diante do imponente Darkling, que possui um poder incontestável e está hierarquicamente acima de todos do reino, contudo, é apenas uma mera questão de tempo até que ela se compreende identicamente poderosa.

Durante os três livros, acompanhamos a evolução de Alina como personagem feminina que, ainda que cercada por um homem poderoso que pretende se aproveitar dela o máximo que conseguir, não somente detém o poder de escolha conforme o que julgar melhor para si, defende todo o reino praticamente sozinha, faz questão de aprender outras habilidades dos Grisha além da sua própria e de liderá-los, como também impõe-se como igual a ele a despeito de deter um poder maior. Ela constantemente arrisca-se pelo bem do reino ou de seus amigos e eventualmente repara que a única salvação da qual dispõe está dentro de si mesma. O começo do primeiro livro quase nos faz revirar os olhos com o pensamento de que ela seja outra personagem com o estereótipo de mocinha em meio a tantas, entretanto, conforme progride, ela nos prova que é, na realidade, uma heroína.

Outros destaques são, do mesmo modo, personagens antagonistas pertencentes ao grupo de amigos de Alina, dentre eles de diferentes etnias e alguns com representatividade LGBT, que são, em sua enorme variedade, igualmente cativantes e importantes para o enredo. Em diversas ocasiões, Alina continua seguindo em frente com a ajuda e por causa deles. Um deles é Nikolai Lantsov, que ocasionalmente rouba um pouco do protagonismo de Alina nos fazendo adorar que ele esteja lá, e outra é Genya Safin, forte, destemida e corajosa como Alina, que desafia o Darkling e todas as ameaças que estão à sua frente.

015

Em contrapartida, conhecemos o Darkling, que atende ao estereótipo de vilão. Anteriormente, ele está em uma posição de maior poder com relação à Alina. Ao ver-se ameaçado pelo crescente poder que ela manifesta, passa a tentar convencê-la a agir em seu favor. Ele não é o tipo de vilão convencional; seus planos não ficam claros de imediato, e ao meu ver ele é, inclusive, um personagem mais bem-desenvolvido do que a Alina. No decorrer da série, nos envolvemos profundamente com este personagens e seus ideais sobre o mundo em que ele e Alina vivem.

 

Entretanto, nada naquele mundo é exatamente o que parece ser, e de monarca que almeja a proteção de seu povo, ele passa a ter seus planos maléficos revelados pouco a pouco. Interessantemente é que não só conhecemos mais a fundo e nos atraímos mais pela origem do Darkling, como discernimos os conceitos de luz e sombras apresentados pela autora – ela novamente foge do padrão, nos levando a enxergar que ambos não se tratam de conceitos crus e abstratos, mas que cada um tem suas respectivas nuances e que nem tudo que é luz traz o bem, que nem tudo que é sombras traz o mal; e que ambos podem, sim, conviver em perfeita harmonia.

Assim, passamos a entender suas motivações e pensamentos que acarretam suas ações e até mesmo a simpatizar com ele. No final da contas, o Darkling e Alina rumam em direções praticamente contrárias, com perspectivas e propósitos diferentes. Todavia, Leigh Bardugo não deixa de nos presentear com um excelente encerramento para a série, no qual ambos ganham os desfechos que ambicionavam.

A trilogia Grisha foi uma leitura que realizei em pouco mais de um mês, e que recomendo incansavelmente pela facilidade com a qual a história flui diante dos nossos olhos. Quando nos damos conta, já terminamos o primeiro volume da série e mal podemos esperar para conferir o segundo. Desse imenso sucesso surgiu uma série derivada, chamada Six Of Crows – passada no mesmo reino e paralelamente ao enredo da trilogia Grisha, com personagens diferentes, excluindo o Nikolai, que faz uma pequena participação. Independentemente de não possuir relação direta com a trilogia Grisha, somente mostrar as consequências dos eventos ocorridos na mesma, a leitura vale igualmente a pena. E as duas séries só nos deixam ansiosos para mais lançamentos incríveis da Leigh Bardugo aqui no Brasil.

Beatriz
meus textos | tumblr | goodreads | instagram
Contadora de histórias que sonha em viajar o mundo e estudante de Direito no resto do tempo. Viciada em séries e em pesquisar sobre mitologia.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s