O Sonho da Sultana: Primórdios da ficção científica feminista

“Se você diz não, eu sei que é não (ô se é não).

E que só é sim, se assim você disser.

Não importa o que é que você vai vestir,

eu não vou te tocar sem você consentir.”

(Marchinha de Carnaval “Se você quiser”, disponível aqui)

Aproveitando o post de hoje para começar desejando que estejam passando um ótimo Carnaval, seja como tiverem escolhido curtir o feriado, festejando nas ruas ou aproveitando um descanso em casa! E, claro, lembrando que apesar da linda festa que o povo brasileiro promove nesses dias, é também um momento que muitas contradições e problemas da nossa sociedade podem ficar mais evidentes, então é importante que continuemos na luta nesses momento para garantir um momento divertido para todos, sem preconceitos (atenção para as fantasias desrespeitosas!), sem assédios, enfim, deixando todas e todos festejarem em paz apenas com muita alegria!

Inclusive hoje temos uma resenha que nos ajuda a refletir sobre algumas das opressões em nossa sociedade, advindas do sistema patriarcal que vivemos. Trata-se de resenha sobre o conto O Sonho da Sultana, da autora Roquia Sakhawat Hussain, da região que à época era chamada de Bengala (tendo sido dividida posteriormente tornando-se parte da Índia e Bangladesh). Originalmente publicada em bengali em 1905, a obra é considerada uma das precursoras da ficção científica feminista e foi disponibilizada em português gratuitamente, em 2014, pelo projeto Universo Desconstruído (tradução por Lady Sybylla).

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Tanto o conto quanto sua autora tiveram grande importância histórica, tanto para a literatura de forma geral, considerando seu êxito em utilizar o gênero da ficção científica para refletir a temática feminista, quanto para a própria luta pelos direitos femininos em países muçulmanos. Além disso, há grande contribuição para a literatura bengali, considerando que, apesar da língua ter sido tida como menos culta do que o árabe ou o persa, foi justamente a escolha da autora para suas obras, considerando ser a melhor forma de democratizá-las e atingir a maior quantidade de gente.

Falando da história em si, O Sonho da Sultana surpreende ao relacionar tão bem um ideal utópico de sociedade com o fato de mulheres estarem no poder. O êxito desse tipo de recurso pode ser demonstrado pela relativa popularidade atual do uso de inversão de papéis de gênero para realizar a crítica da sociedade patriarcal. Assim, o conto tem grande parte da sua importância no fato de ter sido um dos precursores de maior repercussão.

Nele, vemos uma sociedade que parece não só um paraíso para as mulheres por não mais estarem subjugadas aos homens, mas também um paraíso em diversos sentidos, com usos mais racionais e cuidadosos dos recursos naturais e financeiros, de uma ética mais justa no tratamento da violência, entre diversas outras questões. É como um manifesto cuja leitura, embora de poucas páginas, nos faz mergulhar realmente em sonhos de um mundo melhor.

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Isso tudo é pincelado com críticas ferrenhas às escolhas que os “homens” fazem por estarem no poder, bem como aos argumentos que demonstrariam a suposta inferioridade da mulher, aplicando simples lógica. Um exemplo engraçado é quando se cita a justificativa da opressão baseada em uma ideia de mulheres terem o cérebro menor do que homens: o argumento é rapidamente rebatido considerando o cérebro de elefantes. Ora, sendo bem maior do que o dos homens, não deveriam então eles serem mais inteligentes? É nesse tom ácido e bem humorado que a autora nos faz passear pelos absurdos da desigualdade de gênero e por outras possibilidades.

Já citei o site onde a obra está disponível traduzida, mas é interessante acrescentar que o projeto Universo Desconstruído também disponibilizou uma pequena versão impressa do conto. Todas essas versões podem ser encontradas no mesmo site.

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Marina
meus textos | filmow | skoobMilitante do Levante Popular da Juventude, de esquerda, feminista, lésbica e afrontadora da família tradicional brasileira. Nas horas vagas, estuda Direito, devora quadrinhos, lê livros, assiste filmes e algumas séries.

 

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