Deus Salve o Rei: Expectativa x Realidade na nova novela da Globo

deus salve o rei

Semana passada, a Globo estreou a mais nova novela das 19h, Deus Salve o Rei. Inspirada na era medieval, a novela na verdade não se prende a nenhum período ou reino real, o que dá uma liberdade enorme para todo mundo envolvido na sua criação – é só dar uma olhada nos vestidos esvoaçantes da princesa Catarina, personagem da Bruna Marquezine, pra ter uma ideia.

Em época de Game of Thrones, era esperado que muita gente gritasse que a inspiração veio da série famosona da HBO e que a Globo estava é querendo chamar a atenção desse público fazendo uma versão brasileira, mas foi só assistir o primeiro capítulo pra ver que as semelhanças eram poucas. O que, particularmente, me deixou meio aliviada. Em parte porque eu nunca cai no hype de GoT. Em parte porque eu li a trilogia sobre o rei Artur do Bernard Cornwell em uma época formativa da minha adolescência e depois me afundei ainda mais nesse buraco quando me apaixonei pela reinvenção do medievalismo literário no sertão brasileiro em Grande Sertão Veredas (juro que não estou ficando louca).

E, por fim (e principalmente), porque eu queria uma coisa bem brasileira, bem nossa, e uma novela das sete seria perfeita para nos dar exatamente isso.

Só que não foi bem o que aconteceu.

Vamos lá – quais novelas das sete famosas você se lembra? Cheias de Charme, Cobras & Lagartos, Da Cor do Pecado, O Beijo do Vampiro, Uga-Uga, Kubanacan – e isso pensando só nas lançadas a partir de 2000 (ou seja, as novelas que eu lembro/assisti). Vocês tão sentindo um padrão? Além da Taís Araújo ter aparecido em praticamente todas elas (obrigada, Taís Araújo), elas foram todas novelas animadas, meio bobas até, mas bem brasileiras. Elas eram nossas. Parece bobo dizer isso, mas quando eu olho pra Deus Salve o Rei, pelo menos nessas duas primeiras semanas, eu não sinto muito isso. É como se eu estivesse assistindo um seriado gringo em que as pessoas convenientemente falam a mesma língua que eu, com uns efeitos especiais com cara de série de super-herói da DCTV (que, por sinal, eu amo).

cheias de charme

A minha expectativa pra Deus Salve o Rei era diferente da realidade que nós recebemos. Eu já sabia o que esperar de uma novela das sete, mas eu também queria uma adaptação do mundo medieval mais brasileira. A gente não teve isso aqui no Brasil, pelo menos não do jeito que a Europa teve e que é tão famoso e difundido (e a culpa não é só de Game of Thrones, nós sempre amamos essa era medieval), então por que repetir essa mesma fórmula na novela em vez de adaptá-la? O meio pra isso, uma novela das sete!, era perfeito. Olha essa oportunidade!

No final do ano passado, o Felipe Castilho (a gente já falou dele aqui no blog, lembra?) lançou Filhos da Degradação, o primeiro livro da Ordem Vermelha. A história é uma alta fantasia que se passa em um mundo fictício e foi mega divulgada na Comic Con Experience em São Paulo (eu tava lá no primeiro dia e foi lindo). Apesar de eu adorar livros que se passam no período medieval, eu não sou muito fã de alta fantasia (ó lá, Game of Thrones), mas peguei o livro pra ler porque o Felipe é um dos meus autores brasileiros favoritos. E, gente, eu amei.

Ordem Vermelha é alta fantasia, diferente de Deus Salve o Rei, mas o primeiro consegue usar a nossa brasileirice de uma forma muito bonita e bem sutil, ao mesmo tempo que está bem NA CARA. Desde adaptações da capoeira até o ciclo de vida de uma das raças criadas pelo Felipe que misturam elfos e sacis e curupiras de um jeito que funciona, o tempo todo a gente encontra uma coisa aqui ou ali que grita folclore e cultura brasileiros. E era isso que eu estava esperando dos reinos de Montemor e Artena. Talvez eu ainda esteja meio influenciada pelo Felipe Castilho (leiam Ordem Vermelha e O Legado Folclórico!!), mas era isso que eu queria.

deus salve o rei 2

(Ok, vamos dar os devidos méritos. Teve uma coisa que a novela acertou, pelo menos – o plot principal de Deus Salve o Rei gira justamente em torno da falta de água que Montemor passa. E a gente bem sabe que não existe nada mais paulistano do que isso.)

Infelizmente, não é só nisso que a novela decepciona. Pega o elenco principal (e até mesmo o secundário e os figurantes). Agora me diz: Por que só tem personagem branco nessa novela?? Até agora, só apareceu UMA personagem negra e ela é, adivinhem, uma mulher que vive isolada no meio da floresta e é curandeira e vidente. Chamada Mandingueira (uma palavra cuja conotação não é lá tão positiva), ela apareceu uma única vez pra dar bronca no príncipe Afonso depois dele ficar um tempo longe do reino, se recuperando de um ataque e se apaixonando pela Amália, personagem da Marina Ruy Barbosa. A cena do encontro dos dois tem um ar místico (a mulher aparece do nada enquanto umas músicas tensas tocam ao fundo) e sua fala e suas roupas são enigmáticas, sem contar que ela supostamente prediz o futuro. Ou seja, é o mesmo padrão de personagens não-brancos estereotipados tão presentes na nossa teledramaturgia. Para quem quiser assistir a cena pra ver sobre o que eu estou falando, ela está disponível no site da Globo.

A desculpa de que pessoas não brancas não existiam no período medieval é tão batida que nem vale a pena se aprofundar nisso. Diversos estudos provam que elas estavam lá, sim. E tanto Montemor quanto Artena são reinos fictícios, nunca existiram. Se os roteiristas podem criar reinos inteiros, por que parar por aí? Por que não trazer diversidade às nossas telas, incluir mais da metade da população brasileira ali, trazer atrizes e atores não brancos para papéis importantes?

De todas as licenças poéticas que Deus Salve o Rei poderia usar, desde personagens usando palavras que não existiam na época (qual época, afinal de contas?) até a limpeza e os modos dos personagens (o que, vamos lá, condiz com a nossa cultura – PELO MENOS NISSO), a liberdade na escalação dos personagens poderia ajudar (e muito) a dar profundidade para a história. Em um mundo fictício, onde Montemor e Artena existem, é preciso criar uma identidade própria. Personagens não brancos, elementos tirados da nossa cultura e do nosso folclore e até mesmo o problema com a falta de água ajudam e aprofundam isso.

A nova novela das sete é uma produção br que não se apresenta totalmente como tal. Tem muita oportunidade perdida no meio disso tudo e tem muita coisa a melhorar. Tá certo que a gente não deveria ficar muito surpreso depois de casos como Luis Melo sendo japonês em Sol Nascente, lá em 2016, além de muitos outros, mas ainda sim dá pra esperar (e pedir por) mais. Dá pra ser melhor. A versão atual de Malhação, Viva a Diferença, tá indo muito bem, por exemplo. Tanto Montemor quanto Artena, os dois reinos de Deus Salve o Rei, constantemente mencionam seus famosos aliados e inimigos sem o público nunca chegar a ver quem eles realmente são. Quem são essas pessoas que as duas famílias reais tanto falam? Será essa a oportunidade para inserir diversidade e uma realidade mais a nossa cara, mesmo num mundo medieval? A gente fica no aguardo.

Emily
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Graduada em Letras. Ama monstros e cachorros e, principalmente, lobisomens. Puxa o erre, adora parênteses e quase nunca usa o plural direito.

 

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