A humanização dos monstros

Estava sem ideia para um post essa semana então resolvi entrar em um dos meus assuntos favoritos: vilões. Eu sou facilmente uma daquelas pessoas que torce mais pro vilão do que o mocinho na maioria dos filmes, e que fica desapontada quando não é dada a devida atenção aos vilões de uma narrativa (estou olhando pra você, Marvel). O fato é que vilões sempre me interessaram, talvez da primeira vez que assisti Star Wars com uns quatro anos e o Darth Vader apareceu, e acho que é importante discutir porquê.

“Ah mas Laura eu não acredito que você vai defender vilões nesse post!!!”, eu ouço sua indignação vinda do além e cruzando todos os planos metafísicos pra chegar em minhas orelhas.

Alto lá, camarada. Eu não disse defender. Mas eu queria discutir um pouco do porque às vezes nos apegamos mais a eles do que aos mocinhos.

Quem me conhece já deve ter me ouvido comentar sobre os gostos literários e cinematográficos do meu pai. O fato é que no geral ele não assiste filmes de super-herói. Ele acha que é tudo sem graça e tudo igual. O único filme que eu genuinamente lembro dele gostar de assistir nesse gênero foi X-Men, e por uma coisa: o Magneto.

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O Magneto é na minha opinião um dos vilões mais bem construídos das narrativas ficcionais, não só porque ele tem uma história muito boa e motivação, mas porque ele é tão bem construído que acabamos muitas vezes torcendo por ele.  Aí está um segredo de um bom vilão. Se ele consegue fazer com que ignoremos todos os nossos códigos morais e éticos que a sociedade dita para ficar do lado dos vilões, ele cumpriu seu objetivo.

Por mais que os mocinhos muitas vezes sejam chatos, nem por isso de fato torcemos para o vilão ganhar. Talvez alguns de nós (eu, rs), mas na maioria das vezes, é bem claro que o vilão quer conseguir alguma coisa completamente contrária ao bem do planeta: morte de pessoas, destruição, caos, governar o mundo, etc etc. Há raramente alguma novidade aí que torne a história tão diferente, e por mais que talvez os mocinhos nem sejam interessantes, normalmente continuamos torcendo para que o mundo não acabe e não aconteça o pior.

E no caso, o que faz o Magneto exatamente diferente? Porque torcemos pra ele, ou pro Loki, ou às vezes até mesmo pro Darth Vader? O que faz com que esses vilões especificamente sejam vistos como algo diferente?

Acho que uma boa parte dessa reflexão vem também por detrás da filosofia dos monstros dentro da literatura. Monstros são coisas horríveis, que não são naturais, assustadoras e mortais. E no entanto, devoramos histórias com vampiros, lobisomens, fantasmas e bruxas com um apetite voraz. Há algo interessante em ver uma história monstruosa, algo de estranho que nos atiça a curiosidade. Talvez até mesmo um interesse mórbido, sendo que os monstros são quase sempre associados com a morte, mas ainda assim contam histórias interessantíssimas. Guillermo del Toro que o diga.

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Um dos meus quotes favoritos que descobri nessa busca foi:

Desenhe um monstro. Agora, porque ele é um monstro? – Janice Lee

O fato é que não temos sempre uma boa definição do que significa ser um monstro, e talvez nem sempre também o que significa ser um vilão. O que faz de um monstro ser um monstro? É ele parecer diferente? É ele atacar humanos? Ou vai além disso?

Para vilões, é a mesma coisa. O que faz o vilão ser um vilão? É simplesmente opor o mocinho? É querer destruir uma ordem, algo que já exista, ou vai além disso? O que faz dos monstros e vilões em si serem monstros e vilões, e porque muitas vezes uma história não está completa sem nenhum deles?

É claro que sem alguém para opor os mocinhos, a história na maioria das vezes nem aconteceria. Qual seria a jornada de Harry Potter sem o propósito de derrotar Voldemort? Praticamente nenhuma. Seria um adolescente normal que aprende a ser bruxo na escola, e acabou por aí. Muitas vezes quem faz a qualidade da história não é o mocinho, e sim o vilão. É ele que determina o que está em jogo dentro da narrativa, é ele que determina o pior cenário. Sem o vilão, não temos a história.

Em uma das entrevistas que li com George Lucas, uma coisa em particular me chamou a atenção — ele insistiu em falar que não tem interesse em contar histórias sobre pessoas genuinamente boas, mas em vilões que estão tentando ganhar de volta a sua humanidade. E acho que é uma das coisas mais interessantes que se pode dizer sobre um vilão: ele não é apenas alguém que se opõe ao mocinho, mas também uma peça chave no quebra cabeça, um humano como qualquer outro.

São essas características extremamente humanas que fazem com que entendamos os personagens. De fato, nem sempre necessariamente torcer por eles, mas a compreensão e a compaixão. Magneto, por tudo que ele passou em campo de concentração. Loki, sendo levado como refém para morar no palácio onde sempre ficou a sombra do irmão sem sequer compreender porque. Anakin Skywalker, por estar disposto a fazer tudo pra salvar aqueles que ama.

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Há uma coisa fascinante nesse tipo de iniciativa, de recuperar aquela humanidade que foi perdida. Quando tentamos buscá-la ali naquelas mentes sombrias, às vezes o que encontramos é esse pequeno reflexo de nós mesmos. O que nos faz compreender então que de fato, também são humanos. É assustador poder olhar no espelho e também ver que ali você pode encontrar alguma coisa monstruosa. O que são vilões, se não monstros na pele humana?

É essa certa humanidade concedida que muitas vezes nos faz torcer por eles. Identificar-se com as motivações, entender porque aquilo está conhecendo, mesmo que nem sempre concorde com o método. Entender uma dor e uma vingança que nem sempre é a sua, e reconhecer aquelas falhas muito humanas, aquelas quebras que também te assustam. É ver o pior de um ser humano refletido ali, e ainda assim poder torcer para que ele volte a luz. Porque se damos uma chance aos vilões, talvez nós mesmos tenhamos essa esperança de mudar e voltar. Essa chance de encontrar a ‘luz’.

É fácil dizermos que todos os vilões são monstros. É fácil poder olhar e negar que neles há também um pedaço de humanidade. Mas ao mesmo tempo, creio que é muito mais humano você poder olhar e reconhecer — isso também faz parte de mim.

É por isso que gosto dos vilões.

Laura
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Escritora com um sonho distante de ter um diploma de faculdade. Fã de Hamilton e Star Wars. Lê muito e dorme pouco. Loka de muitas coisas.

 

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