As reflexões e problemáticas de Eu, Tu e Ela

Eu, tu e ela 4

Buscando uma série curtinha e que pudesse assistir sem muito compromisso, me deparei com Eu, Tu e Ela, colocada na plataforma Netflix como uma de suas produções originais. A sinopse chama a atenção ao apresentar a pretensão de tratar de uma relação a três, aparentemente de forma leve e com um ar de “quebrar o tabu”. Algo assim desperta a curiosidade mas de cara também levanta as anteninhas em relação à abordagem problemática do tema: uma mulher se envolve com um casal, de um homem e uma mulher, por ser uma “acompanhante”, ou seja, algo como “prostituta de luxo”.

Tratando melhor da premissa da história, esta parte dos problemas na relação entre Jack e Emma, um casal que, apesar de se amarem, passam por dificuldades quanto a sua relação sexual, além de frustrações por não conseguirem engravidar. Tentando resolver a situação, Jack segue um péssimo conselho do seu irmão, no maior estilo “vai dar merda” e decide sair com Izzy, que é apresentada como uma “acompanhante”, que seria alguém a quem se paga por um encontro, embora a ideia não seja que haja relação sexual.

Nesse encontro, Jack e Izzy acabam tendo uma sintonia emocional, fazendo com que realmente se gostem. Arrependido pela situação, Jack confessa o ocorrido a Emma, sua esposa e ela decide também marcar um encontro com Izzy, como acompanhante, na intenção de descobrir o porquê de Jack ter se sentido daquela forma. Nesse encontro, Emma se surpreende e também se sente atraída por Izzy, da mesma forma que Jack, o que acaba por culminar nas tentativas do casal de se relacionar com ela, tanto amorosamente quanto sexualmente.

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A série tem seus pontos fortes por ter vários momentos verdadeiramente engraçados, brincando com os clichês românticos do cinema, e também por reconhecer que a situação retratada aparenta ser absurda, aproveitando isso para fazer algumas reflexões em relação à padronização na vida das pessoas, sobre como nos deixamos guiar pelas opiniões alheias e o quanto disso significa realmente estarmos felizes. Além disso, a pegada de comédia romântica nos faz torcer pelo “final feliz”, de forma inusitada, considerando que, ao invés de torcermos por duas pessoas ficarem juntas felizes para sempre, torcemos para que isso aconteça com três pessoas.

Nesse sentido, a série realmente traz alguns elementos interessantes para pensar a questão do poliamor, sua possibilidade e como grande parte dos problemas de uma relação como essa talvez estejam mais relacionadas a pressões sociais do que a um algum tipo de “instinto natural” do ser humano de só se relacionar com uma pessoa. Ver o desenvolvimento da paixão entre Izzy, Emma e Jack é bastante gostoso, principalmente pela narrativa evitar muitos clichês ruins de que a relação giraria em torno do homem, por exemplo.

Entretanto, isso não isenta o seriado de seus diversos problemas. De início, pode-se citar a repetição quase total de tantas séries, filmes e livros de se negarem a usar a palavra bissexualidade. Sempre colocando como uma espécie de “fase lésbica” ou “parte lésbica”, a série perde uma chance de abordar o tema de forma mais tranquila, sem grandes crises quanto a isso, o que decepciona um tanto. Além disso, há o fato de personagens não-brancos serem pouco desenvolvidos, sempre em segundo plano, recebendo menos atenção do que a maior parte dos personagens brancos da série, mesmo aqueles que não figuram entre os principais, ainda que aparentem ser bem mais interessantes para o decorrer do seriado.

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E ainda há o fator que mais me deixou encucada: a forma como a questão de Izzy ser uma “acompanhante” é tratada na série. A impressão geral é de que o fato dela ser uma acompanhante não é algo exatamente ruim, seria só mais um elemento que a sociedade trata com preconceito, assim como a relação poliamorosa ou o fato de Jack e Emma não terem filhos. Com uma abordagem extremamente liberal, o único problema no fato de Izzy se prostituir seria e o dinheiro manchar a relação de amor dos três. A série de certa forma romantiza a situação ao utilizar a quebra da relação de prostituição como uma espécie de “prova de amor”.

Seria possível fazer um texto inteiro apenas sobre a forma problemática de algumas abordagens sobre prostituição. Afinal, prostituição não é questão de “escolha”. Mesmo que você seja uma universitária que não precisa dela para ser o “ganha-pão”, faz apenas como uma espécie de “extra”, a prostituição não é uma escolha. Mesmo que você se divirta com ela. Mesmo que você acabe conhecendo pessoas por quem se apaixona. Mesmo que não haja nenhum abuso escrachado. Mesmo que pareça “libertação sexual”. Mesmo que pareça uma profissão. Não importa a situação, não é possível afirmar que prostituição é uma escolha pessoal. Não enquanto estamos em uma sociedade patriarcal, onde as mulheres aprendem a ver seu corpo como “moeda de troca”, a verem seus desejos tidos como “menos”, uma sociedade na qual se estabelece que tudo é passível de ser monetizado, inclusive nossos desejos e corpos, o que acaba por recair de forma mais forte nas mulheres.

Não à toa, refletindo sobre essas problemáticas, acabei por me questionar sobre o fato de ter me sentido bem com a série, ainda que toda sua premissa estivesse baseada na prostituição de uma mulher, sem que em nenhum momento isto fosse problematizado. Pelo contrário, é fácil chegar à conclusão de que aquilo é completamente normal, mais um tabu a ser descontruído pela sociedade. Mas não é. O desrespeito à mulher chega ao ponto de se considerar que até mesmo as questões mais íntimas da sua vida são passíveis de “pertencerem” a alguém, principalmente homens, através de uma troca monetária. E é esse desrespeito que precisa ser desconstruído, tratar o problema na raiz, não no sintoma.

Assim, ainda que a série possa proporcionar bons momentos, assim que se começa a refletir melhor sobre algumas de suas questões, gera incômodo, vai contra a primeiras impressões positivas que se pode ter. E quem sabe maiores reflexões não levariam a concluir pela existência de ainda mais problemas?

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Marina
meus textos | filmow | skoob
Militante do Levante Popular da Juventude, de esquerda, feminista, lésbica e afrontadora da família tradicional brasileira. Nas horas vagas, estuda Direito, devora quadrinhos, lê livros, assiste filmes e algumas séries.

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