A temporada de premiações e os mesmos problemas de sempre

Chega essa época do ano e muita gente só consegue pensar em uma coisa: temporada de premiações. Esses primeiros meses são marcados pela presença de muitas cerimônias de premiações, principalmente cinematográficas. Pra quem é apaixonado por cinema, esse é o momento perfeito pra olhar as listas de indicados e fazer aquela maratona maluca. Por muito tempo eu fui uma dessas pessoas, mas estamos em 2018 e é muito cansativo ignorar todos os problemas. Vamos conversar um pouco sobre isso?

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Eu não vou trazer nenhuma reflexão inovadora no texto de hoje. O tema que eu vou discutir aqui já foi abordado exaustivamente, mas acho que é sempre bom repetir, ainda mais quando parece que tudo caminha com passos de formigas (quando caminha). É cansativo falar sobre isso, porque a gente sabe que muitas pessoas não vão se importar, mas quando continuamos tendo premiações e filmes majoritariamente brancos sendo enaltecidos e celebrados, a dor que nós, não brancos, sentimos em ver essas narrativas que ignoram a nossa existência é mais real do que muitos de vocês gostariam de saber.

Falando de uma perspectiva mais particular, eu estou completamente cansada de assistir filmes brancos. Isso é algo que vem me incomodando há muito tempo, claro, mas quando você não faz parte desse grupo de pessoas consideradas padrões, parece que quanto mais o tempo passa, menos paciência você tem pra isso. Até uns dois ou três anos atrás eu ainda tava lá, assistindo todos os filmes indicados ao Globo de Ouro, Critics’ Choice Movie Awards, SAG, BAFTA, Spirit Awards, Oscar… Completamente dedicada em consumir essas ficções que deviam ser importantes já que estavam nessas listas sendo prestigiadas. Mesmo antes disso, minha vida toda foi sempre repleta de produções brancas (da Sessão da Tarde ao filme alugado na locadora). Eu não vou entrar em detalhes sobre como isso influenciou e marcou minha vida, assim como a de muitas pessoas não brancas, mas a questão é que esse holofote focado sempre em filmes brancos é muito nocivo pro desenvolvimento da nossa identidade. E, pensando nisso e no ápice do meu cansaço por filmes sempre desse jeitinho, eu decidi que em 2018 só vou assistir filmes não brancos.

Com esse pensamento, como encarar a temporada de premiações, algo que eu sempre adorei?

2016 foi um ano que se falou bastante sobre a presença exagerada da branquitude nas indicações (quem não lembra do #OscarsSoWhite?), uma discussão que marcou bastante a premiação naquele ano. Tanto que no ano seguinte se viu muito mais filmes com representatividade em quase todas as categorias, muitas pessoas não brancas levando a estatueta, até mesmo o prêmio mais cobiçado, o de melhor filme, foi pra uma produção não branca (mesmo nas circunstâncias em que foi). Deu aquela pontada de esperança e a alegria de ver filmes não brancos ganhando mais espaço em uma premiação tão importante pro mundo do cinema. Então é claro que 2018 veio com os indicados no mesmo nível do ano passado, né?

É, pois é, não aconteceu. Ainda temos algumas produções e atores não brancos indicados, mas, num geral, tudo continua muito branco. A categoria de melhor atriz, por exemplo, tá composta apenas por mulheres brancas. É bem triste que isso aconteça quando temos uma presidente da academia sendo mulher negra (Cheryl Boone Isaacs) e quando já fazem 16 anos que a PRIMEIRA mulher negra recebeu o Oscar nessa categoria (sempre é bom reassistir o discurso da Halle Berry falando sobre como esse momento abriria as portas para outras mulheres negras e apenas sofrer, rs).

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Eu não gosto menos de filmes, eu só acho importante fazer a escolha de focar em produções que não são mais do mesmo, sempre perpetuando o mesmo discurso e dando voz pras mesmas pessoas. Eu não gosto menos nem da temporada de premiação em si, eu ainda gosto muito, na verdade, mas eu acho importante fazer a escolha de não gastar meu tempo ou prestigiar de forma alguma (nem mesmo assistindo) produções que decidem que minha existência não é importante o suficiente para ser premiada ou retratada. Mas essa é uma escolha consideravelmente fácil para mim, mulher não branca, fazer, já que é da minha vida que tô falando. Enquanto isso, pras pessoas brancas, a vida segue normalmente.

Não é que eu esteja querendo dizer o que os outros devem ou não assistir, cada um vê o que quer e ninguém tem nada com isso. Mas a gente precisa entender que o Oscar é tão branco por um motivo. O Oscar é muito branco, porque a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é muito branca. E todos os filmes brancos que são indicados são prestigiados não só por essas pessoas, como por um público. A indicação exagerada de obras focadas em um padrão social imposto parte também do fato dessas obras serem facilmente consumidas pelo público. Até mesmo aquele público que pensa “é problemático mesmo só ter branco nesse filme”, mas que acaba assistindo e financiando mesmo assim. Alinhar discurso e ação é algo muito importante na melhora de cenários como esse, então se você assistir um filme de duas ou três horas que só tem pessoas brancas e não bater aquele incomodo (provavelmente porque você continua se enxergando ali), lembra que esse filme que você tá vendo tá excluindo a existência de seus amigos não brancos e que precisamos parar com o discurso “só tem branco mesmo, mas…”.

É muito difícil se animar com um Oscar que não tem uma mulher não branca indicada para melhor atriz. Um Oscar em que provavelmente quem vai ganhar melhor diretor vai ser um homem branco, enquanto Dee Rees nem ao menos foi indicada, apesar do sucesso de crítica que tá sendo Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi (em breve, na Netflix mais perto de você). Nem mesmo as duas mulheres negras indicadas para atriz coadjuvantes dão esperanças de uma estatueta. Você pode questionar (de uma forma totalmente inocente e ignorante, com certeza) que isso não importa, ganha quem fez o melhor trabalho. Gostaria eu de viver em um mundo em que pessoas não brancas tivessem as chances de serem julgadas apenas pelos seus talentos, mas sabemos que não é o que acontece. Em um mundo assim, o prêmio de melhor filme desse ano com certeza já seria de Corra!, o que eu duvido muito que aconteça (porém, estou sempre pronta e vou ficar feliz em estar errada).

Como eu disse, apesar de ainda bem branco, entre os indicados aos Oscar desse ano ainda tem lá algumas indicações que fogem desse padrão e acho importante a gente prestigiar, torcer e focar nesses trabalhos.

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Primeiro a gente tem o melhor filme de 2017, Corra! (Jordan Peele), protagonizado e dirigido por homens negros e que traz uma discussão incrível sobre racismo dentro de um thriller angustiante. Indicado ao Oscar de melhor roteiro original, melhor diretor, melhor ator e melhor filme.

Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi (Dee Rees), um filme com protagonismo negro e dirigido por uma mulher negra, é um drama baseado no livro de Hillary Jordan que conta a história de dois veteranos da Segunda Guerra Mundial que vão viver numa fazenda que ainda segue leis racistas. Aqui no Brasil o filme vai primeiro pros cinemas (dia 15 de fevereiro), mas logo depois chega na Netflix (dia 22 de fevereiro) pra todo mundo poder apreciar essa obra que parece lindíssima. Indicado nas categorias de melhor roteiro adaptado, melhor fotografia (tendo a primeira mulher indicada nessa categoria), melhor atriz coadjuvante e melhor canção original (com Mighty River, da Mary J. Blige).

Também temos um documentário de um diretor trans negro, Strong Island (Yance Ford). O filme vai falar sobre o assassinato do irmão do próprio diretor e de como isso impactou toda sua vida e sua família. Yance Ford é o primeiro cineasta transgênero indicado ao Oscar. Você pode correr agora mesmo pra Netflix e assistir esse documentário.

Indicado na categoria de melhor ator temos o já merecidamente premiado Denzel Washington, dessa vez pelo filme Roman J Israel, Esq. (Dan Gilroy), que conta a história de um advogado que vê outros sempre tomarem créditos por seu trabalho até o momento que tem a chance de ocupar um lugar melhor na firma em que trabalha. Outro filme com apenas uma indicação é Marshall (Reginald Hudlin), dirigido e protagonizado por homens negros e indicado por canção original (com Stand Up For Something, do Common e da Diane Warren e interpretada por Andra Day), um filme biográfico sobre a vida de Thurgood Marshall, o primeiro juiz negro da Suprema Corte dos Estados Unidos.

Na categoria de melhor animação temos dois filmes com protagonistas não brancos. Um deles é Viva – A Vida é Uma Festa (Lee Unkrich), a indicação desse ano da Pixar/Disney e provável vencedora, um desenho que se passa em uma cidade fictícia do México e fala do Dia dos Mortos. O filme também foi indicado para melhor canção original (com Remember Me, de Robert Lopez e Kristen Anderson-Lopez). A outra animação é The Breadwinner (Nora Twomey), que conta a história de uma jovem vivendo no Talibã controlado pelo Afeganistão que precisa se vestir como um menino pra poder trabalhar e ajudar sua família.

Também temos Doentes de Amor (Michael Showalter), indicado na categoria de melhor roteiro original, em que um dos roteiristas e protagonista é um homem paquistanês-estadunidense, Kumail Nanjiani, e a história do filme é baseada em um fato real de sua vida. Por último temos A Forma da Água (Guillermo del Toro), o filme com mais indicações esse ano (13 indicações), que apesar de ter uma protagonista branca, é dirigido por um homem mexicano (ainda branco, mas latino em contexto gringo, apesar da sua passibilidade branca por lá) e – o motivo que coloquei o longa aqui – com uma atriz negra como coadjuvante e indicada por seu trabalho nesse filme (apesar de que, aparentemente, Octavia Spencer, atriz que dá vida à amiga da protagonista, não aparecer tanto assim no filme, o que me deixa frustrada e me faz questionar muito a colocação dele no meio desses outros filmes, até por isso ele está por último, rs. Mas, enfim, tá aí pra não dizer que não falei dos peixes).

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Basicamente, são esses os filmes que eu acho importante da gente destacar e torcer muito pra termos mais pessoas não brancas ganhando e sendo indicadas. Esses são os filmes que não podemos deixar de ver e que precisam receber mais atenção.

É claro que essa discussão toda parte de um ponto bastante passional pra mim, mas isso não torna a reflexão menos importante. Na verdade, torna ainda mais, porque é muito fácil estar numa posição de privilégio e continuar consumindo tudo isso numa boa sem perceber quem tá magoado a sua volta, então é legal parar e ouvir essas vozes. Por isso, tenta ficar mais atento nos filmes que você consome (não só filme, como livros, séries etc). Se você tá assistindo algo que só tem gente branca, o que é uma representação muito perversa da realidade, por que não tentar procurar coisas diferentes pra ver, apoiar, divulgar? Que tal deixar um pouco de lado produções extremamente brancas? Falando como alguém apaixonada por filmes e pela temporada de premiação: não vai matar ninguém e nem vai doer em você deixar pra lá filmes indicados que continuam seguindo esse padrão, juro mesmo.

Eu ainda acredito que tudo isso pode melhorar. Sou bastante otimista, porque se eu não fosse já teria desistido há muito tempo e nem estaria escrevendo esse texto. E, mesmo assim, volta e meia, quando eu vejo a quantidade de atores, diretores e filmes brancos que são exaltados durante essa época, deixando de lado obras de pessoas não brancas, eu fico bastante desanimada. Afinal, quando o assunto é premiações, a gente ainda vive no mundo em que Lemonade não levou álbum do ano no Grammy, não é?

Eu sigo tentando acreditar numa melhora, mesmo que as palavras de Jay-Z pareçam cada dia mais verdadeiras:

Estamos presos em La La Land.
Mesmo quando nós ganhamos, nós perdemos. (x)

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Sol
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Escritora de histórias bregas e especialista em procrastinação. Apaixonada por cultura pop, acredita que toda história tem potencial pra ser uma boa comédia romântica e tá sempre pronta pra indicar uns chás.
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