Os Últimos Jedi e a Reconstrução de um Herói

star-wars-the-last-jedi-imax-poster-m8-1440x900Se você me viu nas últimas semanas, é possível que nós tenhamos parado em um assunto em comum: Star Wars. Se você me viu durante minha vida, isso também é possível —  Star Wars é um dos meus assuntos favoritos e recorrentes, e minha saga favorita de cinema. Então é óbvio que eu estava lá na pré-estreia e prontíssima pra aproveitar cada segundo que o filme fosse me dar.

Enquanto eu amei O Despertar da Força por me trazer uma heroína com um sabre de luz e dar início a nova parte da saga, acho que Os Últimos Jedi me trouxe uma coisa que eu estava aguardando há muito tempo e eu nem sabia. Esse post contém muitos spoilers, então se não viu o filme, não leia o post abaixo.

Não podemos dizer que Star Wars é sempre uma narrativa brilhante e cheia de nuance. Temos as prequels pra provar que apesar de tentarem contar uma história boa, fazem isso de forma um pouco capenga, e sem tentar passar o seu ponto corretamente. No entanto, elas ajudam também a construir Os Últimos Jedi (que eu irei abreviar como TLJ pra esse post), e na forma em como vemos os heróis.

Eu sempre amei Luke Skywalker, e sempre vou amar. Ele é um dos meus heróis de infância, alguém que conseguiu fazer o impossível e trazer Darth Vader de volta. Ele é bom sempre, uma pessoa que acredita no poder da conversão e no bem geral, e alguém sempre pronto a salvar seus amigos e família. Em TLJ, temos Luke, o salvador da galáxia… e bem, alguém que cometeu um erro terrível e preferiu ficar quinze anos isolado em uma montanha a ter que enfrentar o que aconteceu.

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O fato é que TLJ destrói tudo que aprendemos sobre os heróis e sobre as lendas. Star Wars sempre foi sobre o legado dos Skywalker e dos Jedi. No entanto, quando encontramos Luke no filme, ele se tornou distante e se recusa a treinar uma próxima geração de Jedi, vendo que toda a Ordem Jedi e sua maneira de ser na verdade estavam equivocadas. Uma das minhas cenas favoritas no filme é Luke discutindo que ele acreditava que era infalível justamente por ter obtido sucesso com Darth Vader — ele ajudou a trazer um dos maiores Sith e dar o arco de redenção, e por isso se tornou uma lenda.

O problema é que Luke também falha de novo, e a reação dele ao perceber o crescente lado negro em Ben Solo é de imediatamente tentar impedi-lo — considerando matar o seu sobrinho. É claro que tudo dá errado: Ben acorda e vê o tio segurando um sabre de luz sobre sua cabeça, e faz o que qualquer adolescente de quinze anos faria: sai correndo. Luke não consegue conviver com essa enorme falha, e o fato de ter perdido Ben e todos seus estudantes.

Rey, chegando em Ahch-To, não sabe de nada disso. Ela apenas vê Luke como a lenda que todos enxergávamos antes, e fica desapontada quando ele se recusa a ir e restaurar a esperança na galáxia com a Ordem Jedi. É isso que o sabre de luz estendido significa — não só um convite para treiná-la, mas um convite para retornar a luta. E Luke recusa isso logo de cara. Ele falhou, e não consegue pensar na possibilidade de falhar novamente.

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Crescemos com Luke Skywalker como nosso herói, e neste filme, descobrimos que ele não é nada mais que outro ser humano, também digno de falhas. TLJ consegue apontar o problema de endeusar heróis e deixar que se tornem lendas, a ponto de se acreditarem infalíveis. O choque de Rey ao descobrir que Luke não é nada mais do que uma pessoa que também está cheia de falhas mostra isso — e também o fato de Luke não acreditar que seus erros possam ser redimidos. Luke aceita sua morte mais facilmente do que tentar corrigir seus erros.

É claro, tudo isso corrobora com a tese de que a Ordem Jedi não passa de um bando de burocratas. Apesar de não serem exatamente de grande qualidade, as prequels mostram exatamente isso. Há apenas dois requisitos para se treinar um Jedi: ter menos de cinco anos, e ter poder sobre a Força. É só isso. Ninguém se pergunta se é viável e a criança é emocionalmente estável para o treinamento — e o fato é que os Jedi sempre se isolaram, procurando manter-se no lado correto da Força, e se recusam a dar apoio emocional em forma de relacionamento, e também a discutir coisas como o medo e a raiva, que classificam como apenas algo do lado negro — erro que se prova fatal tanto no caso de Anakin Skywalker e de Ben Solo.

Luke comete os mesmos erros dos Jedi ao reproduzir o mesmo sistema e acreditar que a Força deve ser separado em algo branco ou preto. Quando ele finalmente vai a ilha, seu desejo é morrer, e que os Jedi e seus ensinamentos caiam em esquecimento, porque se falharam uma vez, falharão duas ou mais.

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Uma das melhores partes do filme pra mim não é apenas essa desmitificação do herói e da infância, mas também o fato de que Rey, apesar de ver outro ser humano falível, consegue ainda assim ter a esperança de que há tempo pra consertar os erros do passado. Ela sente ainda o conflito em Ben e está disposta a ir até ele para conseguir salvá-lo, tal qual fez Luke com seu pai. Quando Rey descobre a verdade e enfrenta Luke por ter tentado assassinar seu sobrinho, ela ainda oferece Luke uma segunda chance — novamente, ela estende o sabre de luz, dizendo que está esperando que ele volte a ser o grande Luke Skywalker.

E mais uma vez, o peso das escolhas de Luke se mostra ali: ele se recusa a pegar o sabre. Rey vira as costas e resolve salvar Ben sozinha, e Luke é deixado na ilha. Determinado a deixar os Jedi morrerem de uma vez por todas, ele vai atrás de queimar os textos sagrados e a árvore original dos Jedi, talvez assim dando de uma vez por todas o final que ele quer.

É aí que entra uma das cenas mais fantásticas feitas em Star Wars. Yoda aparece em sua forma de fantasma da Força, e ele ajuda Luke a destruir os textos. Luke, mais uma vez incerto, com suas falhas o atormentando, não sabe como prosseguir. E é Yoda que diz que uma das coisas mais importantes que os professores devem passar a seus alunos são suas falhas. Se Luke se recusasse a mostrar suas falhas, Rey jamais poderia aprender.

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Quando chegamos ao final do filme, temos um Luke Skywalker que ainda consegue ser um herói, construído aos poucos — não aquele herói de lendas fantásticas que todos escutam na infância, mas um herói que é um ser humano normal. Que comete falhas e erros, e que tenta consertá-los. Os Últimos Jedi mostra que até lendas podem falhar, e subverte esse e tantos outros conceitos que aprendemos a ver em Star Wars.

Star Wars sempre foi sobre tentar recuperar a humanidade daqueles que a perderam. Primeiro com Anakin e Darth Vader, e agora com Ben. Quando colocamos Luke no holofote contando sua história e o que levou ele a fazer essa escolha, conseguimos humanizar um vilão e criar uma história com nuance o suficiente para entender os dois lados e como eles chegaram naquele momento. Até então, quase toda a Força era concentrada nessa ideia de branco/preto, como se fosse uma dicotomia, até chegarmos nesse último episódio e finalmente compreendermos. Que não existe só o branco e só o preto, mas uma série de tons de cinza entre eles, e que dentro desse universo e da Força, o importante é encontrar um equilíbrio.

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A partir do momento em que Os Últimos Jedi destrói Luke Skywalker, o filme constrói todos os heróis novamente, desde o começo — mostrando que nem sempre são as lendas que salvam o mundo, mas aqueles que estão dispostos a estender uma mão e tentar ainda consertar as falhas deixadas para trás, e moldando uma nova jornada do herói. Quando ele destrói Luke Skywalker e seu heroísmo, o filme traz um novo Luke — um Luke capaz de aprender com seus erros e falhas. Um Luke capaz de ser não só um herói, como alguém melhor.

Talvez alguns reclamem que faltou alguma coisa, que infâncias foram estragadas com essa reviravolta de planos. Mas pra mim, Star Wars apenas mostrou que consegue contar uma história com ainda mais profundidade nesse último filme, e que nos deixa reflexivos depois que saímos do cinema.

Em uma coisa não falha — ser um herói para esse universo não é combater aqueles que odiamos, mas salvar aqueles que amamos.

Que a Força esteja com você.

Laura
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Escritora com um sonho distante de ter um diploma de faculdade. Fã de Hamilton e Star Wars. Lê muito e dorme pouco. Loka de muitas coisas.

 

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