Você conhece a lenda do Ipupiara? Um conto por H. Pueyo

Se você é desses que adora ouvir histórias cheias de brasilidade, com lendas e criaturas do nosso folclore brasileiro, veio ao lugar certo.

O post de hoje é o conto “Ipupiara”, escrito pela H. Pueyo e publicado na 15ª edição da revista Trasgo – uma revista online trimestral de contos de ficção científica e fantasia, trazendo sempre autores e artistas brasileiros. A Mamá já falou deles nesse post, sobre o projeto de trazer o material em meio físico também.

Para quem está se perguntando quem é Ipupiara, é claro, recomendo muitíssimo a leitura do conto. Mas só para dar uma contextualização, é uma espécie de monstro marinho que fazia parte da mitologia de dos povos tupis que habitavam o litoral do Brasil no período de colonização. Diz a lenda que ele foi encontrado e morto na capitania de São Vicente. Tanto é, que tem uma estátua lá da figura até hoje. A Sol até já mencionou isso no twitter uma vez.

E que meio mais divertido, intrigante e fascinante conhecer lendas brasileiras por meio de uma história? Em um jeitinho bem brasileiro? O conto do Ipupiara escrito pela H, Pueyo começa com dois homens, Isidoro e Andirá, no período de Brasil-Colônia. Isidoro, um português recém chegado e coletor de impostos, contratou Andirá, cabloco e filho de um bandeirante, para leva-lo ao interior, com o intuito de apadrinhar o filho recém-nascido de uma prima.

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[Descrição da imagem: Ilustração do Ipupiara, com forma humana e o tronco fora da superfície, no meio de um rio com uma cachoeira, rochas e galhos de árvore ao seu redor. Arte por Dante Luiz.]

Desbravando terras cercadas de matagais e um calor danado, os dois alcançam metade do caminho, porém as coisas começam a desandar. Andirá, sendo habitante local, encontra-se confuso e sem ter certeza do caminho que devem percorrer. O cavalo de Isidoro está ofegante, cansado e com a pata machucada. É então que eles se separam – Andirá fez um trato para voltar todo o percurso já feito e voltar com um novo cavalo, enquanto Isidoro (um europeu um tanto presunçoso e nada bobo) ficava ali parado esperando e descansando. Afinal, ele já era um homem de certa idade.

Bom, mas se esse é um conto que envolve o Ipupiara, é claro que essa decisão de se separar não foi nada sábia. E ainda, Andirá seguiu muito desconfiado e alertou Isidoro para esperá-lo e não sair dali, mas é claro que se isso tivesse acontecido, não teria história.

Eu gostei muito desse conto, não só por ver a figura do Ipupiara em forma de história, pois amo folclore brasileiro, como também ter realizado a leitura todinha através da escrita da Pueyo. A contextualização local de cenário, clima, matagal é muito boa e combinada com a caracterização dos personagens e o percurso da história, você sente bem aquela vibe de lenda brasileira cabloca no interior na qual um português presunçoso e um tanto “fascinado” pela nova terra se dá muito mal por não ter dado ouvido ao alerta do bandeirante.

Após Isidoro sair do local onde devia permanecer quieto e parado, ele caminha ansioso e distraído, ofegante, procurando por rio e água, onde seria mais fácil de conseguir seguir até o seu destino, do que no meio do matagal abafado, úmido e presente por todo o lado. E no meio disso, a gente acompanha toda a fascinação dele pelo local, com aquele olhar de apreciador-porém-colonizador muito sutil, o que dá um aspecto muito verdadeiro para o personagem. Até que é claro, ele escuta uns cantos e pensa, alguém está aí, eu vou pedir ajuda! E bom, perderia toda a graça se eu contasse o que aconteceu depois.

Mas toda a construção de narrativa é feita de forma muito intrigante até atingirmos o clímax do conto, além do Isidoro ser um personagem que dá para reconhecer por completo, a iniciativa lenta porém sagaz da interação entre Ipupiara e Isidoro cria tanto uma curiosidade como um divertimento inteligente em ler, o clássico do predador atraindo a presa com uma isca. Amei também como o Ipupiara não é nada bobo e sabe muito bem o tipo de gente que é esses portugueses recém-chegados, como pode ver nesse trechinho:

— Tenho minhas dúvidas sobre isso. — Os olhos dele pareciam não ter cílios, e a pele brilhava na clareira. O rapaz olhou para cima, para o céu negro e estrelado. — Terão os invasores suficiente sensibilidade para qualquer tipo de coisa bela?

Foi a vez de Isidoro de estufar o peito para frente.

— Acha que somos todos brutos?

— Não acho! — A água agitou-se debaixo do mais moço, como se peixes passassem entre as pernas que não via. — Tenho certeza.

Se te interessou, o conto está disponível para leitura aqui. Com uma caracterização inteligente de personagens, uma narrativa intrigante, um contexto super brasileiro do começo ao fim, esse conto traz a história de uma figura marinha, agora muito esquecida, mas também não ignora o período de colonização do país e o que isso significou, de forma sutil porém clara, sem deixar de dar destaque para a figura principal da história e aquele jeitinho brasileiro no final, quando Andirá voltou para a vila e contou a todos o horror que havia presenciado.

A H. Pueyo tem outros trabalhos também, vale a pena conferir. Na mesma edição da Trasgo ela deu uma entrevista, o que é sempre interessante de ler também, fica aí uma dica extra pra você (todos os autores e artistas dão na verdade). E pode encontrá-la aqui também.

Vou ressaltar aqui que essa arte maravilhosa e linda que ilustrou esse post é do Dante e você pode conferir o trabalho dele  e acompanhá-lo no twitter, vai prestigiar esses dupla pois o trabalho de ambos é incrível e de uma qualidade imensa, inclusive com publicação conjunta em algumas antologias gringas.

Bom, fico por aqui, e é claro, cuidado com o Ipupiara, nunca se sabe.

L.

 

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