BoJack Horseman: vida adulta e o preço da fama

Algum tempo atrás, publiquei um post (você pode conferir aqui) com cinco indicações de sitcoms que nós do blog vimos e recomendamos. Dentre essas indicações, uma série em específico está entre minhas favoritas: Bojack Horseman.

Já tem uns meses que estava querendo escrever sobre essa série aqui no Pavê, desde que terminei de assistir todos os episódios disponíveis. Mas por se tratar de uma obra sobre a qual pretendia realizar uma reflexão mais aprofundada, resolvi esperar pelo momento certo. E ele finalmente chegou através dessa Sexta Livre. Então vem com a gente conhecer um pouco mais sobre o mundo dos desenhos adultos e acompanhar essa resenha detalhada!

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Você provavelmente já deve ter assistido o famigerado desenho Os Simpsons, certo? Um gigantesco fenômeno da cultura pop e também um de seus predecessores, arrisco afirmar, Os Simpsons é uma obra revolucionária em muitos sentidos, incluindo ter sido o primeiro desenho adulto a alcançar reconhecimento mundial e se consagrar por mais de vinte anos. Assim, criou-se uma onda com demais títulos como Family Guy, South Park, Beavis e Butthead, American Dad, entre outros.

Apesar de Os Simpsons ser assistido por todas as idades, ele se encaixa em uma categoria diferente dos programas infantis. Se trata de um desenho adulto, ou seja, traz representações fiéis de assuntos relativos à vida adulta utilizando-se de grandes quantidades de humor e até do nonsense. Assim chegamos em BoJack Horseman, pertencente ao mesmo gênero e relativamente recente, mas tão impactante quanto.

BoJack Horseman é um desenho adulto que não apenas trata de temas bastante maduros e atuais como também o faz através do humor nonsense e críticas extremas ao mundo das celebridades. O personagem principal, Bojack (Will Arnett), é um sujeito metade humano e metade cavalo, alcoólatra e ator que lida com a depressão. Devido ao seu estado e vício em bebidas, ele tem dificuldade para arranjar trabalho e voltar a se destacar como fazia na sitcom fictícia que o tornou mundialmente famoso, Horsin’ Around. No início da trama, Bojack planeja um triunfal retorno à relevância de celebridade com uma biografia, que conta tudo que ele dita para sua ghostwriter, Diane Nguyen (Alison Brie). BoJack também tem de lidar com as demandas da Princesa Carolyn (Amy Seradis), sua agente; Todd (Aaron Paul), seu colega folgado, e o Sr. Peanutbutter (Paul F. Tompkins), um cão de uma sitcom dos anos 90 com uma premissa semelhante a Horsin’ Around.

Diferentemente do que estamos acostumados a ver em obras do gênero, BoJack é a primeira sitcom que critica abertamente Hollywood pelo ponto de vista de alguém que está dentro do meio. Logo, já somos introduzidos ao universo da série com um choque de realidade, pois nos deparamos com um personagem que, dentro de seu próprio programa, é depressivo, tem dificuldade para arranjar emprego, tornou-se esquecido pelo público que um dia o aclamava e sofre tentando lidar com as crises da meia-idade.

Ao relembrarmos assuntos abordados em desenhos adultos, é comum virem à nossa cabeça acontecimentos como o divórcio, a saída da casa dos pais, ter filhos, realizar-se profissionalmente (ou não), etc. Ou seja, mesmo mostrando nosso cotidiano e que as coisas não são exatamente um mar de rosas, no final tudo sempre acaba bem sem nenhuma complicação extra. Já Bojack Horseman se aprofunda em tudo isso, e traz uma premissa distinta. Seu realismo se dá quando são colocadas em pauta questões como o desemprego, a saúde mental, casamento, problemas familiares e abuso de drogas. E ela ainda vai além abordando o dia-a-dia daqueles que tanto idealizamos e mostrando as verdades que não queremos – ou não conseguimos – enxergar.

BoJack é um retrato real da depressão e do transtorno de ansiedade e quanto essas duas doenças pode, influenciar negativamente na vida de uma pessoa. Elas o impedem de ter disposição para cuidar de sua saúde física, escrever o seu próprio livro, e retornar ao que realmente ama fazer: atuar. Certamente nós, como admiradores da cultura pop, somos fãs de muitos artistas, chegando até mesmo a idealizá-los como se não fossem tão sensíveis e falhos como qualquer um de nós. A obsessão com Hollywood e a “vida glamourosa” das celebridades nos faz esquecer que por traz daquelas figuras públicas que estão frequentemente na mídia existem seres humanos que possuem emoções, vidas, pensamentos e rotinas super além do que deixam transparecer nas telonas.

Por isso, ignoramos que alguém que esteja em uma posição que julgamos tão relevante possa sentir-se infeliz, desenvolver doenças mentais, e ter dificuldades para encontrar-se na vida. Na atualidade houve mudanças nesse quesito quando vieram à tona as acusações contra Harvey Weinstein e outros abusadores poderosos – o que nos tirou um pouco do estado de transe, mostrando como Hollywood é, de fato, um ambiente hostil.

Ainda assim, o baque das críticas proporcionadas é certeiro e necessário, uma vez que insistimos em acreditar que não há nada de ruim ou errado na vida de um famoso, e que Hollywood influencia diretamente para que seja dessa forma. Não obstante, a crítica é igualmente direcionada às celebridades que fazem de tudo pela autopromoção, passando até por cima dos amigos verdadeiros. Em um episódio, BoJack rouba a letra “D” do letreiro de Hollywood e ninguém parece nem reparar, tão logo adotam o nome de Holywoo. É assustador poder constatar o que essas pessoas tão idealizadas mundo afora são capazes de realizar pelos seus quinze minutos de fama. O preço da fama, aliás, se evidencia como algo extremamente tóxico, autodestrutivo e que corrói aos poucos.

Há dois questionamentos que surgem ao longo dos episódios: até que ponto nos focamos nas vidas vazias desses desconhecidos e por quê isso deveria influenciar nas nossas? Em BoJack Horseman, essa superficialidade é evidenciada pela rotina de festas que o personagem-titulo leva, com quase nenhum trabalho, uma busca incessante pela fama sem esforço algum e apenas um resto de talento. Eventualmente, o vazio cede espaço para comportamentos nada saudáveis, como o abuso de bebidas e de drogas e o sexo descompromissado que acaba comprometendo suas relações pessoais românticas.

Nada de novo quando se trata de celebridades – nos deparamos, por exemplo, com a construção de uma das ex-colegas de BoJack como uma paródia grotesca da atriz Lindsay Lohan quando começou a ser perseguida pela mídia devido a suas idas e vindas de festas e problemas com drogas, deixando seu talento completamente de lado. Tais encenações não são raras na série, que conta com “participações especiais” de Andrew Garfield, Daniel Radcliffe, Paul McCartney, etc. E um pequeno adiantamento: eles não são quem a gente imagina.

Entretanto, ainda que tratando de temas relativamente pesados, raríssimas são as ocasiões nas quais o tom da sitcom se torna sério, ou nos quais não notamos que se trata de uma série de humor. Na minha experiência pessoal, não consegui passar um episódio sem rir. Fora isso, as sátiras constantes nos pegam de surpresa e nos provocam risadas e reflexões ao mesmo tempo, em um clima descontraído e engraçado. Um dos fatores mais interessantes em BoJack é o de que humanos e animais dividem o mesmo espaço, ocorrendo, inclusive, a junção de ambos – o próprio BoJack é uma mistura de humano e cavalo, o Sr. Peanutbutter, de um cachorro com um humano, e por aí vai. É hilário, se você parar para pensar sobre, que uma galinha que estava indo para o abate e fugiu do caminhão acabou se tornando a melhor amiga de um dos personagens recorrentes.

Agora entramos no âmbito da representatividade, bem-vinda a qualquer momento e indispensável em uma sitcom com um alcance tão enorme como BoJack Horseman. Primeiro de tudo, um dos motivos para eu ter começado a assistir essa série foi por ter visto notícias de que havia representação assexual de um dos personagens que integra o elenco principal. Como uma assexual que dificilmente vê qualquer representação sobre a sua sexualidade na cultura pop em obras que não sejam independentes, senti a necessidade de começar a acompanhá-la para ver como o tópico se desenrolaria. E, assim como aconteceu com todos os tópicos que já citei acima, a representatividade de um personagem assexual nessa série foi a melhor que conferi até hoje.

O elenco principal é extremamente bem-desenvolvido com o passar das temporadas, com cada um buscando a si mesmo individualmente, sem que isso signifique ter que se encontrar nos outros. Porém, o desenvolvimento do personagem Todd Chavez (Aaron Paul) me chamou a atenção por ser totalmente desacelerado e significativo. Todd passa a série inteira morando no sofá da casa de BoJack, tempo no qual temos a chance de conhecer sobre quem ele é e descobrimos seu desinteresse em sexo e relações sexuais, o que fica evidenciado pelas relações que ele experienciou no passado. Isto é, antes de concluir o modo como se sentia, ele experienciou observar a situação por um ponto de vista e comprovou que seu pensamento inicial estava correto.

Não é, nunca foi e nunca será requisito se relacionar romanticamente com uma pessoa para constatar sua assexualidade. Mas, no caso de Todd, foi o que o fez aceitar-se da maneira como ele é. É bastante relevante que a terminologia correta é utilizada na série e os personagens realmente dizem, com todas as letras, a palavra assexual, sem tratá-la como se fosse um bicho de sete cabeças. Pelo contrário, a evolução de Todd consta com uma naturalidade gritante, com a total compreensão de BoJack quando resolve contá-lo sobre sua descoberta, e com este fazendo parte de um clube para assexuais.

Cada personagem tem uma história de fundo intrigante e diferenciada, lidando aos seus modos com os acontecimentos comuns a seus cotidianos sem que nenhum deles seja estereotipado pelas características de suas personalidades. O personagem Todd Chavez (Aaron Paul) é latino. As duas mulheres que compõem o elenco principal, Princesa Carolyn (Amy Sedaris) e Diane (Alison Brie), são personagens femininas fortes e em nada se parecem. A Princesa Carolyn torna-se financeiramente independente ao sair do emprego que a deixava insatisfeita e abrir a própria agência de atores que ela mesma gerenciava. Ela encontra sua felicidade no amor e no trabalho, toma as próprias decisões, e não permite que nada a impeça de fazer o que quer. Diane é igualmente independente e decidida. Ela é a ghost-writer contratada por BoJack para escrever sua biografia e prontamente aceita o desafio, e ao longo de sua jornada para criar somos introduzidos ao vasto mundo dos ghost-writers e sua importância para a literatura atual. Além de ser nipo-americana, ela também é feminista e defende seus posicionamentos políticos através de uma militância que é amplamente mostrada na série. O último personagem do elenco principal, Sr. Peanutbutter (Paul F. Tompkins) é casado com Diane e um ator talentoso e gentil que está sempre disposto a ajudar sem importar a quem, mesmo que isso não lhe trague resultados positivos às vezes.

BoJack Horseman é uma das obras mais inteligentes que temos na atualidade, transpondo as barreiras da realidade e da ficção ao contar com um personagem que é uma celebridade até no nosso mundo real e que não está exatamente contente com isso. O ritmo satírico, crítico e repleto de humor sarcástico é justamente o impacto que, sem nos dar conta, precisávamos. E com a renovação para uma nova temporada que irá sair em breve, esperançosamente ela continuará conscientizando as pessoas de que o universo das celebridades não é o que as aparências tentam mostrar.

Beatriz
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Contadora de histórias que sonha em viajar o mundo e estudante de Direito no resto do tempo. Viciada em séries e em pesquisar sobre mitologia.

 

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