Tartarugas até lá embaixo é o melhor livro de John Green, mas ainda tem problemas

Um dos desafios da dor, seja física ou psíquica, é que só conseguimos nos aproximar dela através de metáforas. Não temos como representá-la como fazemos com uma mesa ou um corpo. De certo modo, a dor é o oposto da linguagem.

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[Descrição da imagem: Num fundo branco, aparece em destaque a capa do livro “Tartarugas até lá embaixo”, de John Green. A capa é bege e tem uma espiral na cor laranja afunilando-se enquanto chega à extremidade da capa. Ainda, é possível ver o selo da Editora Intrínseca e, também, ao lado do nome do autor, lê-se “autor de A culpa é das estrelas”.]

Resolvi começar o post de hoje com essa citação de Tartarugas até lá embaixo, do John Green, porque ela sintetiza o que é esse livro e o que John Green tenta fazer ao longo de suas 266 páginas.

Vi tantas críticas e amigos elogiando e afirmando que esse é o melhor livro de John Green que não tive como evitar me encher de expectativas. Então fui ler Tartarugas até lá embaixo torcendo para ser tudo que eu esperava.

O livro conta a história da Aza Holmes, uma adolescente com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), e que sai em busca de um milionário desaparecido. Se você focar apenas na sinopse pode pensar que esse é um livro de mistério, mas se conhece um pouco sobre os outros livros de Green vai saber que não é bem assim.

Assim como em Cidades de Papel, outro best-seller do autor, o mistério é apenas um pretexto para questionamentos filosóficos e que levam a uma busca muito mais existencial do que literal. No caso de Tartarugas até lá embaixo, Aza busca por si mesma enquanto segue a sua espiral de pensamentos que se afunila cada vez mais e vai tornando a vida da garota cada dia mais caótica.

O TOC de Aza faz com que a todos os momentos ela seja confrontada com a sua mortalidade. Aza acredita que o seu almoço vai causar uma infecção intestinal que vai levá-la à morte, ela passa boa parte de seu tempo desinfetando um corte por medo de uma infecção que pode causar a sua morte… E ela questiona quem está controlando os seus pensamentos? Se não ela, então seria Aza de fato uma pessoal real?

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[Descrição da imagem: Num fundo branco, aparece em destaque a parte traseira do livro “Tartarugas até lá embaixo”, de John Green. A capa é bege e tem uma espiral na cor laranja afunilando-se enquanto chega à extremidade. Nela, lê-se: “é muito raro encontrar quem veja o mesmo mundo que o seu”.]

John descreve as crises (ou espirais, como ele chama) da protagonista com tal maestria que leva o leitor a se afogar nos pensamentos da garota. A escrita de John Green é com certeza um dos pontos altos aqui. Por isso, acho importante avisar que existem muitos momentos que podem servir de gatilho pra quem tem TOC e ansiedade, e podem desencadear pensamentos ruins então cuidado.

Para aqueles que seguirem em frente com a leitura acho que os momentos que citei acima vão ser uma boa surpresa — de reconhecimento ou de compreensão. Livros como Tartarugas até lá embaixo são importantes por trazerem representações de como é viver com transtorno mental; é, no presente mesmo, porque como disse John Green: “as pessoas querem que narrativas sobre transtornos mentais sejam no passado. Mas na maioria do tempo, não é.”

Mas se vamos falar de representação, um ponto que o próprio autor gosta de frisar e até já se envolveu em campanhas sobre, é importante falar sobre a falta de diversidade nos livros de John Green em geral e que se repete em Tartarugas até lá embaixo.

Apesar de sempre se mostrar disposto a debater e dar espaço para autores que trazem diversidade para a literatura, John Green não parece fazer o mesmo em seus livros. Mais uma vez temos muitos personagens brancos e classe média.

Podemos ver que Green está tentando trazer mais diversidade ao introduzir Daisy, a melhor amiga de Aza, que questiona a amiga sobre seus privilégios e, que pelo seu sobrenome — Ramirez, parece ser latina. E enquanto esse é um bom começo, eu confesso que estava contando com mais.

É ótimo ver que o livro foca em amizade e família ao invés de romance, que existe (ainda que pouca) discussão sobre privilégios e que não temos mais um homem branco como protagonista falando sobre o seu amor por uma garota que pela forma como é descrita nem parece real. Esse avanço foi ótimo, mas queremos mais; principalmente na questão de raça, gênero e sexualidade.

Tartarugas até lá embaixo traz muita coisa boa e a sua narrativa que parece mais um estudo de caso do que uma história propriamente dita torna todos as espirais de Aza ainda mais reais, ele é daqueles livros que vai te deixar com um aperto coração. Mas John Green ainda precisa desenvolver mais alguns pontos se está mesmo disposto a explorar as tartarugas até lá embaixo.

Rebeca de Arruda
meus textos | twitter | goodreads
Social Media, formada em Jornalismo, entusiasta do k-pop e doramas. Lê livros demais, vê séries demais e uns filminhos também. Não faz amizade com quem não curte k-pop. Vive para problematizar (e amar) a cultura pop.

 

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